'Oxigênio acabou e entramos na raça', diz bombeiro de Santa Maria

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Soldado Luciano Pontes foi um dos primeiros a chegar à boate Kiss, onde incêndio matou mais de 230 pessoas, em cidade do Rio Grande do Sul

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Luciano Vargas Pontes, um dos primeiros bombeiros a chegar ao local do incêndio

O que se iniciou como um plantão atipicamente tranquilo para os bombeiros de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, acabou se transformando naquele que é o maior desastre enfrentado pela corporação em toda a sua história.

Após um sábado praticamente sem ocorrências, em que alguns bombeiros nem chegaram a deixar o quartel, as notícias sobre o incêndio que viria a matar mais de 230 pessoas em uma casa noturna, no centro da cidade, começaram a aparecer nas primeiras horas do último domingo.

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"Eu ainda não tinha saído do quartel. Já tinha jantado e estava no momento de descanso", conta o soldado do Corpo de Bombeiros Luciano Vargas Pontes, um dos primeiros homens a chegar ao local do incêndio.

As informações iniciais passadas por telefone, no entanto, não davam a real dimensão do desastre. Quando chegaram ao local, os bombeiros se depararam com uma cena inesperada: pessoas estavam deitadas na calçada e na rua em frente à boate Kiss. Antes mesmo de descer da viatura, chamaram reforços dos bombeiros e da polícia.

A espessa fumaça preta que saía do imóvel acrescentava ainda mais urgência ao incidente em que a maior parte das vítimas acabou por morrer asfixiada. "Chegamos com a noção de que tínhamos dez minutos para salvar o maior número de vítimas".

Familiares e amigos de vítimas da boate Kiss participam de vigília ue marca um ano da tragédia (27/01/2014). Foto: Luca Erbes/Futura PressGrupo reclama da falta de punição aos responsáveis pela tragédia. Foto: Luca Erbes/Futura PressSobreviventes da Kiss ainda tossem e expelem fuligem um ano após o incêndio . Foto:  Luca Erbes/Futura PressVigília em homenagem aos 242 mortos no incêndio. Foto: Luca Erbes/Futura PressUm ano depois da tragédia, Santa Maria se prepara para homenagear os 242 mortos do incêndio da boate Kiss. Foto: DivulgaçãoAlém do mortos, centenas de pessoas se feriram no incêndio ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013. Foto: DivulgaçãoFachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria. Foto: DivulgaçãoFlores murchas foram retiradas e cartazes foram limpos por membros de algumas associações de familiares de vítimas da tragédia. Foto: DivulgaçãoFlores e cartazes com mensagens de familiares e amigos foram deixados na frente da boate Kiss após o incêndio. Foto: Vinícius Costa/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressVítima é socorrida durante incêndio na boate em Santa Maria. Foto: Deivid Dutra/A RazãoVista da Boate Kiss após o incêndio controlado que tomou conta do local na madrugada deste domingo matando mais de 200 pessoas em Santa Maria (RS). Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag. O DiaPoliciais civis realizam nova perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas ainda podem ser encontrados na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPoliciais realizam nova perícia na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, nesta terça-feira. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAutoridade lê a lista de nomes com os sobreviventes do incêndio que passam por atendimento no centro esportivo próximo à boate Kiss. Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag/O DiaEstado em que ficou o bar da boate Kiss após o incêndio que matou mais de 200 pessoas na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). Foto: Deivid Dutra/Jornal A Razão/Ag. O DiaFoto do resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 pessoas na boate Kiss, que sofreu um incêndio na madrugada deste domingo. Foto: Ricardo Giusti/O DiaDj Bolinha postou esta foto no Facebook antes do acidente. De acordo com testemunhas, os fogos de artifícios usados pela banda Gurizada Fandangueira provocaram o incêndio. Foto: Reprodução/FacebookdjbolinhasmFamiliares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: AP Photo/Ronald Mendes-Agencia RBSBombeiros fazem o socorro na boate enquanto populares chegam para acompanhar o resgate. Foto: Deivid Dutra/A RazãoO fogo começou às 2h da manhã, quando faíscas de um show pirotécnico atingiu a espuma do teto. Foto: Deivid Dutra/A RazãoFachada da boate Kiss pouco após o incêndio que matou pelo menos 200 pessoas neste domingo. Foto: Associated Press/RBSJovem desacordado é socorrido após incêndio em boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSFamiliares aguardam liberação para identificação dos corpos e informações em frente ao Centro Desportivo Municipal em Santa Maria (RS), na manhã deste domingo (27). Foto: Rafael Happke/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressBoate pegou fogo a partir das 2h, dizem bombeiros. Nº de mortos não é oficial e pode aumentar. Foto: Divulgação/Um SantamariensePM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro. Foto: ReutersEnterro da estudante Mariana Callegari, morta no incêndio da boate Kiss. Foto: ReutersFoto da Fuel mostra que festa universitária, realizada em setembro, teve atrações com fogo (canto esq.). Foto: Reprodução/FacebookCentenas de pessoas participaram de uma vigília em frente à boate Kiss, em Santa Maria, após missa de sétimo dia na Catedral Medianeira. Foto: Futura PressFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29). Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral. Na foto, a mãe Elaine Gonçalves. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do sepultamento do estudante Silvio Beuren, em Santa Maria. Foto: ReutersMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGarota se emociona durante caminhada em homenagem às vítimas (28/01). Foto: APMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilPessoas carregam cartazes em caminhada de protesto (28/01). Foto: APJovens participam de caminhada nos arredores da boate Kiss (28/01). Foto: APAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressSepultamento da vítima Alexandre Machado em cemitério na cidade de Santa Maria. Foto: ReutersAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressHomem chora durante enterro de Vinicius Rosado, que morreu em incêndio em casa noturna em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: APEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinicius Costa/FuturapressEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinícius Costa/Futura PressEnterro das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no Cemitério Municipal. Foto: Vinícius Costa/Futura PresEnterro do soldado Leonardo Machado em cemitério na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Foto: APGladimir Callegaro (2º à D), pai da vítima Marina Callegaro, e outros parentes choram durante seu enterro em cemitério na cidade de Santa Maria (28/1). Foto: APParentes e amigos são vistos perto de caixão durante enterro de Tanise Cielo, vítima de incêndio em Santa Maria (28/1). Foto: APFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinicius Costa/FuturapressFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado na quadra do Centro Desportivo Municipal na noite de domingo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressParentes e amigos participam de velório de vítima de incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul (27/01). Foto: APAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado em um ginásio do Centro Desportivo Municipal, ao lado do pavilhão para onde os corpos retirados da casa noturna foram levados. Foto: Futura PressVítimas do incêndio são veladas no ginásio de Santa Maria. Foto: Futura PressA presidenta Dilma Rousseff durante visita às famílias das vítimas da tragédia ocorrida em boate em Santa Maria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR Presidenta Dilma Rousseff se emociona em pronunciamento sobre incêndio em boate em Santa Maria. Foto: AP

