'Parecia que eu estava respirando fogo', conta sobrevivente da tragédia na Kiss

Por Renan Truffi - iG São Paulo | - Atualizada às

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Vítimas do incêndio que matou 242 pessoas em Santa Maria esperam na fila do SUS por cirurgias reparadoras

Até o começo de 2013, Lauro Jocemir Faria dos Santos, de 39 anos, tinha uma propriedade rural onde trabalhava com hortifrutigranjeiro em Uruguaiana (RS), fronteira com o Uruguai. Hoje ele não consegue se abaixar para colher nada na fazenda. Santos também não anda mais a cavalo porque não pode se apoiar em uma das pernas, resultado do rompimento dos ligamentos medial, lateral e cruzado do joelho. Desde 27 de janeiro do ano passado, quando se tornou um dos sobreviventes da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria (RS), onde 242 pessoas morreram em um incêndio, ele aguarda na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer uma cirurgia.

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Familiares e amigos de vítimas da boate Kiss participam de vigília ue marca um ano da tragédia (27/01/2014). Foto: Luca Erbes/Futura PressGrupo reclama da falta de punição aos responsáveis pela tragédia. Foto: Luca Erbes/Futura PressSobreviventes da Kiss ainda tossem e expelem fuligem um ano após o incêndio . Foto:  Luca Erbes/Futura PressVigília em homenagem aos 242 mortos no incêndio. Foto: Luca Erbes/Futura PressUm ano depois da tragédia, Santa Maria se prepara para homenagear os 242 mortos do incêndio da boate Kiss. Foto: DivulgaçãoAlém do mortos, centenas de pessoas se feriram no incêndio ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013. Foto: DivulgaçãoFachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria. Foto: DivulgaçãoFlores murchas foram retiradas e cartazes foram limpos por membros de algumas associações de familiares de vítimas da tragédia. Foto: DivulgaçãoFlores e cartazes com mensagens de familiares e amigos foram deixados na frente da boate Kiss após o incêndio. Foto: Vinícius Costa/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressVítima é socorrida durante incêndio na boate em Santa Maria. Foto: Deivid Dutra/A RazãoVista da Boate Kiss após o incêndio controlado que tomou conta do local na madrugada deste domingo matando mais de 200 pessoas em Santa Maria (RS). Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag. O DiaPoliciais civis realizam nova perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas ainda podem ser encontrados na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPoliciais realizam nova perícia na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, nesta terça-feira. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAutoridade lê a lista de nomes com os sobreviventes do incêndio que passam por atendimento no centro esportivo próximo à boate Kiss. Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag/O DiaEstado em que ficou o bar da boate Kiss após o incêndio que matou mais de 200 pessoas na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). Foto: Deivid Dutra/Jornal A Razão/Ag. O DiaFoto do resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 pessoas na boate Kiss, que sofreu um incêndio na madrugada deste domingo. Foto: Ricardo Giusti/O DiaDj Bolinha postou esta foto no Facebook antes do acidente. De acordo com testemunhas, os fogos de artifícios usados pela banda Gurizada Fandangueira provocaram o incêndio. Foto: Reprodução/FacebookdjbolinhasmFamiliares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: AP Photo/Ronald Mendes-Agencia RBSBombeiros fazem o socorro na boate enquanto populares chegam para acompanhar o resgate. Foto: Deivid Dutra/A RazãoO fogo começou às 2h da manhã, quando faíscas de um show pirotécnico atingiu a espuma do teto. Foto: Deivid Dutra/A RazãoFachada da boate Kiss pouco após o incêndio que matou pelo menos 200 pessoas neste domingo. Foto: Associated Press/RBSJovem desacordado é socorrido após incêndio em boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSFamiliares aguardam liberação para identificação dos corpos e informações em frente ao Centro Desportivo Municipal em Santa Maria (RS), na manhã deste domingo (27). Foto: Rafael Happke/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressBoate pegou fogo a partir das 2h, dizem bombeiros. Nº de mortos não é oficial e pode aumentar. Foto: Divulgação/Um SantamariensePM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro. Foto: ReutersEnterro da estudante Mariana Callegari, morta no incêndio da boate Kiss. Foto: ReutersFoto da Fuel mostra que festa universitária, realizada em setembro, teve atrações com fogo (canto esq.). Foto: Reprodução/FacebookCentenas de pessoas participaram de uma vigília em frente à boate Kiss, em Santa Maria, após missa de sétimo dia na Catedral Medianeira. Foto: Futura PressFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29). Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral. Na foto, a mãe Elaine Gonçalves. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do sepultamento do estudante Silvio Beuren, em Santa Maria. Foto: ReutersMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGarota se emociona durante caminhada em homenagem às vítimas (28/01). Foto: APMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilPessoas carregam cartazes em caminhada de protesto (28/01). Foto: APJovens participam de caminhada nos arredores da boate Kiss (28/01). Foto: APAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressSepultamento da vítima Alexandre Machado em cemitério na cidade de Santa Maria. Foto: ReutersAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressHomem chora durante enterro de Vinicius Rosado, que morreu em incêndio em casa noturna em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: APEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinicius Costa/FuturapressEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinícius Costa/Futura PressEnterro das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no Cemitério Municipal. Foto: Vinícius Costa/Futura PresEnterro do soldado Leonardo Machado em cemitério na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Foto: APGladimir Callegaro (2º à D), pai da vítima Marina Callegaro, e outros parentes choram durante seu enterro em cemitério na cidade de Santa Maria (28/1). Foto: APParentes e amigos são vistos perto de caixão durante enterro de Tanise Cielo, vítima de incêndio em Santa Maria (28/1). Foto: APFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinicius Costa/FuturapressFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado na quadra do Centro Desportivo Municipal na noite de domingo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressParentes e amigos participam de velório de vítima de incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul (27/01). Foto: APAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado em um ginásio do Centro Desportivo Municipal, ao lado do pavilhão para onde os corpos retirados da casa noturna foram levados. Foto: Futura PressVítimas do incêndio são veladas no ginásio de Santa Maria. Foto: Futura PressA presidenta Dilma Rousseff durante visita às famílias das vítimas da tragédia ocorrida em boate em Santa Maria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR Presidenta Dilma Rousseff se emociona em pronunciamento sobre incêndio em boate em Santa Maria. Foto: AP

