Varreduras policiais em casas do Alemão dividem opinião dos moradores

PM disponibiliza posto em Olaria para receber denúncias de desvio de conduta durante operação

Carmen Moreira, iG Rio de Janeiro |

AFP
Policial da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) patrulha morro do Alemão

Depois de anos reféns do tráfico de drogas, moradores do Complexo do Alemão começam a respirar mais aliviados. A entrada das polícias Militar, Civil e Federal e das Forças Armadas na comunidade, que teve início no último domingo (28), aconteceu de forma rápida e apesar dos confrontos com os bandidos, deixou a região com uma sensação de tranquilidade que há muito não se via.

Mas depois de ocupar o território, a missão da polícia é ainda mais difícil e demorada: vasculhar toda a comunidade em busca de drogas, armas e criminosos que ainda podem estar escondidos por lá. A varredura, feita casa a casa pelos agentes, divide opiniões. Enquanto uns moradores garantem que a abordagem foi simpática, outros reclamam que foram tratados de forma truculenta pela polícia. E há quem tenha experimentado os dois lados.

Moradora da comunidade da Fazendinha, dentro do complexo de favelas, a corretora Bianca S., de 21 anos, conta que passou por momentos de muita tensão durante a vistoria de sua casa, na manhã de domingo. “Eles já chegaram apontando um fuzil pro meu marido. Mandaram a gente sair, mas como eu estava de sutiã pedi para vestir a blusa antes. Não deixaram e eu fui parar no meio da rua assim. Me senti humilhada”.

Por causa da situação, onde se sentiu constragida, e vendo sua filha de 1 ano e 8 meses assustada, Bianca começou a chorar. “E fui repreendida por um policial que disse que eu deveria ficar nervosa antes, com a presença dos bandidos na comunidade”, relatou. Por fim, “eles não acharam nada lá até porque nós somos trabalhadores e não fazemos nada ilícito”, disse.

Após ser liberada, a corretora decidiu ir até a casa de sua mãe, que também fica na comunidade. “Quase caí pra trás quando outros policiais, também vestidos de preto, como os que foram em minha casa, apareceram para fazer a revista lá também”. Mas para sua surpresa, desta vez todos foram tratados da melhor forma possível. “Eles pediram licença pra entrar e até brincaram com a minha filha”, contou.

Outra varredura realizada na manhã de segunda-feira (29) e acompanhada pela reportagem do iG também deixou uma família bastante insatisfeita com o tratamento dos policiais. Um jovem, aparentando 20 anos de idade, foi considerado suspeito e algemado antes mesmo que pudesse mostrar seus documentos. Após os apelos de sua mãe, que também estava em casa, ele teve as algemas retiradas, conseguiu se identificar e foi liberado.

Já Talita G., de 39 anos, tem lembranças bem mais amenas para contar. A doméstica, que tem uma filha de 4 anos, teve sua casa revistada duas vezes, por policiais civis e militares, e não tem qualquer reclamação a fazer. “Eles foram muito educados. Pediram que eu retirasse as coisas do meu armário, arrastaram alguns móveis e me fizeram perguntas, mas foi tudo de forma muito calma”, garantiu. Para Talita, o importante mesmo é tirar os marginais da comunidade. “Gostaria muito que vivêssemos com tranquilidade aqui na favela”.

Para quem tem algum tipo de reclamação a fazer sobre as vistorias realizadas no Complexo do Alemão, a Polícia Militar informou em nota que “há um posto da Corregedoria da PMERJ na sede do 16º BPM (rua Paranapanema, 769, Olaria) para atender todas as denúncias, que serão apuradas com rigor”. A PM garantiu também que não concorda com nenhum tipo de desvio de conduta dos agentes.

*Com informações de Anderson Ramos e Daniel Gonçalves, especial para o iG

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