Vítimas do Bumba voltam para casas condenadas

Desabrigados de outras comunidades também retornam a locais com risco de deslizamentos. Alguns não conseguem vaga em abrigo

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

Pouco mais de um mês após a tragédia das chuvas, vítimas do Morro do Bumba e de outras comunidades de Niterói, a cidade mais afetada pelos temporais de abril, voltam para suas casas condenadas. O processo de retirada dos desabrigados de escolas no município, iniciado na semana passada, está provocando o retorno das pessoas aos locais afetados pelos deslizamentos de terra. Descontentes com as acomodações e a distância do novo abrigo preparado para recebê-los, em outra cidade, sobreviventes do Bumba voltaram para o local da tragédia do deslizamento que matou dezenas de pessoas - 45 corpos foram resgatados mas ainda há desaparecidos.

Hélio Motta
Casa de Luiz Antônio, à beira do abismo: "Vou dormir em casa hoje"
"Hoje eu vou dormir na minha casa. Não cabe mais ninguém no lugar que querem que a gente fique. Parece mais um presídio, com tumulto, gritaria, quatro famílias dividindo cada quarto", afirma Luiz Antônio da Silva, referindo-se ao 3º Batalhão de Infantaria, localizado em São Gonçalo, cidade vizinha, preparado para substituir as escolas como abrigo das vítimas. O alojamento do Exército ficou superlotado e desde ontem, terça-feira, não recebe mais desabrigados. 

Hélio Motta
Famílias não conseguem alugar casa

A família de Luiz Antônio foi transferida para o batalhão na semana passada, depois de ficar um mês instalada na Escola Estadual Machado de Assis, no Fonseca – um dos 50 abrigos improvisados na cidade por causa dos deslizamentos. Incomodados com a superlotação do quartel, a família voltou ao Morro do Bumba, onde moravam antes da tragédia. "Tem muita gente, de todos os lugares, sem controle", conta Rachel, mulher de Luiz Antônio. 

A Prefeitura de Niterói informou hoje que outro alojamento, localizado no Barreto, em Niterói, começou a receber hoje famílias que não têm para onde ir e estão deixando as escolas. No local, segundo a Prefeitura, foi montada a mesma estrutura estabelecida no 3º Batalhão, “com alimentação, transporte das crianças para escola e atendimento médico”. A informação oficial, contudo, contradiz o relato de quem viveu lá.

"Não tem transporte, não tem escola, nem atividade para as crianças. Por isso tive que parar de trabalhar, logo agora que precisamos muito de dinheiro", afirma Rachel, enquanto as crianças brincam no quintal limitado por um enorme barranco. A família recebeu o aluguel social, que foi repassado pela Prefeitura de Niterói do governo do estado na semana passada para 2,2 mil famílias. Outras 2,7 mil famílias também foram cadastradas para receber o benefício.

Hélio Motta
Rosana contesta critério de entrega de moradias para desabrigados do Morro do Bumba

O problema dos aluguéis na cidade é que os valores cobrados pelos proprietários superam os R$ 400 equivalentes ao aluguel social, além das garantias exigidas aos inquilinos. Proprietários, em geral, requerem depósitos equivalentes a dois ou três meses de aluguel.

"Recebi o aluguel na quarta-feira, mas já estava procurando casa antes. O último me cobrou R$ 2,2 mil, com tudo incluído, depósito e aluguel", conta a auxiliar de serviços gerais Rosana Fernandes, que também voltou para a casa que foi condenada pela Defesa Civil. E conta que ficou com a família num abrigo próximo ao Morro do Bumba, nas primeiras semanas que sucederam a tragédia. A igreja que a abrigou ainda mantém pessoas no templo, mas ela preferiu sair, com medo de doenças.

