'A gente não consegue nem se sentir feliz por ter sobrevivido', diz vítima

Por Agência Brasil | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Fotógrafa Mariana Magalhães, de 24 anos, perdeu muitos amigos na tragédia na boate Kiss, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Antes da entrevista, ela já havia ido a 15 velórios

Agência Brasil

Mariana Magalhães, de 24 anos, estudante do quarto ano do curso de relações públicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi uma das sobreviventes do incêndio da boate Kiss. Perdeu muitos amigos, e quando falou com a reportagem, já havia ido a 15 velórios.

Major: Boate cumpria normas, mas obstáculos e lotação ampliaram tragédia
Infográfico: Veja como aconteceu o incêndio na boate em Santa Maria
Saiba quem são as vítimas do incêndio em boate de Santa Maria

Wilson Dias/Agência Brasil
Mariana Magalhães que trabalhava como fotógrada em festa na boate Kiss, na noite da tragédia

Nos trechos a seguir, ela conta que conseguiu sair sem ferimentos e levar consigo cinco pessoas. Mesmo assim, sente-se culpada: “Cinco pessoas cabem em uma mão”, disse. “A gente não consegue nem se sentir feliz por ter sobrevivido porque há mães que não vão abraçar seu filho, a minha mãe está me abraçando, mas ao mesmo tempo me senti feliz e culpada”, acrescenta.

Segurança: Bombeiros fazem pente fino em casas noturnas em São Paulo

Mariana, que estava trabalhando de fotógrafa na festa, falou ainda da condição das outras boates da cidade, que têm ainda menos segurança. “A Kiss foi a melhor boate da cidade para ter pegado fogo. Deus me perdoe, claro que a gente não queria que nada tivesse acontecido. Mas tem outras em que seria muito pior. Tem uma outra boate universitária que seria impossível, teria morrido todo mundo. Não teria como ninguém sobreviver”.

Agência Brasil - Como o fogo começou?
Mariana Magalhães - Eu estava na frente do palco. Eu não vi quando começou o fogo. Só vi quando já tinha fogo no teto. Aí eu vi que o vocalista estava tentando usar o extintor e não estava funcionando ou ele não estava conseguindo utilizar. Eu não sei como é que funciona o extintor, não sei se eu saberia usar. Não quer dizer que o extintor não estivesse funcionando. A gente não sabe o que aconteceu. O que eu sei é que ele não foi utilizado.

Veja imagens da tragédia de Santa Maria:

