Saiba mais sobre a Síndrome de Burnout

Saiba mais sobre a Síndrome de Burnout Por Carolina Dall’Olio São Paulo, 19 (AE) - O nome - síndrome de burnout - pode até soar estranho. Mas trata-se de uma doença muito presente em nosso dia-a-dia.

Agência Estado |

De acordo com pesquisa realizada pela International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR), três em cada dez trabalhadores apresentam um quadro crônico de estresse, que caracteriza a síndrome de burnout (em português, algo como "combustão completa").

O termo é usado para classificar um comportamento autodestrutivo, no qual o empregado violenta sua própria saúde no exercício profissional. "O funcionário com burnout é semelhante a uma vela: ao mesmo tempo em que ilumina o ambiente com seu esforço produtivo, acaba se desgastando até apagar", exemplifica Luiz Antônio Nogueira Martins, chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O estudo da Isma-BR, que é uma associação voltada para a pesquisa do estresse, mostra que o desempenho dos empregados que atingem essa condição é, em média, cinco horas inferior ao dos demais funcionários. Essa baixa produtividade, somada aos atrasos, às faltas e aos gastos com a saúde desses trabalhadores, causa às empresas, segundo cálculos da entidade, um prejuízo anual equivalente a pouco mais de R$ 90 bilhões - ou 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. "Além das perdas financeiras, esse tipo de profissional atrapalha o ambiente de trabalho e influencia negativamente os colegas", afirma Ana Maria Rossi, diretora da Isma-BR.

É fácil identificar um trabalhador com burnout. É aquele funcionário que se irrita com facilidade, alterna momentos de agressividade e depressão, só reclama da vida, acha que tudo vai dar errado, não se envolve com os projetos da empresa, vive exausto e está sempre prestes a desmoronar. "Esse é o quadro típico da doença, claramente marcada pela estafa emocional e psicológica", resume Ana Maria.

Embora contar com um funcionário estafado seja prejudicial à empresa, esse comportamento costuma ser produto justamente do estresse ocasionado pelo trabalho. "As pessoas que são submetidas a pressões muito freqüentes ou muito duradouras estão mais propensas a desenvolver essa síndrome", declara a diretora da Isma-BR. "Portanto, é mais comum que ela se manifeste no universo do trabalho no qual a cobrança por resultados e a competitividade têm se tornado maiores."
A professora do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Alexandrina Medeiros, afirma que o burnout se diferencia dos outros quadros de tensão por ter como fator causador o estresse gerado entre as relações interpessoais. "Quem trabalha sozinho, sem a necessidade de interagir com colegas ou clientes, pode até se estressar", diz. "Mas a peculiaridade do burnout é justamente o desgaste gerado pela obrigatoriedade da convivência com o outro."
A síndrome acomete principalmente os profissionais da área de saúde, segurança e educação. "São atividades que, com freqüência, expõem o trabalhador a situações adversas e a um alto nível de estresse", justifica Luiz Antônio Nogueira Martins, da Unifesp. "Portanto, quem é mais vulnerável não consegue se adaptar à rotina e acaba sucumbindo à pressão."
Para Alexandrina, as pessoas que entram na empresa cheias de energia e, aos poucos, vão se frustrando com a realidade apresentada são ainda mais suscetíveis ao burnout. "Quando o funcionário se debate internamente para executar suas funções - seja por não ser vocacionado para o trabalho ou por ter que fazer as coisas de uma maneira distinta daquela que gostaria - vai minando suas forças e apagando o brilho inicial", avalia Alexandrina.

"É nessa hora que ele deve mudar de postura e decidir ou pelo abandono do emprego ou pela aceitação das condições impostas. A única coisa que não pode fazer é destruir a saúde."

Boxe 1: SAÚDE ABALADA AOS 25 ANOS
O publicitário Alexandre Almeida tem apenas 25 anos. "Mas por causa do estresse no trabalho minha saúde ficou parecida com a de um velhinho de 80."
Com pouco tempo de formado, Almeida foi contratado por uma grande agência de propaganda. Para não desperdiçar a oportunidade, decidiu se dedicar ao máximo. Isso significou ampliar sua jornada de trabalho até que não sobrasse mais tempo nem disposição para as festas, os amigos, a namorada, a família e, por fim, até para o sono.

"Para cumprir e entregar tudo do jeito que meus chefes queriam, era normal ficar no escritório 16, 18 horas seguidas. Às vezes eu deixava até de comer." Também se tornaram comuns as noites viradas na frente do computador. "A criação publicitária é uma área muito competitiva. Se o seu colega fica na agência até meia-noite, você vai querer ficar até meia-noite e meia. E isso vai piorando, até que você se dá conta de que o sol raiou e ninguém parou de trabalhar."
O primeiro sintoma do estresse de Almeida foi a falta de concentração. "Eu tinha que ler a mesma linha dez vezes para só então entender o que estava escrito." Depois, seu comportamento começou a mudar. "Fiquei com um pavio curtíssimo. Brigava com todo mundo por qualquer bobagem." Agindo assim, ele foi afastando as pessoas.

