Gene explica por que cidade gaúcha é capital mundial dos gêmeos

Hipóteses anteriores falavam em água milagrosa e em ação de médico nazista, mas pesquisadores desfizeram mistério de Cândido Godói

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Motivo de lendas que correram o mundo, o "mistério" dos gêmeos de Cândido Godói, município de sete mil habitantes localizado no noroeste do Rio Grande do Sul, ganhou uma explicação científica na manhã desta sexta com a divulgação dos resultados de uma pesquisa cujos primeiros passos foram dados há 17 anos. Nem o médico nazista Josef Mengele nem a suposta "água da fertilidade" existente no município nem a mão de Deus teriam participação importante no fenômeno. Contrastando com as explicações populares, o responsável seria um gene presente nas mulheres da região, descoberta que pode ajudar gestantes do mundo inteiro.

Foi num salão paroquial lotado que a população de Cândido Godói ficou sabendo, em primeira mão, por que o município produz gêmeos em uma proporção dez vezes maior do que o normal. O evento, organizado pela prefeitura, teve direito a mestre de cerimônias, composição de mesa oficial, hinos nacional e municipal e longos discursos. "Estamos vivendo um momento histórico. O fenômeno dos gêmeos tem merecido diversas abordagens ao longo dos anos, entrecruzando ciência, lendas populares e fé. Estamos escrevendo mais um de muitos capítulos que virão desta história", exaltou o secretário de Educação, Cleudir Stürmer.

Tudo para ouvir o resultado do aguardado trabalho realizado por pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital de Clínicas, ambas ligados ao Instituto Nacional de Genética Populacional (INaGeMP). Elas decidiram informar o resultado à população local antes de publicar as descobertas em uma revista científica.

Município de colonização alemã, Cândido Godói ficou conhecido como a "terra dos gêmeos" depois que as pesquisadoras Lavínia Schüler-Faccini e Úrsula Matte identificaram, no início dos anos 90, a alta incidência de gêmeos na comunidade de Linha São Pedro. A causa para tantos gêmeos em uma mesma localidade tem diversas versões no imaginário popular, desde a água do lajeado Dúvida, tida como fonte de fertilidade, até experimentos do médico nazista Josef Mengele, que morreu no Brasil e teria passado pela região nos anos 60.

O estudo foi retomado em abril de 2009, com novas tecnologias disponíveis e financiamento do CNPq. "Descobrimos duas coisas fundamentais: primeiro, que Mengele não tem nada relacionado com o evento. Em segundo lugar, descobrimos um gene que está na população há muito tempo e que é, sim, um fator que aumenta muito a probabilidade de gêmeos", resume Lavínia.

Isso é uma obra divina, nenhum homem consegue fazer", diz um dos gêmeos, desconfiado dos cientistas

A equipe de pesquisadores levantou registros de batismo, montou árvores genealógicas, entrevistou mães, coletou material genético e até amostras das águas subterrâneas. A primeira conclusão foi de que o número de gêmeos nascidos manteve o padrão antes e depois da suposta passagem de Mengele pela região. Entre 1927 e 1958, 11 gêmeos nasceram na Linha São Pedro e 24 em outras localidades. Entre 1959 e 2008, o número foi de 33 na comunidade "fértil" e 59 nas demais.

O fator preponderante, segundo o estudo, é a presença significativa da forma C de um gene da família p53 nas mães de gêmeos no município, que teria sido trazido pelos primeiros imigrantes, quase todos alemães, à região. Este gene oferece uma maior "proteção" à gravidez, o que favorece a gestação de gêmeos. Em uma pequena localidade como Linha São Pedro, com poucos moradores, o impacto foi grande. Os fatores ambientais, como a boa qualidade da água, proporcionam gestações saudáveis para as mães. A pesquisa estudou 42 mães de gêmeos e 101 mães que tiveram gestação com um único filho.

Olhares desconfiados

A plateia escutou a apresentação com um olhar desconfiado, pela complexidade das informações. "Vocês explicaram cientificamente e foi difícil de entender", levantou-se para dizer uma senhora. "Deixa eu tentar explicar com a linguagem do nosso povo", socorreu um homem.