Familiares e amigos de vítimas da boate Kiss participam de vigília ue marca um ano da tragédia (27/01/2014). Foto: Luca Erbes/Futura PressGrupo reclama da falta de punição aos responsáveis pela tragédia. Foto: Luca Erbes/Futura PressSobreviventes da Kiss ainda tossem e expelem fuligem um ano após o incêndio . Foto:  Luca Erbes/Futura PressVigília em homenagem aos 242 mortos no incêndio. Foto: Luca Erbes/Futura PressUm ano depois da tragédia, Santa Maria se prepara para homenagear os 242 mortos do incêndio da boate Kiss. Foto: DivulgaçãoAlém do mortos, centenas de pessoas se feriram no incêndio ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013. Foto: DivulgaçãoFachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria. Foto: DivulgaçãoFlores murchas foram retiradas e cartazes foram limpos por membros de algumas associações de familiares de vítimas da tragédia. Foto: DivulgaçãoFlores e cartazes com mensagens de familiares e amigos foram deixados na frente da boate Kiss após o incêndio. Foto: Vinícius Costa/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressVítima é socorrida durante incêndio na boate em Santa Maria. Foto: Deivid Dutra/A RazãoVista da Boate Kiss após o incêndio controlado que tomou conta do local na madrugada deste domingo matando mais de 200 pessoas em Santa Maria (RS). Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag. O DiaPoliciais civis realizam nova perícia na boate Kiss, centro de Santa Maria, no RS. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPertences das vítimas ainda podem ser encontrados na entrada da casa noturna Kiss, em Santa Maria. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressPoliciais realizam nova perícia na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, nesta terça-feira. Foto: Mauricio Barbosa/Futura PressAutoridade lê a lista de nomes com os sobreviventes do incêndio que passam por atendimento no centro esportivo próximo à boate Kiss. Foto: Yuri Weber/Jornal A Razão/Ag/O DiaEstado em que ficou o bar da boate Kiss após o incêndio que matou mais de 200 pessoas na madrugada deste domingo em Santa Maria (RS). Foto: Deivid Dutra/Jornal A Razão/Ag. O DiaFoto do resgaste de sobrevivente do incêndio que matou mais de 200 pessoas na boate Kiss, que sofreu um incêndio na madrugada deste domingo. Foto: Ricardo Giusti/O DiaDj Bolinha postou esta foto no Facebook antes do acidente. De acordo com testemunhas, os fogos de artifícios usados pela banda Gurizada Fandangueira provocaram o incêndio. Foto: Reprodução/FacebookdjbolinhasmFamiliares de vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: AP Photo/Ronald Mendes-Agencia RBSBombeiros fazem o socorro na boate enquanto populares chegam para acompanhar o resgate. Foto: Deivid Dutra/A RazãoO fogo começou às 2h da manhã, quando faíscas de um show pirotécnico atingiu a espuma do teto. Foto: Deivid Dutra/A RazãoFachada da boate Kiss pouco após o incêndio que matou pelo menos 200 pessoas neste domingo. Foto: Associated Press/RBSJovem desacordado é socorrido após incêndio em boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: Associated Press/RBSFamiliares aguardam liberação para identificação dos corpos e informações em frente ao Centro Desportivo Municipal em Santa Maria (RS), na manhã deste domingo (27). Foto: Rafael Happke/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressFogo em boate deixou centenas de mortos e feridos na madrugada de domingo; famílias buscam informações. Foto: Juliano Mendes/Futura PressBoate pegou fogo a partir das 2h, dizem bombeiros. Nº de mortos não é oficial e pode aumentar. Foto: Divulgação/Um SantamariensePM deposita flores em homenagem aos mais de 230 mortos na calçada da boate Kiss, no centro. Foto: ReutersEnterro da estudante Mariana Callegari, morta no incêndio da boate Kiss. Foto: ReutersFoto da Fuel mostra que festa universitária, realizada em setembro, teve atrações com fogo (canto esq.). Foto: Reprodução/FacebookCentenas de pessoas participaram de uma vigília em frente à boate Kiss, em Santa Maria, após missa de sétimo dia na Catedral Medianeira. Foto: Futura PressFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29). Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral. Na foto, a mãe Elaine Gonçalves. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do velório de Gustava Marques, que teve morte cerebral ontem (29)
. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilFamiliares e amigos participam do sepultamento do estudante Silvio Beuren, em Santa Maria. Foto: ReutersMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGarota se emociona durante caminhada em homenagem às vítimas (28/01). Foto: APMilhares fazem passeata em homenagem às vítimas que morreram no incêndio na boate Kiss. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilPessoas carregam cartazes em caminhada de protesto (28/01). Foto: APJovens participam de caminhada nos arredores da boate Kiss (28/01). Foto: APAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressSepultamento da vítima Alexandre Machado em cemitério na cidade de Santa Maria. Foto: ReutersAlunos durante homenagens na volta às aulas da Universidade Federal Santa Maria (UFSM), nesta segunda-feira (04). Foto: Wesley Santos/Futura PressHomem chora durante enterro de Vinicius Rosado, que morreu em incêndio em casa noturna em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Foto: APEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinicius Costa/FuturapressEnterro das vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, nesta segunda-feira
. Foto: Vinícius Costa/Futura PressEnterro das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no Cemitério Municipal. Foto: Vinícius Costa/Futura PresEnterro do soldado Leonardo Machado em cemitério na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Foto: APGladimir Callegaro (2º à D), pai da vítima Marina Callegaro, e outros parentes choram durante seu enterro em cemitério na cidade de Santa Maria (28/1). Foto: APParentes e amigos são vistos perto de caixão durante enterro de Tanise Cielo, vítima de incêndio em Santa Maria (28/1). Foto: APFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinicius Costa/FuturapressFamiliares levam caixões para os cemitérios da cidade de Santa Maria, nesta segunda-feira (28). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado na quadra do Centro Desportivo Municipal na noite de domingo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinicius Costa/FuturapressParentes e amigos participam de velório de vítima de incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, Rio Grande do Sul (27/01). Foto: APAmigos e familiares das vítimas se emocionam durante velório coletivo (27/01). Foto: Vinícius Costa/Futura PressVelório coletivo é realizado em um ginásio do Centro Desportivo Municipal, ao lado do pavilhão para onde os corpos retirados da casa noturna foram levados. Foto: Futura PressVítimas do incêndio são veladas no ginásio de Santa Maria. Foto: Futura PressA presidenta Dilma Rousseff durante visita às famílias das vítimas da tragédia ocorrida em boate em Santa Maria. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR Presidenta Dilma Rousseff se emociona em pronunciamento sobre incêndio em boate em Santa Maria. Foto: AP

ABr - Como você conseguiu escapar?
Mariana Magalhães - Depois de ver o fogo, eu não esperei muito mais tempo para começar a correr e gritar. Saí correndo e gritando e ainda não tinha um fogo, assim, preocupante. Até confesso que achei que estava fazendo um fiasco, não imaginei que ia acontecer o que aconteceu. Mas, mesmo assim, alguma coisa me disse: 'saía correndo e gritando'. Saí e consegui tirar só cinco amigos junto comigo. Quando a gente olhou para trás, foi muito rápido. Não demorei dez segundos para atravessar a boate correndo. Quando a gente olhou para trás, a fumaça já tinha tomado conta e saía só gente agachada, vomitando, com convulsão. Fui muito rápido, isso que é o mais apavorante.

ABr - Você chegou a respirar a fumaça?
Mariana Magalhães - Eu sei que eu saí muito cedo, porque não deu tempo nem de respirar fumaça nem de ver fumaça. Eu vi fogo, aí quando veio aquela fumaça densa, que é de isopor, já estava lá fora.

