Mais velha que o Greenpeace, ONG gaúcha comemora 40 anos

Fundada em 1971, Agapan é considerada uma das mais antigas organizações ambientalistas do Brasil

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

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Carlos Dayrell faz protesto solitário contra corte de árvores em Porto Alegre
Em 1971, eles tinham meia dúzia de ideias vagas sobre ambientalismo e a vontade de fazer algo pela natureza – começando por evitar os cortes de árvores em Porto Alegre. Hoje, perto dos 90 anos, os fundadores da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) celebram o pioneirismo da entidade que inspirou o movimento ambientalista no Brasil.

Um jantar na noite da última quarta-feira, em um restaurante de Porto Alegre, celebrou os 40 anos da Agapan, considerada a primeira entidade ambientalista do Brasil. Fundada em abril de 1971, ela é mais velha até que o famoso Greenpeace, criado em setembro do mesmo ano.

Estiveram no jantar três dos fundadores: Hilda Zimmermann, Flávio Lewgoy e Augusto Carneiro, todos próximos de completar 90 anos. Eles foram contemporâneos do mais famoso ambientalista gaúcho, José Lutzenberger, primeiro presidente da entidade, morto em 2002.

Admirador das ideias do também gaúcho Henrique Luiz Rössler, um dos primeiros ecologistas brasileiros, que morreu em 1963, Carneiro foi apresentado por Hilda a José Lutzenberger, na época executivo da multinacional alemã Basf. Naquela época, a empresa decidiu parar de vender os defensivos agrícolas e passou a condenar o uso dos agrotóxicos nas lavouras do Estado.

“Ele puxou do bolso uma lista com mais de 20 pessoas ligadas à história natural, entre elas a Hilda. Ele viajou para a Alemanha e, quando voltou, eu já havia visitado todas aquelas pessoas”, conta Carneiro.

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Augusto Carneiro, de 88 anos, um dos fundadores da Agapan, durante jantar de comemoração de aniversário da entidade
A Agapan surgiu da percepção de algumas pessoas de que algo deveria ser feito para preservar a natureza. Hilda Zimmermann lembra de ficar até as duas horas da madrugada, na praia de Torres, ouvindo Lutzenberger falar sobre ecologia. “Foi a primeira lição que recebemos”, lembra. Hilda conta as peripécias de Lutzenberger a bordo de um Fusca, ameaçando funcionários da prefeitura de Porto Alegre que cortavam árvores na rua Santo Antônio, no bairro Bom Fim. “Ali, a luta começou mesmo”, diz.

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Protesto contra construções no Guaíba, em 1988: membros da Agapan colocam faixa no gasômetro, em Porto Alegre
A primeira causa da Agapan foi combater a poda indiscriminada de árvores em Porto Alegre, que acabava por matar as plantas. Quatro anos depois da fundação, a entidade ficou famosa pela atitude do então estudante de engenharia elétrica, Carlos Dayrell, que subiu em uma árvore que seria abatida para a construção de um viaduto. O protesto correu o Brasil e é considerado um marco do movimento ambientalista.

Ex-militante do Partido Comunista, do qual saiu após as denúncias dos crimes do sanguinário ditador Josef Stalin, nos anos 50, Augusto Carneiro diz que a Agapan não chegou a enfrentar problemas com a ditadura militar brasileira. “Não assustamos a ditadura, porque o nosso objetivo inicial era combater o escândalo de como matavam as arvores em Porto Alegre”, recorda.

Da defesa das árvores, a entidade alçou voos maiores. Ajudou na criação de um parque ecológico entre Porto Alegre e Viamão, combateu as construções na orla do lago Guaíba, discutiu poluição, legislação ambiental, energia nuclear e acabou influenciando na criação de outras entidades pelo Brasil.

“Até hoje, encontramos muitas entidades que dizem que a Agapan foi a inspiração”, afirma o atual presidente, Eduardo Finardi. A Agapan permanece como uma das entidades ambientalistas mais atuantes do Rio Grande do Sul. No cadastro, existem cerca de 1,8 mil pessoas associadas à entidade.

Aos 88 anos, mais que o dobro da idade da entidade que ajudou a fundar, Augusto Carneiro se dedica a distribuir os artigos e recortes de jornal que recolheu ao longo da vida. À reportagem, oferece três: um sobre a Amazônia, outro sobre o Parque Nacional do Araguaia e um terceiro sobre a problemática da pintura nos troncos de árvores.

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Entidade foi uma das primeiras a fazer manifestações ambientais no Brasil
Mesmo parecendo se despedir aos poucos da militância, desfazendo-se de seus materiais, Carneiro não deixa de acompanhar as questões atuais do ambientalismo. Para ele, a atuação do governo federal na área é “fraquíssima”.

“Nenhum governo no mundo enfrenta a questão ambiental como deveria enfrentar”, lamenta. “As margens dos rios não devem ser mexidas”, continua, referindo-se às mudanças propostas no Código Florestal brasileiro. E ataca o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B), relator da proposta: “O Aldo Rebelo, comunista, está a serviço dos latifundiários”. Rebelo é do mesmo partido o qual Carneiro deixou nos anos 50. “É, mas não tenho nenhuma culpa nisso”, finaliza.

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