Rosana questiona o critério de escolha das famílias da comunidade beneficiadas com moradias novas, que receberam apartamentos localizados no bairro de Várzea das Moças, a cerca de 15 quilômetros do Bumba, pelo programa Minha Casa Minha Vida. O governador Sérgio C

Hélio Motta
Wélber mostra a rachadura gigante no quintal de sua casa: solo está cedendo
abral entregou 93 apartamentos, mas muitos ficaram de fora da lista de contemplados.

As residências que restaram no Morro do Bumba foram condenadas pela Defesa Civil. A área abrigou um aterro sanitário entre as décadas de 70 e 80. Casas foram construídas no terreno em pleno processo de decomposição do lixo, tornando a área totalmente vulnerável a desabamentos.

"Explicaram para a gente que o morro todo pode rachar, porque o solo está descendo e pode desabar a qualquer momento", conta Welber Alcântara, mostrando à reportagem do iG uma enorme fenda que se abriu no quintal de sua casa, onde ainda mora com a família. A casa fica no lado oposto ao da tragédia, numa área baixa.
Welber ainda paga a prestação da casa do Morro do Bumba. "Só acaba em janeiro", lamenta, ao lado da mulher.
Depois de procurarem por semanas, encontraram uma casa para alugar, por R$ 650 no Fonseca, bairro vizinho a Viçoso Jardim, local da tragédia. O valor supera em mais de 50% o aluguel social.

Hélio Motta
Vítimas do Bumba carregam móvel para casa condenada
Desabrigados falam em devolver o aluguel social


Com medo de perder as casas que já foram interditadas e sem outra opção de moradia, vítimas da maior tragédia provocada por chuvas no Estado do Rio falam em devolver o aluguel social. "O governo quis dar um cala-boca na gente com esse aluguel social que não resolveu nosso problema. Não vou deixar que derrubem minha casa sem me oferecerem um lugar para ir, nem que eu devolva esse aluguel social", afirma Célia Oliveira, que teve que deixar o abrigo provisório e reluta em ficar no alojamento.  

Com filhos pequenos para criar, Célia não sabe se fica na casa da irmã, ou na sua própria casa, ambas interditadas. “Ninguém resolve nossa situação; é como se a gente não tivesse valor porque vem do morro”, desabafa a irmã dela, Maria Célia.

A empregada doméstica Gerusa Nascimento voltou para a casa interditada pela Defesa Civil na segunda-feira, quando deixou a Escola Estadual Duque de Caxias, localizada na comunidade da Grota do Surucucu. Moradores estimam haver ao menos 800 desabrigados região, que abrange ainda a comunidade Cachoeira, em Niterói. "Não quero mais esse aluguel social, me arrependi de ter pego, porque não tenho o que fazer com ele", reclama.

Há relatos de volta para casa em todas as comunidades contactadas pelo iG, além do Morro do Bumba e da Grota do Surucucu. Morro da Cachoeira, Caixa D'agua, Bomfim, Rua Coelho, José Leomil, Rua Primor, Garganta exibem a mesma situação, da zona Sul a zona Norte da cidade.

“Se eu soubesse que para receber o aluguel social eu teria que sair da escola, eu não teria pego”, faz coro a aposentada Sandra Simões, da comunidade da Grota. Ela e outros desabrigados da escola Duque de Caxias contam que foram pressionados pela direção a sair do colégio. A direção nega. 

Nilmara Alvarez, o marido e as duas filhas voltaram nesta terça-feira para casa, mesmo com medo da pedra e do barranco que podem deslizar sobre a moradia a qualquer momento. Perto dali, a dona de casa Regiane Maria da Silva também voltou para casa com a filha de colo, porque foi até o abrigo no quartel de São Gonçalo mas não encontrou vaga. “Me disseram lá que estava lotado, então tive que voltar para casa, porque também não podemos ficar na escola”, contou. 

“Ficamos aqui abandonados, sem saber para onde ir”, reitera Ana Paula Paulino. A preocupação é dela é ser obrigada definitivamente a sair da escola Duque de Caxias com os cinco filhos pequenos.  

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