Associação liga crime de policiais gaúchos a "formação relâmpago"

Em março, 5 agentes foram presos no Rio Grande do Sul, um dos maiores índices já registrados, após curso de formação sofrer corte

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Somente em março, pelo menos cinco policiais militares foram presos ao cometerem crimes como assalto a banco e homicídio no Rio Grande do Sul, um dos maiores números já registrados no Estado. Jovens, eles entraram na corporação no início de 2010, após um curso que durou menos de seis meses. A associação de soldados critica a formação feita às pressas, mas a Brigada Militar alega que o número de policiais envolvidos em crimes é pequeno perto do contingente.

Pelo menos cinco policiais militares gaúchos foram presos após cometerem crimes no mês de março. No primeiro caso, ocorrido no dia 11, um policial de 29 anos é acusado de matar a tiros o boxeador Tairone da Silva na cidade de Osório, no litoral norte. Na última terça, um PM de 27 anos foi preso por tentativa de sequestro de uma garota de programa em Porto Alegre. No dia 25, três policiais militares – um deles temporário – foram presos por suspeita de participar do assalto a uma agência bancária na cidade de Júlio de Castilhos, na região central do Estado.

A Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar (Abamf) diz que todos os envolvidos são oriundos da turma que ingressou na corporação em abril de 2010, após um curso de formação que durou quatro meses, mais um período de trabalho assistido nas ruas.

Para o presidente da associação, Leonel Lucas, o governo de Yeda Crusius (PSDB) apressou a formação para poder inchar o número de policiais nas ruas. “Esses policiais fizeram um curso de vigilante, que dura três meses. Queremos um curso como era antes, que faça a qualificação dos policiais. Eles não são culpados, mas a administração”, afirma. O dirigente da entidade acredita que o curso “relâmpago” favorece a entrada de maus policiais na corporação.

O diretor de ensino da Brigada Militar, coronel Uilsom Miranda do Amaral, confirma que os três policiais acusados de assaltarem um banco são do curso de 2010. Quanto aos outros, não sabe informar. Mesmo assim, o coronel diz que o número de policiais envolvidos em crime é baixo diante do contingente que entrou em 2010, de pouco mais de 3,5 mil. Para o coronel, não existem problemas no sistema de ingresso, mas ele admite que o curso mais rápido possa favorecer a entrada de criminosos. “Acredito que, como todo ser humano, acontece de passar algum policial com uma índole tendenciosa”, afirma.

Casos como os ocorridos em março servem para a Brigada corrigir erros, garante. “Esses casos são estudados nos futuros cursos. A instituição se utiliza dos seus problemas para se corrigir”, destaca. Anualmente, cerca de 90% do efetivo passa por um curso de atualização de 40 horas.

Acidentes de trânsito

A pouca formação dos policiais teve outra consequência grave. Um levantamento da Abamf apontou que 11 dos policiais formados em 2009 morreram em acidentes de trânsito no ano passado. Eles não recebem uma qualificação específica para conduzirem viaturas em situações de perigo. Por ordem da justiça, a Brigada vai oferecer cursos de direção específicos para os policiais.

Para o professor de ciências criminais da PUC-RS, Rodrigo Azevedo, a formação dos policiais gaúchos merece mais atenção. “O tema da formação é fundamental quando se trata desse tipo de abuso. Houve o problema das contratações emergenciais e do curto período para atuarem na rua. A função policial é complexa. De fato, é preciso que haja essa preocupação quanto a uma formação mais adequada”, destaca.

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