Roubos a joalherias a serviço do narcotráfico

Muitos objetos de roubos a joalherias acabam nas mãos de traficantes na forma de barras de ouro

Daniel Torres, iG São Paulo |

© AP
Polícia encontra barras de ouro dentro de uma parede em uma casa de Juan Carlos Abadía
A polícia colombiana invade uma casa em janeiro de 2007, na cidade de Cali, e encontra dentro de uma parede 307 quilos em barras de ouro, avaliados em US$ 6,3 milhões. A casa pertencia a Juan Carlos Abadía, narcotraficante mais procurado do mundo até ser preso no Brasil em 2007. Até chegar às paredes da casa de Abadía, o ouro dessas barras deve, em grande parte, ter vindo de joias que foram roubadas de joalherias, indústrias e distribuidores de várias partes do mundo. 

“O ouro é o dinheiro do narcotráfico. As joias roubadas são derretidas e viram barras. Vira um dinheiro que é aceito em qualquer lugar. Não são como cédulas que você consegue rastrear”, afirma o dono de joalheria Tufy Karam Geara, presidente da Associação de Joalheiros e Relojoeiros do Estado do Paraná (Arjep), entidade que conseguiu, ao lado do polícia do Estado, virar referência no País no combate a roubos a joalherias. 

“O narcotráfico está diretamente ligado ao roubo a joalherias. Os mais de 300 quilos de ouro encontrados na casa do Abadia mostram isso. Nenhuma fábrica no Brasil produz essa quantidade de ouro em um ano”, afirma Tufy Geara. 

No último fim de semana, pelo menos oito homens invadiram a joalheria Tiffany & Co., do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e levaram joias de alto valor em uma ação que durou poucos minutos. As imagens divulgadas pela polícia indicam que o crime foi obra de profissionais que estudaram a joalheria antes de atacá-la. Os ladrões, usando terno, gravata e óculos escuros, tentavam se confundir com clientes. 

“Os roubos são sempre muito rápidos. Por isso que a ação conjunta que montamos com a polícia aqui do Paraná deu certo”, diz Geara. As joalherias associadas têm um botão de pânico diretamente ligado à sede do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), divisão da polícia civil que cuida de roubo a bancos e joalherias. Segundo Geara, em média, a polícia chega à joalheria após 5 minutos do alarme acionado. 

“Há sete anos estávamos entre os líderes de assalto a joalherias no País com 3 ou 4 roubos por mês. Hoje em dia estamos na melhor colocação entre os outros Estados. Nesse ano, não foi registrado nenhum assalto a joalheria no Estado”, diz Geara. 

Receitas

Ele afirma que outras medidas tomadas no Paraná servir de exemplo para outros Estados: o cerco às bocas de ouro e a criação de uma delegacia especializada. As bocas de ouro são pontos de compra de joias e peças de ouro para revender. No varejo, os produtos são vendidos por peso, ou seja, correntes, anéis e pingentes são vendidos apenas pelo preço do ouro e muita vezes derretidos para a confecção de peças maiores. “Em São Paulo, se você vai ao centro da cidade vê diversos pontos onde pode se comprar ou vender ouro sem nenhum controle do Estado. Aqui em Curitiba esses pontos não existem mais”, diz Geara. 

A outra prática adotada no Paraná foi a especialização do Cope no combate aos roubos a joalherias. Em São Paulo, o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (DEIC) também tem uma Delegacia especializada em de Roubo de Jóias. “Não adianta deixar os roubos de joalherias juntos com outros crimes que não vai conseguir diminuir os índices. O criminoso que assalta joalherias fica o dia inteiro pensando em como te pegar. A polícia também precisa estar o dia todo pensando em como pegá-lo”, afirma. 

Ladrões nômades

A rotatividade na modalidade de roubo é mais uma dificuldade imposta pelas quadrilhas criminosas ao trabalho das polícias. Investigações ainda mostram que as quadrilhas migram de Estados para fazer praticar os roubos. “Os grupos criminosos vão trocando os alvos conforme a polícia começa a reprimir. Uma época elas atacam postos de gasolina, depois vão para bancos, agora elas fazem roubos a condomínios, e assim vai...”, diz Geara. 

Para o delegado do Cope Rodrigo de Oliveira, a ação de quadrilhas de outras localidades dificulta a prevenção e o trabalho de inteligência da polícia. “Essas quadrilhas mudam de Estado e isso dificulta a ação preventiva. No nosso caso, muitas vezes são quadrilhas de São Paulo e de Santa Catarina que fazem roubos a joalherias e bancos por aqui”, afirma o delegado. 

A ação de grupos que agem em outros Estados segue a linha de rotatividade de uma das maiores quadrilhas de roubo a joalherias do mundo, chamada de “Pink Panther”, grupo formado principalmente por ladrões ligados a paramilitares da ex-Iugoslávia, e que realizou roubos calculados em mais de US$ 300 milhões na última década em diversos países da Europa e Ásia. 

Em 2007, a Interpol criou um escritório só para investigar a “Pink Panther” e prendeu alguns membros da organização. Nas últimas três semanas, um montenegrino e um sérvio foram presos pelas polícias da Itália e da Áustria suspeitos de fazerem parte do grupo. O apelido de "Pink Panther" foi dado a quadrilha por detetives britânicos que descobriram um anel de diamantes escondidos em um pote de creme para o rosto, como no filme “A Pantera-Cor-de-Rosa (Pink Panther)”, comédia de 1963, estrelada por Peter Sellers.

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