Pioneira, Porto Alegre revê curso para motoboys e coloca mais prática

Reclamações levaram capital gaúcha a rever treinamento obrigatório. Até agora, apenas 15,6% dos motoboys passaram pelo curso

Marcela Donini, especial para o iG em Porto Alegre |

Na quarta-feira da semana passada (27), dia do motociclista, o motoboy Jeverson Mendes de Azevedo, 36 anos, de Porto Alegre, ganhou de “presente” do chefe um puxão de orelha: não pode mais fugir do Curso de Qualificação para motofretistas (o nome oficial dos motoboys) exigido pela resolução 350/10 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para quem trabalha sobre duas rodas.

Pioneira na implantação do curso especializado no Brasil, Porto Alegre (Rio Grande do Sul) já formou cerca de 1.250 profissionais desde setembro de 2010, pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat), o que representaria apenas 15,6% dos 8 mil motoboys na cidade, segundo estimativa do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindimoto).

Divulgação
Motoboy faz curso em Porto Alegre: eles acham que precisam de mais prática do que de teoria
Com o propósito de complementar o que se aprende à época da primeira habilitação, o curso oferecido pelo Senat tem 30 horas/aula, das quais 25 são teóricas, divididas em cinco tópicos: ética e cidadania na atividade profissional (3 horas/aula), noções básicas de legislação (7 horas/aula), gestão do risco sobre duas rodas (7 horas/aula), segurança e saúde (3 horas/aula) e transporte de cargas (5 horas/aula).

“A função do curso é especializar o motofretista e trabalhar a visão do condutor de que ele é um profissional”, resume a coordenadora de desenvolvimento profissional do Senat, Karina Salamoni.

O condutor precisa de mais controle sobre a moto, e isso ele só pega na prática, como em qualquer profissão. Você colocaria sua vida nas mãos de um cirurgião que não tivesse feito residência?”

As 5 horas restantes são em cima da moto sobre duas pistas que simulam diferentes situações, com complicadores como areia e brita, um diferencial em relação às atividades práticas nos Centro de Formação de Condutores (CFC). Para quem já pilota há anos, como Jeverson com sua experiência de quase duas décadas, nada parece ser novidade. Por isso, a demora em realizar o curso obrigatório.

Após incontáveis acidentes sem gravidade e um memorável depois do qual ficou 6 meses em coma, o motoboy não acredita que vá aprender algo válido para seu dia a dia. Apesar de admitir a culpa em algumas das ocorrências em que se envolveu – por distração com o celular, por exemplo –, para ele, o problema maior são os condutores menos experientes.“É muito fácil tirar a carteira. É muita gente nova andando de moto, gente sem experiência, que costuma correr demais”, comenta.

Curso prático

Seu pensamento vai ao encontro da opinião do presidente do Sindimoto, Valter Ferreira, para quem a proporção de uma hora de prática para 5 horas de aulas teóricas do curso exigido pelo Contran poderia ser invertida. Por isso, o Sindimoto, em parceria com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e o Detran, idealizou o curso Pilotagem Consciente sobre Duas Rodas, com intuito de oferecer mais horas de prática, especialmente a jovens condutores.

Assinado no meio de julho, o termo de cooperação entre Departamento Estadual de Trânsito (Detran/RS), EPTC e Sindimoto cria o curso que será oferecido gratuitamente ao público e terá carga horária de 15 horas, das quais 10 horas, no mínimo, serão práticas – o aluno poderá pilotar mais horas, se desejar, diz Ferreira. Ele acredita que o motociclista recém-habilitado pelo CFC não está preparado para as adversidades do trânsito. Mesmo aquele que fizer o curso especializado, afirma, carece de mais experiência. Por isso, a criação dessa capacitação complementar na capital.

“O condutor precisa de mais controle sobre a moto, e isso ele só pega na prática, como em qualquer profissão. Você colocaria sua vida nas mãos de um cirurgião que não tivesse feito residência?”, compara.

Carlos Rohde/Divulgação
Motoboy no centro de Porto Alegre: apenas 15,6% deles já fizeram o curso
Correios

O presidente do Sindimoto cita o exemplo do treinamento oferecido pelos Correios no Rio Grande do Sul. Referência para a empresa no restante do Brasil, o curso tem carga horária de 40 horas, sendo 32 horas de prática – nos outros Estados, o treinamento é apenas teórico.

