Vítimas do incêndio que matou 242 pessoas em Santa Maria esperam na fila do SUS por cirurgias reparadoras

Até o começo de 2013, Lauro Jocemir Faria dos Santos, de 39 anos, tinha uma propriedade rural onde trabalhava com hortifrutigranjeiro em Uruguaiana (RS), fronteira com o Uruguai. Hoje ele não consegue se abaixar para colher nada na fazenda. Santos também não anda mais a cavalo porque não pode se apoiar em uma das pernas, resultado do rompimento dos ligamentos medial, lateral e cruzado do joelho. Desde 27 de janeiro do ano passado, quando se tornou um dos sobreviventes da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria (RS), onde 242 pessoas morreram em um incêndio, ele aguarda na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer uma cirurgia.

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“Foi a pior visão que eu tive na vida e isso é um trauma até hoje”, resume ao lembrar do momento em que percebeu que a boate começava a pegar fogo e toda uma multidão corria do palco em direção à estreita porta de saída. Ele estava no meio do caminho, tentou fugir também, mas o fogo se alastrou e a fumaça preta tomou conta do lugar. Em meio ao breu, em que ninguém conseguia ver nada e com a temperatura insuportável por conta das chamas, Santos caiu. Quando acordou, percebeu que estava embaixo de outros corpos, queimados e pisoteados. “Para infelicidade dessas pessoas, foi a minha sorte”, explica ao contar que não foi atingido pelas chamas. Enquanto tentava respirar, percebeu alguém por cima e esticou o braço para pedir ajuda. “Parecia que eu estava literalmente respirando fogo." Foi puxado por entre cadáveres e carregado para fora.

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Pediu ajuda para conseguir andar, já que sentia muita dor nas pernas, e foi colocado no carro de um desconhecido, onde já estavam mais três vítimas. Só ele e mais um rapaz chegaram vivos ao hospital. Os outros dois morreram no banco de trás. “Até hoje, se eu sinto cheiro de queimado, me dá pânico”, conta.

Santos ficou quase oito meses sem conseguir ir a supermercados e não gosta de entrar em elevadores. Como sequela, usa bombinha para tratar a falta de ar. Por meses dormiu de luz acesa e portas abertas para evitar a escuridão.

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Já o professor de medicina veterinária Gustavo Cadore, de 32 anos, enfrenta compromissos, que começaram a fazer parte das suas atividades semanais desde que saiu do hospital. Também sobrevivente da tragédia na Kiss, duas ou três vezes por semana ele faz fisioterapia para melhor o movimento em uma das mãos. Já passou por uma cirurgia para tentar corrigir o problema, mas terá de fazer outra no início de fevereiro. Isso porque Cadore teve 40% do corpo queimado, braços e mãos foram as partes mais atingidas. Além disso, todo mês, precisa refazer exames e passar pelo médico.

“No primeiro mês depois de sair do coma, sonhava que estava em situações de risco. Mas as coisas que mais me marcaram foram os gritos das pessoas tentando sair e a fumaça. A primeira vez que respirei aquela fumaça, tive uma sensação que nunca tinha passado. Era como se você tivesse se afogando”, conta. O professor estava na área VIP da boate quando o fogo se espalhou. Tentou sair por uma porta lateral que estava trancada. A temperatura era tão quente que, nessa hora, sentiu que tinha queimado a palma da mão enquanto forçava a abertura. Só percebeu a gravidade dos ferimentos quando, depois de escapar, alguém avisou que estava saindo fumaça dos seus braços. Hoje ele tem que usar um creme hidratante para tratar a pele ressacada e tomar um remédio para o pulmão. Não se livrou completamente da tosse. “Eu me considero recuperado da parte psicológica. Não me abala”, diz ao contar que ficou com receio de ir a bares e boates só nas primeiras vezes. “O que dificulta é essa tosse constante. E o pior é o movimento das mãos. Tenho uma dor na pele, além de vários cuidados, como não poder sair no sol”, conclui ele, que ainda mora em Santa Maria.

Santos, por outro lado, só volta à cidade se for para visitar o irmão. “Fico muito sentido com o descaso. Os músicos têm sua parcela de culpa, mas, se tivesse fiscalização, essa tragédia não teria acontecido. Logo no início falaram que todo mundo teria suporte, passou todo esse tempo e nada”, diz irritado com a espera para sua cirurgia.

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