ABr - Houve correria?
Mariana Magalhães - Não tinha correria quando eu saí, o pessoal não estava nem acreditando em mim. Quando a gente se deu por si, foi ver o que aconteceu, a gente olhou para trás, só saía fumaça pelas portas, fumaça, fumaça. E era uma fumaça muito preta, você não enxergava nada.
As pessoas estavam pretas, não queimadas, mas a fumaça era parecida com toner [material usado em máquinas impressoras], parecia que as pessoas tinham tomado banho de toner, eu não consegui nem identificar direito os amigos que estavam saindo.

ABr - Você tentou voltar?
Mariana Magalhães - Eu até fui muito consciente disso, porque eu sei que se eu voltasse, eu talvez eu não conseguisse sair [novamente]. Infelizmente, a gente não tem como [retirar todas as pessoas]. Deixa para os bombeiros agora, com equipamentos, retirar o resto do pessoal. Um dos meus amigos queria voltar. Eu tive que agarrar ele à força contra uma grade. Teve muita gente que voltou para ajudar, que aparentemente estava bem, mas que veio a morrer agora.

ABr - As pessoas não se deram conta da gravidade do incêndio?
Mariana Magalhães - Ninguém tinha ideia da gravidade, não era uma fumaça normal, isolamento acústico é todo de isopor. Isopor é a coisa mais tóxica que pode pegar fogo. Esse inimigo foi muito silencioso. As pessoas saíam bem, andando, daqui a pouco começavam a cair, a ter convulsões, a vomitar e apagavam na sua frente. Um sentimento de impotência, de não poder fazer nada, não tinha o que fazer. A gente saiu e ficou ali olhando se poderia ajudar alguém, tentou carregar, eu tentava pensar assim: 'poderia levar no meu carro'. Mas, perdi a bolsa com a chave do carro, então eu não podia nem sair com o meu carro dali para levar alguém ao hospital.

ABr - Houve bloqueio nas portas?
Mariana Magalhães - Quando eu saí, eu não fui barrada. Eu sei que tem gente que disse que foi barrada pelos seguranças. Quando eu saí, a porta estava aberta. São duas portas, uma entrada e uma saída, eu saí pela entrada, que tem um corrimão de ferro por dentro.

ABr - O local estava lotado?
Mariana Magalhães - Dava para se dizer que era uma festa boa. Eu estava trabalhando, tirando foto. Era uma festa boa. Não tenho noção de quantas pessoas tinham.

ABr - Você chegou a passar mal?
Mariana Magalhães - Eu não senti respirar fumaça, mas estava mastigando fuligem. Eu já fui ao hospital, a médica perguntou se eu respirei fumaça, eu disse: 'respirar não sei, mas mastiguei fuligem. Sentia nos dentes.'

ABr - Pensaram que você tinha morrido?
Mariana Magalhães - Fiquei sabendo disso primeiro no Facebook, do pessoal pensando que eu tinha morrido, porque tinham achado minha bolsa e meus documentos. Daí eu disse: 'to bem, vou lá me apresentar, para que eles não fiquem procurando mais um corpo dono dos documentos perdidos'. Depois um amigo da minha avó me ligou dizendo que tinha encontrado minha bolsa, e tava apavorado, achando que eu tinha morrido.

ABr - Como está sentindo hoje?
Mariana Magalhães - O João, dono do site em que eu trabalhava, morreu. Sei que foi uma grande perda. É uma situação assim que tu não sabes nem como que você vai sofrer. É tanta gente, você vai a cada velório, é uma situação diferente, é uma familiar diferente, há família que perdeu os dois únicos filhos. A gente não consegue nem se sentir feliz por ter sobrevivido porque tem mães que não vão abraçar o seu filho, a minha mãe está me abraçando, ao mesmo tempo me senti feliz e culpada.

ABr - Você ajudou na identificação?
Mariana Magalhães - Fui voluntária para ajudar a identificar os corpos. Minha mãe disse: 'não vai'. E eu respondi: 'Mãe agora não tem nada ver. A pessoa está morta'. O problema foi o monte de gente morrendo aos seus pés, e você não conseguir fazer nada. Porque, no caso, nem a massagem cardíaca que a gente fazia, resolvia, porque estavam intoxicados, então, não é uma coisa que vai reanimar. Tanto que está tendo reflexo agora. Amigos que saíram bem, que a gente se sentiu aliviado de ver, [morreram]. Eu dei um abraço em um amigo. Logo depois, ele deu entrada em um hospital e morreu.

ABr - Como é a situação das outras boates da cidade?
Mariana Magalhães - A Kiss foi a melhor boate da cidade para ter pegado fogo. Deus me perdoe, claro que a gente não queria que nada tivesse acontecido. Mas tem outras em que seria muito pior. Tem uma outra boate universitária que seria impossível, teria morrido todo mundo. Não teria como ninguém sobreviver.

Leia tudo sobre: incêndio em santa maria

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas