Violoncelos tocam cariocas no metrô e nas salas de concerto

Concerto de americano emocionou usuários em estação do Rio, em evento do Rio Cello Encounter, festival de música com nomes internacionais e apresentações gratuitas

iG Rio de Janeiro |

Alan Pereira parou e olhou à distância. Em seguida, se aproximou e ficou de pé, simplesmente ouvindo a música, em meio ao som insistente de uma cascata de água, de sinais do metrô, conversas de passantes e freadas de vagões. Alan é auxiliar de recolhimento do Metrô Rio e foi atraído de sua cabine para o concerto de Johann Sebastian Bach, tocado solo pelo violoncelista norte-americano Lars Hoefs, em seu instrumento francês Bernardel, datado de 1855.

George Magaraia
O violoncelista Lars Hoefs toca em estação do metrô carioca, no Rio Cello Encounter
“Fiquei escutando, é bacana para caramba. Traz uma paz...”, disse ao iG , com um sorriso, às 12h45 desta sexta-feira. “É violino, né?”, perguntou Fátima Aguiar, na saída, depois de passar pouco mais de três minutos de pé, observando o músico e a música. “Lindo, né?”, afirmou, depois de saber que se tratava de um “primo” de dimensões maiores, o violoncelo. A analista de sistemas Leide Fernandes também “desconhecia” o nome do instrumento, mas “estava passando”, resolveu dar uma “olhadinha” e ficou escutando uma peça inteira.

A bibliotecária Raquel Amancio se aproximou, olhou e ouviu de pé. Em seguida, sentou-se em uma das 30 cadeiras de plástico dispostas para a apresentação e ficou até o fim.

A performance de Lars Hoefs, que começou com 15 cadeiras tomadas e terminou meia hora depois quase com a platéia completa, foi um teaser para o Rio International Cello Encounter, festival de música que toma o Rio entre o domingo, dia 8, e o dia 20, em sua 16ª edição (veja a programação no site oficial www.riocello.com/ ). “É uma provocação”, explicou André Oliveira, diretor executivo e artístico do evento.

Evento se inspirou em violoncelista de Serajevo, que tocou durante a guerra

O Rio Cello Encounter trará ao Rio músicos estrangeiros de elite (não apenas violoncelistas), para concertos e master classes (aulas em grupo) e vai mesclar música clássica com rock, Beatles, samba e dança. Serão músicos de ao menos dez nacionalidades – que variam de noruegueses, canadenses a alemães e ingleses –, além de nomes nacionais como Wagner Tiso, Victor Biglione e Mauro Senise.

George Magaraia
O violoncelista americano Lars Hoefs se apresenta na estação de metrô da Carioca, enquanto usuários passam
Além de ocuparem palcos tradicionais, como o Theatro Municipal do Rio, os eventos vão trazer música para a Igreja da Candelária, o Hotel Copacabana Palace e outras estações do metrô carioca. O Cello Dance, que integra o programa, une música clássica tocada ao vivo com perfomances de dança contemporânea. Além do Rio, haverá eventos em Niterói, Teresópolis, Barra Mansa e Tatuí (SP).

Uma das intenções do violoncelista inglês radicado no Brasil David Chew ao criar o Rio Cello Encounter, em 1994, foi popularizar a música clássica no país e promover a integração social. Pai de quatro brasileiros e desde 1981 no Brasil, David se inspirou em Vedran Smailovic, da Orquestra da Ópera de Sarajevo, para criar o festival. Smailovic viu uma explosão matar 22 pessoas que esperavam em uma fila por pão, na guerra da Bósnia. Como homenagem e protesto, tocou 22 dias seguidos nas ruas de Sarajevo, em meio a escombros, em 1992 – depois, Smailovic tocou no Rio Cello Encounter.

Música de olhos bem fechados

Embora a maioria dos usuários do metrô tenha passado direto pelo violoncelo esta tarde, quase todos davam ao menos uma olhadinha para descobrir de onde saía aquele som diferente do usual em uma das mais movimentadas estações do Rio. Cerca de 50 pararam, por um ou dois minutos. Um jovem casal, na platéia, alternava atenção a Lars com beijos apaixonados. Já Ana Poubel chegou-se e ficou por quase 20 minutos, alguns deles de olhos fechados, sentindo a música.

George Magaraia
Lars Hoefs, que veio ao Brasil para o Rio Cello Encounter, apresentou-se esta tarde em metrô
“Estava com um pouco de pressa, mas deixei para lá. Chama muito a atenção, gosto muito da sonoridade do cello”, contou Ana, que pegou folhetos com o programa do festival e pretende assistir a mais apresentações. Professora de yoga, ela já usou músicas do quarteto de violoncelos finlandês Apocalyptica ( www.apocalyptica.com/us/home ) – que adapta composições de rock pesado para o instrumento – em aulas mais dinâmicas da prática indiana.

Lars, 30 anos e morador de Los Angeles, tocou outras três vezes no metrô do Rio, em outras edições do evento, anual, mas ainda pena para se concentrar totalmente. “Tem muito barulho, crianças correndo, não é o ambiente ideal, mas é bom para as pessoas conhecerem e, além disso, é um ótimo ensaio”, disse ele, que já se apresentou em boates, igrejas e até em hospitais, para idosos internados, como voluntário. Lars morou um ano no Rio, ano passado, como integrante da Orquestra Sinfônica Brasileira, e pretende voltar, para “conhecer melhor a cultura, a música e as mulheres brasileiras”, disse, em tom de brincadeira.

Violinista de elite, Joshua Bell ganhou apenas R$ 56 em metrô americano

Para Lars, a experiência de se apresentar fora de uma sala de concertos, vestindo camisa listrada cinza e preta casual, é “psicologicamente diferente”. “É mais difícil ser muito sério quando não se tem a luz, o terno, tudo”, afirmou.

George Magaraia
Público aplaude o violoncelista Lars Hoefs em apresentação na estação de metrô da Carioca, do Rio International Cello Encounter
De alguma maneira, Lars Hoefs repetia a experiência do violinista conterrâneo Joshua Bell, um dos violinistas mais reconhecidos do mundo. Em 2007, a pedido do jornal The Washington Post ( www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/04/04/AR2007040401721.html , em inglês), Bell tocou por 43 minutos em uma estação do metrô da capital dos Estados Unidos, incógnito, como um artista popular, figura que faz parte da paisagem na Europa e em alguns lugares dos EUA.
Sem cadeiras, poucos dos 1.097 usuários pararam, e o violinista tido como um virtuose no universo da música clássica – e cujos concertos custam US$ 100 para quem quer um bom assento – amealhou apenas US$ 32 (R$ 56) de “gorjeta”, após seis peças clássicas do mesmo Bach.

Lars, que nunca pôs sua caixa de violoncelo para receber dinheiro em metrôs ou na rua, não recebeu nada dos espectadores esta tarde, além de aplausos. Como na Carioca, todos os concertos do Rio Cello Encounter são gratuitos. Como viram os espectadores eventuais do metrô, não é preciso entender de música clássica para gostar.

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