Um dia, Almeida chegou ao trabalho e, de tão cansado, não foi capaz sequer de levantar os braços para digitar no computador. "Fui para o médico e, na hora que ele viu minha cara, decidiu me internar por três dias." Na primeira noite que passou no hospital, não conseguiu pregar os olhos. "Fui dormir umas 30 horas depois."
O susto fez Almeida pensar. "Eu percebi que estava fazendo tudo errado." Assim, decidiu abandonar o emprego e fundar, ao lado de um amigo, seu próprio negócio. No novo trabalho, encontrou a motivação que lhe faltava: uma causa com a qual se identificasse.

A bandeira de Almeida é a preservação do meio ambiente. Hoje, ele desenvolve projetos ligados à sustentabilidade. Patrão de si mesmo, organiza sua agenda do jeito que bem entende. Faz questão de reservar parte do tempo para a família e os amigos. "Eu poderia ter enfartado. Mas escolhi ser feliz."

Boxe 2: O CORPO ESTÁ PRESENTE, A CABEÇA LONGE
Entre os trabalhadores que apresentam o quadro de burnout, 89% praticam o que a pesquisa da International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR) classifica como "presenteísmo". Ou seja, eles estão só fisicamente presentes no trabalho. Já o pensamento está bem longe. "Essa é a atitude típica de quem trabalha sem nenhuma motivação", avalia Ana Maria Rossi, diretora da entidade.

Para Alexandrina Medeiros, professora do Instituto de Psiquiatria da USP, essa postura traduz uma grave dificuldade de concentração. "Por mais que o funcionário se esforce, ele não consegue focar a atenção no trabalho, tamanha a aversão que o corpo manifesta", explica. "Já que não pode deixar de comparecer ao escritório, a forma que ele encontra de fugir dali é desviar o pensamento."
A pesquisa também revela que 94% dos profissionais com estresse crônico se disseram incapacitados para trabalhar. "Nesse caso, ouvimos dois tipos de argumento: ou os profissionais se sentem competentes demais para a função que exercem ou acham que não têm preparo suficiente para encarar o desafio", conta Ana Maria, do Isma-BR.

Também impressiona o porcentual dos que se declaram depressivos: 47%. "O burnout é como um guarda-chuva com vários gomos, que reúne uma série de manifestações físicas", explica. "A depressão é apenas um dos gomos." Exaustão, irritabilidade, falta de concentração e dificuldade no relacionamento foram outros sintomas citados pela maioria dos profissionais que apresentam a síndrome.

Ana Maria Rossi admite que, por abarcar vários sintomas, é difícil diagnosticar precisamente o burnout. "O próprio conceito ainda está em discussão entre os especialistas, já que trata-se de uma síndrome muito nova."
Porém, ela sugere que as empresas comecem a prestar atenção nesse problema e, é claro, tomem providências para afastá-lo. Aumentar o controle que cada profissional exerce sobre suas atividades é, segundo a diretora, uma forma de evitar o burnout. "Os profissionais que têm muita responsabilidade e pouco controle para desenvolver suas atividades apresentam até 67% mais chances de adoecer." Entretanto, Ana Maria afirma que o mais eficaz é promover uma sensação de justiça entre os funcionários, mostrando que na empresa não existe favorecimento nem politicagem. "O critério de valorização dos empregados deve ser sempre o mérito."
Para realizar a pesquisa, a Isma-BR entrevistou, em outubro do ano passado, mil trabalhadores nas cidades de Porto Alegre e São Paulo. Eles tinham entre 25 e 60 anos.


Boxe 1: DICAS PARA IDENTIFICAR O BURNOUT

PARA OS OUTROS
- O funcionário, ao entrar na empresa, apresenta um comportamento e, com o tempo, muda drasticamente a postura. Ele era pontual, mas agora falta muito e chega atrasado;
- O desempenho também caiu. E ele não está nem aí;
- As pessoas evitam ficar ao redor. Ninguém agüenta tanto estresse e pessimismo;

PARA VOCÊ
- Só de pensar em trabalhar,você já começa a passar mal;
- Seja por falta ou excesso de competência, você se sente
violentado ao realizar as atividades que lhe passam;
- Exausto o tempo todo, você está sempre a ponto de explodir ou de chorar;
- Conviver com certas pessoas do trabalho lhe incomoda demais;

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