A professora Eunice Maria Schneider, mãe de um casal de gêmeos, gostou do que ouviu, mas mantém o pé atrás. "Eu até concordo com os resultados, fico admirada do empenho que tiveram", afirma. No entanto, ela diz que não tem nenhum gêmeo na família e que foi só chegar na Linha São Pedro para trabalhar que em três meses ficou grávida de gêmeos. "Até então, todo muito estava crente que seria por causa da água", diz. Marta Freisleben, grávida de gêmeos, concorda. "Todo mundo falava que era por causa da água", comenta.

Os mais animados antes do encontro, desfilando com uma cuia de chimarrão "conhecida internacionalmente", como eles afirmam, eram os irmãos Nelson Luiz e Norberto Carlos Riske, 65 anos, moradores de Santa Rosa. A explicação científica não covenceu. "Isso é uma obra divina, nenhum homem consegue fazer", dizia Nelson. A opinião do irmão Norberto não era muito publicável.

Fim do mistério?

De cabelo comprido amarrado sob o chapéu e misturando na fala os sotaques germânico da região e argentino dos tempos em que viveu no país vizinho, Ivo Ferreira dos Passos se apresentava aos jornalistas: "Bom dia, eu sou o descobridor". Nascido na Linha São Pedro, ele é considerado o pioneiro na descoberta do caso na comunidade, ao lado do então vereador Ademar Rech e do professor José Lunkes. "A história da odisséia que fiz ainda não foi contada", reclama.

Nos anos 90, Ivo havia voltado para sua comunidade depois de interromper o curso de Geografia na universidade. Na casa do irmão, começou a desenvolver um minhocário. "Um dia, meu irmão comentou: 'Tu viu quantos gêmeos têm aqui na região?' Resolvi começar a contar", relata.

Daniel Cassol/iG
Irmãs gêmeas na palestra sobre por que existem tantos gêmeos em Cândido Godoy
A descoberta "oficial" do fenômeno data de 16 de outubro de 1993. Ivo e Ademar procuraram o jornalista Solano Reis, da vizinha Santa Rosa, para contar a história. Em parte, Ivo viu seu objetivo frustrado: "Queria que ele escrevesse sobre meu minhocário, mas a história dos gêmeos ofuscou", conta ele.

No dia 6 de fevereiro do ano seguinte foi realizado o primeiro encontro de gêmeos, evento que acontece até hoje, a cada dois anos. Procuradas pelos moradores, as pesquisadoras da UFRGS começaram a analisar o fenômeno. Retomada em 2009, a primeira parte do trabalho foi apresentada nesta sexta, depois de anos de polêmicas que rodaram o mundo.

A principal delas ocorreu depois da publicação de um livro em 2009 pelo jornalista argentino Jorge Camarasa, que sustentava que Josef Mengele teria feito experimentos com mulheres da região. A tese nunca foi aceita pela população local, que sentia constrangida pela relação com o médico nazista. Felizmente, o estudo das pesquisadoras pôs fim na questão.

Mas a polêmica não deve parar por aí, se depender do "descobridor" Ivo Ferreira dos Passos: "Você já ouviu falar em realidade fantástica, nanotecnologia e divisão de átomos?", questiona, para então desfiar uma complexa teoria envolvendo imaginário popular e um quê de ficção científica.

Descoberta mundial

Se o mistério continua na boca do povo de Cândido Godói e as teorias se multipliquem, no campo da ciência as pesquisadoras festejam a descoberta que pode colaborar com estudos em diferentes partes do mundo. A pesquisa realizada no município é uma das primeiras que relacionam tal gene à fertilidade e à gestação de gêmeos.

"Talvez a população de Cândido Godoi possa ser muito importante para outras pessoas que queiram ter filhos, mas não conseguem", destacou Lavínia. Além de publicar o resultado desta etapa da pesquisa em revistas científicas internacionais, os pesquisadores devem continuar analisando o gene e outros fatores que contribuam para a incidência de gêmeos, como a própria qualidade da água – a pesquisa indicou que as mães de gêmeos bebiam mais água direto da fonte.

“Para algumas coisas ainda não há resposta”, comenta a pesquisadora. “Pode ser que a água extremamente pura seja um fator protetor da gestação", explica.

A pesquisa também vai aprofundar os estudos sobre a colonização dos alemães na região, buscando identificar a origem do gene "fundador". Para a população local, as lendas e histórias que passam de geração em geração continuarão vivas. E a pequena cidade manterá a “benção” de figurar no mapa mundial, como resumiu o vice-prefeito Mário Backes: "Continuamos acreditando que o fenômeno é uma bênção divina".

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