Balada que era mantida pelo diretório dos estudantes da Universidade Federal de Santa Maria foi fechada no dia 8. Diretor assume riscos, mas pede novos espaços para os jovens

O Dia

A Prefeitura de Santa Maria usou pesos e medidas diferentes para avaliar boates do município gaúcho. Ao mesmo tempo em que manteve a Kiss aberta, interditou, no último dia 8, a que é mantida há 40 anos pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (EFSM). “Foi a única a ser fechada nos últimos tempos”, afirmou Leonardo da Silva Soares, 22 anos, que é aluno do curso de Enfermagem e diretor do DCE.

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Leonardo não considera injusta a interdição, admite que havia necessidade de melhorar as condições de segurança da boate, instalada no subsolo da Casa do Estudante Universitário I. O acesso é por uma escada acanhada, de dois lances, que fica nos fundos do prédio de oito andares no Centro de Santa Maria.

Com cerca de 300 metros quadrados, em nada lembra a decoração sofisticada daquela onde morreram centenas de frequentadores na madrugada do último domingo (27). A boate do DCE tem piso de cerâmica e paredes pintadas de preto em que proliferam imagens de ícones do universo pop como Beatles e Bob Marley.

No ano passado, vistoria feita pelo Corpo de Bombeiros exigiu a colocação de luzes de emergência e a troca do mecanismo de abertura das portas de emergência, que dão acesso a uma área interna do edifício. Todas ganharam mecanismos antipânico.

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As mudanças ainda não foram checadas pelos Bombeiros. Segundo Leonardo, a vistoria marcada para esta semana foi adiada por conta da tragédia na Kiss. Frequentar a boate não doía no apertado bolso dos estudantes. A entrada era gratuita e três garrafas de cerveja de 600 ml podiam ser compradas por R$ 10.

“Foi fechado um lugar onde não havia cobrança de ingresso, as pessoas entravam e saíam. Já a outra, um empreendimento comercial, ficou aberta”, reclamou Laurem Aguiar, 20 anos, aluna de Terapia Ocupacional.

Universidade planeja culto e como receberá estudantes

Um culto ecumênico no Espaço Multiúso do campus marcará, às 9h da próxima segunda-feira (4), o reinício das aulas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), suspensas desde a tragédia na boate Kiss. Até ontem, 104 alunos da instituição haviam morrido em consequência do incêndio.

Nos últimos dias, o reitor Felipe Martins Müller tem feito reuniões para planejar a retomada das atividades e o acolhimento dos estudantes. Equipes de psicólogos e assistentes sociais da UFSM têm atuado junto às famílias de mortos e feridos.

De acordo com a reitoria, detalhes ainda precisam ser definidos, como a necessidade de uma maior atenção para turmas em que houve muitas mortes, como no casos dos cursos de Agronomia e Tecnologia de Alimentos.

A direção da UFSM sabe que enfrentará momentos delicados nos próximos dias. Será preciso, por exemplo, definir como serão recolhidos os objetos de alunos mortos e que moravam na Casa do Estudante Universitário.

Vigilância Sanitária atesta que havia perturbação do sossego público

O Ministério Público Federal vinha cobrando providências em relação à boate - além de questões de segurança, vizinhos reclamavam do barulho. A interdição acabou sendo determinada pela Vigilância Sanitária do município, que atestou perturbação do sossego público e, segundo Leonardo, da ausência de itens como sabonetes líquidos nos banheiros.

O rigor, avalia, pode estar relacionado com a tensa relação do DCE com o prefeito Cezar Shirmer (PMDB), envolvidos há muito tempo em uma briga em torno do preço das passagens de ônibus. No início da noite de terça-feira, estudantes que participaram de uma passeata pela punição dos responsáveis pelas mortes na Kiss não economizaram vaias ao passar diante do prédio da prefeitura.

Como o ‘Informe do DIA’ registrou dia 28, a interdição foi muito criticada pelo DCE ,que, em nota, a classificou de perseguição política e de ‘medida autoritária’. Para a entidade, o gesto fazia parte de processo de criminalização dos ‘espaços públicos culturais da juventude’.

Leonardo Soares faz coro: diz que o fechamento da boate diminuiu ainda mais as poucas opções de lazer dos estudantes. “O poder público também tem a obrigação de criar espaços de convivência para a juventude”, conclui.

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