Em longo dia de homenagens, Santa Maria 'encerra primeiro ciclo' de luto

Por BBC | - Atualizada às

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Segundo psicóloga, há pessoas na cidade cobrando que as famílias sigam em frente e se incomodam com vigílias

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O primeiro aniversário do trágico incêndio da boate Kiss foi passado quase sem dormir por muitas famílias e amigos de vítimas em Santa Maria, que homenagearam os mortos desde o início da madrugada até o anoitecer da segunda-feira, com vigílias, caminhadas e orações.

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Processos se arrastam um ano após tragédia na boate de Santa Maria

Familiares e amigos de vítimas da boate Kiss participam de vigília ue marca um ano da tragédia (27/01/2014). Foto: Luca Erbes/Futura PressGrupo reclama da falta de punição aos responsáveis pela tragédia. Foto: Luca Erbes/Futura PressSobreviventes da Kiss ainda tossem e expelem fuligem um ano após o incêndio . Foto:  Luca Erbes/Futura PressVigília em homenagem aos 242 mortos no incêndio. Foto: Luca Erbes/Futura PressUm ano depois da tragédia, Santa Maria se prepara para homenagear os 242 mortos do incêndio da boate Kiss. Foto: DivulgaçãoAlém do mortos, centenas de pessoas se feriram no incêndio ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013. Foto: DivulgaçãoFachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria. Foto: DivulgaçãoFlores murchas foram retiradas e cartazes foram limpos por membros de algumas associações de familiares de vítimas da tragédia. Foto: DivulgaçãoFlores e cartazes com mensagens de familiares e amigos foram deixados na frente da boate Kiss após o incêndio. Foto: Vinícius Costa/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressVítima é socorrida durante incêndio na boate em Santa Maria. Foto: Deivid Dutra/A RazãoVista da Boate Kiss após o incêndio controlado que tomou conta do local na madrugada deste domingo matando mais de 200 pessoas em Santa Maria (RS). Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag. O DiaPoliciais civis realizam nova perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas ainda podem ser encontrados na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPoliciais realizam nova perícia na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, nesta terça-feira. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAutoridade lê a lista de nomes com os sobreviventes do incêndio que passam por atendimento no centro esportivo próximo à boate Kiss. Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag/O DiaEstado em que ficou o bar da boate Kiss após o incêndio que matou mais de 200 pessoas na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). Foto: Deivid Dutra/Jornal A Razão/Ag. O DiaFoto do resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 pessoas na boate Kiss, que sofreu um incêndio na madrugada deste domingo. Foto: Ricardo Giusti/O DiaDj Bolinha postou esta foto no Facebook antes do acidente. De acordo com testemunhas, os fogos de artifícios usados pela banda Gurizada Fandangueira provocaram o incêndio. Foto: Reprodução/FacebookdjbolinhasmFamiliares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: AP Photo/Ronald Mendes-Agencia RBSBombeiros fazem o socorro na boate enquanto populares chegam para acompanhar o resgate. Foto: Deivid Dutra/A RazãoO fogo começou às 2h da manhã, quando faíscas de um show pirotécnico atingiu a espuma do teto. Foto: Deivid Dutra/A RazãoFachada da boate Kiss pouco após o incêndio que matou pelo menos 200 pessoas neste domingo. Foto: Associated Press/RBSJovem desacordado é socorrido após incêndio em boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSFamiliares aguardam liberação para identificação dos corpos e informações em frente ao Centro Desportivo Municipal em Santa Maria (RS), na manhã deste domingo (27). Foto: Rafael Happke/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressBoate pegou fogo a partir das 2h, dizem bombeiros. Nº de mortos não é oficial e pode aumentar. Foto: Divulgação/Um SantamariensePM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro. Foto: ReutersEnterro da estudante Mariana Callegari, morta no incêndio da boate Kiss. Foto: ReutersFoto da Fuel mostra que festa universitária, realizada em setembro, teve atrações com fogo (canto esq.). Foto: Reprodução/FacebookCentenas de pessoas participaram de uma vigília em frente à boate Kiss, em Santa Maria, após missa de sétimo dia na Catedral Medianeira. Foto: Futura PressFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29). Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral. Na foto, a mãe Elaine Gonçalves. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do sepultamento do estudante Silvio Beuren, em Santa Maria. Foto: ReutersMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGarota se emociona durante caminhada em homenagem às vítimas (28/01). Foto: APMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilPessoas carregam cartazes em caminhada de protesto (28/01). Foto: APJovens participam de caminhada nos arredores da boate Kiss (28/01). Foto: APAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressSepultamento da vítima Alexandre Machado em cemitério na cidade de Santa Maria. Foto: ReutersAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressHomem chora durante enterro de Vinicius Rosado, que morreu em incêndio em casa noturna em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: APEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinicius Costa/FuturapressEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinícius Costa/Futura PressEnterro das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no Cemitério Municipal. Foto: Vinícius Costa/Futura PresEnterro do soldado Leonardo Machado em cemitério na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Foto: APGladimir Callegaro (2º à D), pai da vítima Marina Callegaro, e outros parentes choram durante seu enterro em cemitério na cidade de Santa Maria (28/1). Foto: APParentes e amigos são vistos perto de caixão durante enterro de Tanise Cielo, vítima de incêndio em Santa Maria (28/1). Foto: APFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinicius Costa/FuturapressFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado na quadra do Centro Desportivo Municipal na noite de domingo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressParentes e amigos participam de velório de vítima de incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul (27/01). Foto: APAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado em um ginásio do Centro Desportivo Municipal, ao lado do pavilhão para onde os corpos retirados da casa noturna foram levados. Foto: Futura PressVítimas do incêndio são veladas no ginásio de Santa Maria. Foto: Futura PressA presidenta Dilma Rousseff durante visita às famílias das vítimas da tragédia ocorrida em boate em Santa Maria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR Presidenta Dilma Rousseff se emociona em pronunciamento sobre incêndio em boate em Santa Maria. Foto: AP