Segundo o gerente do Centro de Transportes Operacionais dos Correios no Rio Grande do Sul, Joaquim Antonio Borges, no final da capacitação os funcionários pilotam nas ruas da cidade, para que se aproximem da realidade que vão enfrentar no trabalho. “Quando percebemos que um aluno ainda não tem condições, não o liberamos e recomendamos que faça as aulas práticas novamente”, explica.

Com esse modelo em funcionamento há 10 anos, a empresa registrou, em todo o ano de 2010, 58 acidentes no Estado gaúcho, sem nenhuma vítima fatal entre os seus 1.800 motociclistas habilitados.

Acidentes

Só no primeiro semestre de 2011, Porto Alegre registrou 2,5 mil acidentes envolvendo motos. São 155 a menos do que no mesmo período do ano passado, mas ainda um número que poderia ser reduzido, objetivo final da resolução do Contran que exige o curso especializado e da Lei 12.436/11 assinada em 6 de julho pela presidenta Dilma Rousseff proibindo as empresas contratantes de motoboys a estimularem comportamento inadequado, pagando por entrega ou prometendo serviços em tempo recorde.

De acordo com a EPTC, órgão ligado à prefeitura de Porto Alegre, não há dados exclusivos sobre a participação de motoboys nas infrações. Mas, segundo estimativa da empresa, a maior parte das ocorrências com danos materiais e ferimentos leves envolvem motociclistas profissionais, por circularem por mais tempo nas ruas. Já em relação ao número de acidentes com vítimas fatais – 25 registradas de janeiro a junho de 2011 – a crença é de que envolvam condutores a passeio.

Para o responsável pela equipe Educação para a Mobilidade da EPTC, Marcelo Antônio Hidalgo Madruga, ainda é cedo para atribuir a diminuição dos acidentes no primeiro semestre à realização do curso especializado, hoje oferecido por 12 unidades do Senat e 17 CFC no Estado, segundo o Detran/RS.

Quem já fez o curso

Nas ruas, é difícil encontrar um dos cerca de 1.250 motofretistas formados pelo centro de Porto Alegre. De 20 motoboys abordados pela reportagem na rua General Câmara, ponto conhecido do centro de Porto Alegre pela concentração de motos, nenhum havia feito a capacitação.

Embora eles aprendam coisas que já sabem da rua, é importante porque valoriza a classe. Mas está se tornando caro ser motoboy hoje. Além do curso, eles têm que desembolsar dinheiro para atender a uma série de exigências de segurança”

Na empresa A1000 Express, apenas 10% dos cerca de 100 funcionários têm o certificado. É o caso de Marcelo Lopes Goulart, 36 anos. Motociclista desde 1996, ele só foi trabalhar sobre duas rodas há um ano e meio. Por isso, diz, reconhece a importância do curso.

"As aulas práticas passam rapidinho, podia ter mais. Mas foi bom para mudar o jeito de pilotar, ter mais cuidado", comenta. O gerente operacional da A1000 Express, Adalberto de Araujo, também aplaude a iniciativa do governo, contudo, lamenta não haver apoio para pagar o custo de R$ 160 do treinamento do Senat.

"Embora eles aprendam coisas que já sabem da rua, é importante porque valoriza a classe. Mas está se tornando caro ser motoboy hoje. Além do curso, eles têm que desembolsar dinheiro para atender a uma série de exigências de segurança. Para a empresa, não vale a pena profissionalizar um funcionário que amanhã ou depois vai embora, como é comum acontecer", observa.

Araujo diz que a empresa tem estimulado a inscrição no curso, mas nem sempre é fácil conciliar os horários de trabalho com as vagas disponíveis. Por essa dificuldade em atender a demanda de profissionais, a fiscalização não tem sido tão rígida nas ruas. Agente da EPTC, Flávio Ávila afirma que, por enquanto, estão orientando os motoboys a procurar um centro que ofereça as aulas e cobrando apenas itens de segurança básicos, como capacete com adesivos refletivos, colete com visibilidade adequada e boas condições do veículo.

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