Moscou, 4 ago (EFE) - Estadistas, historiadores e literatos prestaram homenagem hoje ao escritor russo e Prêmio Nobel de Literatura de 1970, Aleksandr Solzhenitsyn, autor de Arquipélago Gulag e que morreu na noite deste domingo em Moscou aos 89 anos. O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, e o primeiro-ministro do país, Vladimir Putin, foram os primeiros a apresentarem suas condolências à família do escritor, à qual também expressaram seus pêsames os presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e dos Estados Unidos, George W. Bush.

Solzhenitsyn morreu pouco antes da meia-noite (horário local) em decorrência de insuficiência cardíaca aguda, explicou à imprensa o filho do escritor, Stepan.

A viúva de Solzhenitsyn, Natalya, contou que o escritor trabalhou domingo, como fazia sempre, durante o dia todo na edição de sua obra completa em 30 tomos, e que ele se sentiu mal à noite.

"Queria morrer em casa e morreu em casa. Queria morrer no verão (hemisfério norte) e morreu no verão. Viveu uma vida muito difícil, mas muito feliz", disse Natalya à emissora de rádio "Eco de Moscou".

O corpo de Solzhenitsyn será enterrado na quarta-feira no cemitério do mosteiro de Donskoi, em Moscou, anunciou hoje a Igreja Ortodoxa Russa.

O velório acontecerá amanhã na sede da Academia de Ciências da Rússia, informou a Fundação Solzhenitsyn, dirigida por Natalya.

Solzhenitsyn, condecorado duas vezes por sua participação na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi condenado em fevereiro de 1945 a oito anos de confinamento em um campo de trabalho na Sibéria por chamar o então líder soviético Josef Stálin de "o bigodudo".

O escritor ficou famoso após a publicação, em 1962, do romance "Um dia na vida de Ivan Denisovich", sobre a vida dos confinados, e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1970 pela "força moral com a qual seguiu as tradições da literatura russa".

Em 1974, quando foi publicado no Ocidente o primeiro volume de "Arquipélago Gulag", para o qual entrevistou 227 ex-presos de campos de concentração soviéticos, o escritor foi deportado para a Alemanha Ocidental e privado de sua cidadania.

Após viver na Suíça e nos EUA e lecionar na Universidade de Stanford, Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, após 27 anos de exílio, atravessando todo o país de trem do Extremo Oriente até Moscou.

Embora trabalhasse sem cessar em seu arquivo e em sua obra completa, o escritor não vinha se sentido bem há algum tempo e evitava a vida pública, tanto que, no ano passado, não pôde ir ao Kremlin para receber das mãos de Putin, o então presidente russo, o Prêmio Estatal, entregue pelo chefe de Estado na casa do escritor.

No entanto, Solzhenitsyn teve forças para gravar uma mensagem de televisão na qual expressou a esperança de que sua obra, centrada nas repressões políticas da União Soviética, fique na memória do povo russo e o ajude a evitar novas tragédias históricas.

"Perdemos um grande homem e um grande escritor, cujos livros mudaram a mentalidade de milhões de pessoas, que mudaram sua atitude em relação ao passado e o presente do país", declarou hoje o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov.

Gorbachov destacou que Solzhenitsyn "foi um dos primeiros a denunciar a essência infra-humana do regime stalinista", e, com seus livros e crônicas dos campos de concentração, "fez uma contribuição inestimável para a superação do totalitarismo" na URSS.

A Academia Sueca lembrou hoje Solzhenitsyn como um dos mais importantes autores da segunda metade do século XX e destacou seu "confronto intelectual com o comunismo".

Em 1970, o autor de "Arquipélago Gulag" recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, concedido pela Academia Sueca, mas não foi a Estocolmo por temer que as autoridades russas negassem seu retorno ao país.

A Igreja Ortodoxa Russa disse que Solzhenitsyn foi um "exemplo de liberdade e dignidade humana, que ousava dizer a verdade aos poderosos". EFE si/wr/db

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