Roberto Carlos ¿ 50 Anos de Música: A Oca é do Cacique

Nascido em 19 de abril, dia do índio, Roberto Carlos está de volta à oca, ou melhor, à Oca. Na exposição inaugurada na última sexta-feira na construção modernista plantada no parque Ibirapuera, seus tão falados 50 anos de carreira se materializam em brinquedos eletrônicos, telões de alta tecnologia, discos de ouro e platina, fones de ouvido, karaokês, fotos, carros possantes, troféus, figurinos de shows, cachimbos e presentes de fãs. Muitos presentes de fãs. Principalmente presentes de fãs.

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Não poderia ser casual o pequeno detalhe de ele conservar a coroa de artista mais popular do Brasil por cinco décadas. Roberto sabe como agradar quem lhe dá amor, e é para esse milhão de alguéns que a mostra Roberto Carlos ¿ 50 Anos de Música é 100% dedicada.

É grande a variedade de mimos expostos, como a demonstrar que ele guarda cada um dos presentinhos que recebe. Carrinhos de brinquedo de todos tipos, de Fuscas a Cadillacs. Réplicas em miniatura do ídolo. Desenhos, gravuras e pinturas de seu rosto. Imagens de santos e de Nossa Senhora. Corações vermelhos de pelúcia, às dezenas.

Pedro Alexandre Sanches

Roupas e discos de ouro de Roberto Carlos expostos em São Paulo

Pensando bem, nada disso tem grande valor documental ou conta muito para recapitular a história do cantor mais importante do Brasil. Mas faz aquele efeito aproximador, reconecta o rei com seus súditos, fortifica vínculos duradouros, faz toda a diferença. Não é por outra razão que um imenso jardim de rosas vermelhas remete diretamente ao hábito antigo de RC presentear os fãs da fila do gargarejo com flores ao final de cada show. Roberto Carlos É sua legião de fãs, seus seguidores SÃO Roberto Carlos.

Os objetos que Roberto traz de sua vida íntima para a visitação pública retratam-no, acima de tudo, como um homem simples, mais interessado nas banalidades do dia-a-dia que em luxos ou ostentações (o triciclo e os carrões estacionados na Oca são a exceção que confirma os costumes). Ainda aí, a exposição existe para aproximar de cada um de nós aquele que em 50 anos nunca nos faltou.

Isso não significa que não haja fortuna histórica guardada dentro da Oca. A discografia completíssima de RC está ali, ao alcance dos ouvidos, ao toque dos dedos. Isso inclui o álbum de estreia, Louco por Você (1961), mais tarde banido por ele próprio e nunca relançado em vinil ou em CD (verdade que fiquei me debatendo em vão para fazer a geringonça funcionar e o som aparecer no fone, mas imagino que seja porque era pré-estreia para jornalistas e a exposição não estava totalmente pronta).

Pedro Alexandre Sanches

Os fãs podem ouvir faixas de álbuns do músico na Oca

Telões e projeções funcionam o tempo todo sem parar, e a quantidade de imagens raras (entre outras não tanto assim) em movimento é um convite irresistível a entrar no túnel dos tempos da história da MPB. RC pode ser um sujeito simples, igual a qualquer um de nós, mas num dado momento dá vertigem olhar ao redor e encontrar o rosto do homem em qualquer um dos quatro cantos da Oca redonda.

O vídeo mais saboroso se chama O berço, e mostra imagens da pequena e pacata cidade de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, onde o mito nasceu. Talvez haja pouca coisa tão tocante na mostra como se ver diante da casinha azul, dos flamboyants, das ruas e do rio que explicam nas entrelinhas tudo sobre o cidadão mais brasileiro do Brasil. A propósito, o rio que corta Cachoeiro se chama Itapemirim ¿ nome indígena (como Ibirapuera e Maracanã), lembrança suave de que Roberto Carlos (como todos nós) é um índio.

Mas a exposição não toca tanto assim em genealogias e hereditariedades. O único (e garboso) documento nesse sentido é um quadro barroco onde se explica a origem ¿ portuguesa ¿ do sobrenome Braga. Não importa, Roberto Carlos Braga não seria o cacique da Oca se não tivesse sangue índio brotando de seus poros.

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