É o trabalho que não queria fazer, diz diretor de documentário sobre Santa Maria

Por Renan Truffi - iG São Paulo |

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A pedido de familiares das vítimas, cineastas Luiz Alberto Cassol e Paulo Nascimento produzem filme sobre tragédia na boate Kiss e traçam paralelo com incêndio na Argentina

No dia 27 de janeiro de 2013, o cineasta Luiz Alberto Cassol estava em Santa Maria (RS), sua cidade natal, para visitar a mãe. Na madrugada daquele dia, um incêndio destruiu a boate Kiss e matou 242 pessoas. Apesar de não ter nenhum parente envolvido no incêndio, quase um ano depois da tragédia, ele e o colega Paulo Nascimento preparam um documentário sobre o caso, a pedido dos familiares das vítimas. Ainda que tenha aceitado a tarefa de fazer o filme, Cassol classifica o trabalho como “dolorido”.

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“Olha, para falar a verdade, esse é um documentário que eu não gostaria de ter que fazer, quando eles me agradecem, depois que fazemos alguma entrevista, eu sempre digo que não gostaria de estar fazendo isso. Essa tragédia não poderia ter acontecido. Ainda é muito dolorido voltar à cidade em função disso”, explica.

Assista o trailer do filme Janeiro 27, sobre a tragédia na Kiss:

A ideia para fazer o documentário partiu da própria Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), durante o último Festival de Cinema de Gramado, no qual Cassol e outros cineastas consultaram os parentes das vítimas sobre uma forma de homenagear os que morreram. Os pais, mães, irmãs e irmãos que representavam o grupo pediram então a produção de um documentário sobre o caso.

Veja a cobertura completa do incêndio em Santa Maria

Agora, ainda que o tema cause certa dor também na dupla, o objetivo é passar algumas mensagens que são comuns nos discursos dos entrevistados do filme. “Já que eles (vítimas) tiveram que passar por essa tragédia, que sirva para que isso nunca mais aconteça de novo”, é uma das reflexões mais comuns tanto para parentes como para sobreviventes presentes no filme. Por isso, o longa-metragem vai traçar paralelos entre a tragédia na Kiss e outros dramas famosos, como é o caso de um incêndio similar que aconteceu em Buenos Aires, na Argentina, em 2004.

Imagens: Vídeos mostram o momento em que começou o incêndio na casa noturna

A equipe de produção vai viajar à capital argentina e entrevistar também pessoas que perderam familiares no incêndio da boate República Cromañon, no bairro de Once. Na época, durante um show, um rojão foi usado dentro do local e também gerou chamas no teto do estabelecimento. Com todas as portas trancadas, para evitar que clientes saíssem sem pagar, assim como na Kiss, 194 pessoas morreram queimadas, asfixiadas ou pisoteadas. “É um forma de comparação e de tentar entender para que isso não se repita”, diz o cineasta.

Marcada pela tragédia

Prestes a completar um ano, o incêndio na Kiss e a consequente morte de jovens, ainda deixa marcas no cotidiano de Santa Maria. Isso porque, além de Cassol, que é nascido no município, Paulo Nascimento também conhece a cidade antes da tragédia, já que estudou e fez carreira de músico pelos bares da região. Um dos aspectos mais perceptíveis, segundo o cineasta, é o cuidado dos donos de bares e boates da cidade com todos os requisitos exigidos pela lei.

Mas a maior consequência do drama da Kiss, segundo Cassol, é como a cidade ficou e deve continuar marcada pela tragédia. “Continua sendo uma cidade jovem, uma cidade de cultura, universitária, eles falam que é o coração do Rio Grande, mas que ficou marcada pela tragédia. Eu não nego que isso vai fazer parte da história de Santa Maria. Isso é importante, inclusive, para luto dos familiares. Não se pode negar a tragédia”, conclui. O filme não deve ficar pronto até o dia que o incêndio completa um ano, mas uma versão curta deve ser exibida na cidade em 27 de janeiro.

Conheça algumas pessoas que sobreviveram ao incêndio na Kiss:

Naiara Neuenfeldt estava na Kiss com colegas da faculdade. Dez amigos morreram na tragédia, um era muito próximo . Foto: Arquivo pessoalGustavo Cadore estava no boate Kiss com um amigo quando a casa pegou fogo. Ele acredita ter perdido entre 10 e 15 conhecidos. Foto: Arquivo pessoalNaiara disse que a saída da Kiss tinha "uma bola humana". Quando caiu, foi pisoteada e ficou com grande hematoma nas costas. Foto: Arquivo pessoalGustavo diz ser abordado nas ruas por causa das queimaduras. "Não ligo, já contei minha história umas cem vezes", disse rindo. Foto: Arquivo pessoalMalu Dias trabalhava como auxiliar em uma clínica em Santa Maria. Não conhecia a boate Kiss e foi com amigos do trabalho. Foto: Arquivo pessoalQuando foi internado, Cadore chegou a ficar em coma induzido por dez dias. A mão mais afetada foi a direita e ele é destro. Foto: Arquivo pessoalAté hoje Malu não recuperou a voz e enfrenta crises de tosse. Para ela, a fumaça ainda causou problemas na visão e memória . Foto: Arquivo pessoalOfício foi encaminhado ao Ministério da Saúde com relatos das vítimas sobre ausência de remédios e longas filas do SUS. Foto: ReproduçãoFachada da Kiss na madrugada da tragédia que deixou 242 mortos, no Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01/13). Foto: Vinicius Costa/FuturapressPoliciais civis realizaram perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS (29/01/2013). Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressInterior da boate ficou destruído após o incêndio. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), em fevereiro de 2013. Foto: Wesley Santos/Futura PressEm fevereiro do ano passado, volta às aulas foi marcada por homenagem dos alunos da UFSM. Foto: Wesley Santos/Futura Press


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