Polícia gaúcha afasta policiais suspeitos de racismo

Estudante diz que foi chamado de "negro sujo" e ameaçado por policiais

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

A Polícia Militar do Rio Grande do Sul afastou do serviço de rua três soldados e um sargento acusados de agredirem um universitário baiano na cidade gaúcha de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Eles foram indiciados por abuso de autoridade, injúria e lesões corporais. O estudante aguarda a transferência para a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Arquivo pessoal
Helder Santos, estudante do curso de história da Universidade Federal do Pampa (Unipampa)
Negro, homossexual e nordestino, o estudante de História na Universidade Federal do Pampa (Unipampa) Helder Santos Souza, 25 anos, diz ter sido vítima de agressões e ofensas racistas por parte de policiais militares quando saía de uma festa no dia 6 de fevereiro. A repercussão do caso na imprensa local o fez deixar a cidade na semana passada. Helder entrou na universidade pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e tenta transferência para um campus da UFRB próximo a Feira de Santana, sua cidade natal.

O sargento e os três soldados envolvidos na ação foram indiciados por lesões corporais, abuso de autoridade e injúria. A sindicância da corregedoria da Brigada Militar, a PM gaúcha, foi encaminhada nesta terça ao Ministério Público Militar. Os policiais foram afastados temporariamente do serviço de rua.

Para o comandante da PM na região, coronel Flávio da Silva Lopes, os suspeitos são “bons policiais” e nunca haviam sofrido punições na carreira. Segundo a versão da polícia, a abordagem foi feita em um grupo de jovens entre os quais se encontravam “elementos cometedores de delitos contumazes”. Helder teria interferido na ação da polícia.

“Até aí, a polícia tinha 100% de razão. No momento em que ele é agredido ou discriminado, realmente não é função da polícia. A discriminação racial, ou qualquer tipo de intolerância, não faz parte do dia a dia da polícia”, justifica o comandante.

O advogado Onir Araújo, que auxilia o estudante, considera positivo o indiciamento dos policiais, mas adverte que a resposta rápida pode ser uma estratégia para encerrar o assunto. “Nos surpreendeu a velocidade desse procedimento. É positivo, mas dá a impressão de que um ‘cala a boca’ no movimento negro. A gente sabe que a situação é muito mais complexa”, afirma.

Transferência

Helder deve viajar nesta quinta para a Bahia. Na sexta, está prevista uma reunião com o reitor da UFRB, Paulo Gabriel Nacif, para acertar a transferência do estudante para a universidade. Em visita à capital gaúcha, a ministra da Igualdade Racial, Luiza Barros, disse ao iG que a transferência estava bem encaminhada.

“A Seppir [Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial] teve contato com o reitor Paulo Gabriel, ele acolheu com muito entusiasmo a possibilidade de trazer o estudante de volta para a Bahia. Neste momento, dependemos de um trâmite administrativo que precisa acontecer entre as duas universidades para que a transferência se concretize”, afirmou a ministra.

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