“Foi a pior visão que eu tive na vida e isso é um trauma até hoje”, resume ao lembrar do momento em que percebeu que a boate começava a pegar fogo e toda uma multidão corria do palco em direção à estreita porta de saída. Ele estava no meio do caminho, tentou fugir também, mas o fogo se alastrou e a fumaça preta tomou conta do lugar. Em meio ao breu, em que ninguém conseguia ver nada e com a temperatura insuportável por conta das chamas, Santos caiu. Quando acordou, percebeu que estava embaixo de outros corpos, queimados e pisoteados. “Para infelicidade dessas pessoas, foi a minha sorte”, explica ao contar que não foi atingido pelas chamas. Enquanto tentava respirar, percebeu alguém por cima e esticou o braço para pedir ajuda. “Parecia que eu estava literalmente respirando fogo." Foi puxado por entre cadáveres e carregado para fora.

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Pediu ajuda para conseguir andar, já que sentia muita dor nas pernas, e foi colocado no carro de um desconhecido, onde já estavam mais três vítimas. Só ele e mais um rapaz chegaram vivos ao hospital. Os outros dois morreram no banco de trás. “Até hoje, se eu sinto cheiro de queimado, me dá pânico”, conta.

Santos ficou quase oito meses sem conseguir ir a supermercados e não gosta de entrar em elevadores. Como sequela, usa bombinha para tratar a falta de ar. Por meses dormiu de luz acesa e portas abertas para evitar a escuridão.

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Já o professor de medicina veterinária Gustavo Cadore, de 32 anos, enfrenta compromissos, que começaram a fazer parte das suas atividades semanais desde que saiu do hospital. Também sobrevivente da tragédia na Kiss, duas ou três vezes por semana ele faz fisioterapia para melhor o movimento em uma das mãos. Já passou por uma cirurgia para tentar corrigir o problema, mas terá de fazer outra no início de fevereiro. Isso porque Cadore teve 40% do corpo queimado, braços e mãos foram as partes mais atingidas. Além disso, todo mês, precisa refazer exames e passar pelo médico.

“No primeiro mês depois de sair do coma, sonhava que estava em situações de risco. Mas as coisas que mais me marcaram foram os gritos das pessoas tentando sair e a fumaça. A primeira vez que respirei aquela fumaça, tive uma sensação que nunca tinha passado. Era como se você tivesse se afogando”, conta. O professor estava na área VIP da boate quando o fogo se espalhou. Tentou sair por uma porta lateral que estava trancada. A temperatura era tão quente que, nessa hora, sentiu que tinha queimado a palma da mão enquanto forçava a abertura. Só percebeu a gravidade dos ferimentos quando, depois de escapar, alguém avisou que estava saindo fumaça dos seus braços. Hoje ele tem que usar um creme hidratante para tratar a pele ressacada e tomar um remédio para o pulmão. Não se livrou completamente da tosse. “Eu me considero recuperado da parte psicológica. Não me abala”, diz ao contar que ficou com receio de ir a bares e boates só nas primeiras vezes. “O que dificulta é essa tosse constante. E o pior é o movimento das mãos. Tenho uma dor na pele, além de vários cuidados, como não poder sair no sol”, conclui ele, que ainda mora em Santa Maria.

Santos, por outro lado, só volta à cidade se for para visitar o irmão. “Fico muito sentido com o descaso. Os músicos têm sua parcela de culpa, mas, se tivesse fiscalização, essa tragédia não teria acontecido. Logo no início falaram que todo mundo teria suporte, passou todo esse tempo e nada”, diz irritado com a espera para sua cirurgia.

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