Corrida contra o tempo

Munidos de cilindros de oxigênio, homens do corpo de bombeiros começaram a retirar as vítimas do local, enquanto pessoas que conseguiram escapar da boate ou passavam pelo local organizavam corpos, feridos ou jovens inconsciente no meio da rua.

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"O tempo pode parecer curto, mas para nós e para as vítimas é uma eternidade", diz o sargento Sergio Gularte, que também participou da operação. Ele conta que a pressa em resgatar o maior número de pessoas no menor espaço de tempo fazia com que acabassem gastando muito oxigênio. Logo, os cilindros usados para a respiração estavam vazios. O jeito foi continuar o resgate sem eles.

"O oxigênio do cilindro acabou e tivemos que ir na raça, tínhamos que tirar todo mundo". Enquanto isso, homens que decidiram ajudar na operação receberam ferramentas dos bombeiros e começaram a quebrar as paredes da casa noturna para que a fumaça saísse.

O teto também foi parcialmente aberto para permitir a dissipação dos gases tóxicos resultantes da combustão do material de isolamento acústico da boate. "Quando (a fumaça) aliviou, entramos rastejando no chão, para evitar respirar os gases", lembra Gularte.

Firmeza

Mas além das dificuldades de entrar na boate e retirar corpos e sobreviventes, os bombeiros também tinham que lidar com o desgaste emocional de ter que realizar uma operação dessas proporções na cidade onde vivem, sob o risco de encontrarem rostos conhecidos entre as vítimas.

"Cada um de nós que estava atendendo (as vítimas) tinha a noção de que poderia ter alguém conhecido", disse Luciano Pontes. Este desgaste era ainda mais forte entre aqueles que têm filhos ou parentes da idade das vítimas, em sua maioria, jovens universitários.

O comandante do Centro Operacional de Crise, major Gerson da Rosa Pereira, chegou ao local por volta de 3h30 da manhã com a incumbência de gerenciar a operação. Apesar do treinamento e preparo de mais de 20 anos no Corpo de Bombeiros, ele conta ter chorado algumas vezes desde o último domingo.

"Tenho duas meninas, uma de 20 e outra de 18 anos, que frequentavam muito a boate. Era difícil não olhar para aquelas meninas que morreram no incêndio e não lembrar das suas", diz Pereira. "É chocante, mas você tem que superar. Tem que ter uma aparente firmeza".

Exaustão

Os últimos dias foram de trabalho quase ininterrupto para bombeiros, policiais, médicos e outros envolvidos no trabalho de remoção das vítimas e assistência às famílias.

Como ficaram diretamente expostos à fumaça do incêndio, os bombeiros que participaram da operação devem passar por alguns exames. Segundo médicos, pessoas expostas a gases tóxicos podem desenvolver quadros pulmonares graves dias após o incidente.

Mesmo com o início do sepultamento dos corpos, nesta segunda-feira, a tragédia está longe de acabar para os envolvidos. "Chego em casa e está passando isso na televisão, as pessoas me perguntam, não consigo desligar. Essa ocorrência é difícil por causa disso: não termina no final", diz o soldado dos bombeiros Luciano Pontes.

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