A programação foi encerrada por uma comovente cerimônia na praça central de Santa Maria, onde cerca de duas mil pessoas se reuniram e escutaram em silêncio – ora irrompendo em palmas, ora em lágrimas – a leitura dos 242 nomes das pessoas que morreram um ano atrás, intercalados por batidas de tambor.

"Hoje foi o fechamento de um ciclo para essas pessoas", diz a psicóloga socorrista Melissa Couto, coordenadora de voluntariado da Cruz Vermelha.

"Elas passaram 365 dias vivendo pela primeira vez todas as datas comemorativas com essa ausência. Os primeiros aniversários, os primeiros dias das mães e dos pais, a primeira Páscoa, o primeiro Natal... Agora esse ciclo se fecha e elas sabem que esta é a realidade."

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Dor, comoção e revolta marcaram os eventos ao longo do dia. De manhã, familiares clamaram por justiça em uma marcha até o Ministério Público.

De tarde, na "mateada" (uma roda de chimarrão) com música ao vivo organizada na Praça Saldanha Marinho, no centro, o clima era fraterno.

Erva-mate e água quente estavam disponíveis em uma banca para quem participava da vigília. O evento "Abrace Santa Maria", convocado pelas redes sociais, havia contado com cinco mil adesões – e logo grupos de jovens começaram a aparecer, com cartazes oferecendo abraços gratuitos, distribuídos fartamente.

Ao longo do dia, muitas famílias visitaram os túmulos de seus entes queridos. Rosas brancas foram distribuídas nas ruas de Santa Maria. Laços brancos, flores e balões estavam na entrada de muitas lojas.

A família de Marta Beuren resolveu inovar. Pregou 242 borboletinhas de papel na vitrine de sua joalheria, dispostas como em revoada em torno da palavra "justiça".

Marta perdeu um dos filhos na tragédia. O mesmo ocorreu com uma funcionária da loja, que tinha apenas o filho único. Duas rosas brancas homenageavam os dois.

"As borboletas são o símbolo de que todos eles se transformaram", diz ela, usando uma camiseta com o rosto do filho e dois colares com pingentes de coração que não tira jamais do peito, um com a foto do filho e outro com a inscrição "Silvinho, amor imortal".

Na Praça Saldanha Marinho, no centro, era difícil encontrar alguém vestindo uma camiseta neutra. A maioria trazia fotos das vítimas – ao lado frases como "um ano de saudades", "a cada desafio, uma vitória", "inconformados" ou "queremos justiça".

BBC Brasil
Familiares passaram a noite em frente à antiga boate Kiss


Incomodados

A cobrança para que todos os responsáveis por falhas que levaram ao incêndio sejam punidos deu o tom de muitos eventos ao longo do fim de semana.

"A elaboração do luto das pessoas é muito difícil quando ninguém está pagando pelo que aconteceu", diz Audelima Paim Lavarda, psicóloga socorrista da Cruz Vermelha.

Ela diz que há pessoas na cidade cobrando que as famílias sigam em frente – e que se incomodam, por exemplo, com a permanência da tenda de vigília na praça, com fotos de todas as vítimas em seu interior.

"Não é que elas queiram que a coisa seja esquecida, mas querem se distanciar do sofrimento. Elas se deparam com a tenda da vigília e ficam tristes, e não querem ter esse sentimento na cidade para sempre", diz.

"O que essas pessoas não entendem, porém, é que esse foi um fato histórico que marcou para sempre Santa Maria", diz Audelima.

A psicóloga era uma de cerca de 25 integrantes da equipe de socorro e apoio psicossocial da Cruz Vermelha, que acompanhou os eventos desde a madrugada de segunda e teve que atender cerca de 50 pessoas ao longo da noite.

Na madrugada, a vigília em frente à boate Kiss foi marcada por momentos de forte emoção, sobretudo quando os presentes começaram a acender as velas que formavam um enorme coração, contando em voz alta até 242. Gritos de "justiça!" encerraram a contagem.

No asfalto em frente à boate, as silhuetas de 242 corpos estirados no chão haviam sido pintados, dando a dimensão física do número de vítimas da tragédia.

Coordenadora do grupo da Cruz Vermelha, Melissa Couto conta que cerca de 25 pessoas precisaram de atendimento até por volta das 4h, e depois disso a expectativa era que o movimento seria menor.

Ao término do evento, porém, o número de atendimentos duplicou. Ela acredita que, no amanhecer do dia, muitos pais reviveram os momentos em que souberam da tragédia.

"No ano passado, muitos não viveram a madrugada. Eles foram acordados no raiar do dia com um telefonema e saíram à procura de seus filhos. Neste ano, o amanhecer foi o momento de ressignificar a dor do ano passado", diz.

'Era uma cidade alegre'

A fachada da boate Kiss também recebeu visitas ao longo do dia. Alguns levavam flores, outros tiravam fotos no celular.

Clélia Grotto Rossato, de 90 anos, mora a duas quadras da boate e passou um tempo olhando os cartazes com fotos sorridentes dos jovens que morreram. Saiu aos prantos.

Ela não conhecia nenhuma das vítimas, mas lembra com nitidez o cheiro de fumaça e as sirenes das ambulâncias que passavam em frente à sua casa com as vítimas. Clélia diz nunca ter visto algo tão triste em toda a sua vida.

"Temos que rezar todos os dias para algo assim nunca aconteça de novo", diz ela, cujos netos costumavam frequentar a Kiss.

Sua filha, Miriam Viana, diz que Santa Maria mudou.

"Era uma cidade alegre. A mesma não é. Pode ser que um dia volte a ser. Mas essa rua aqui lembra muita coisa."

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