Usinas nucleares no Brasil são mais seguras que as afetadas no Japão

Afirmação é da Eletronuclear, operadora de Angra 1 e 2, visitada pelo iG. Sistema de resfriamento é diferente do modelo das centrais em Fukushima

Sabrina Lorenzi, enviada especial a Angra dos Reis | 16/03/2011 15:15

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Na sala de controle de Angra 2, o operador Djair dos Santos, responsável no seu turno de trabalho por monitorar a parte mais delicada da usina, parece menos atarefado que seus colegas. Os outros se agitam, levantam, falam ao telefone, checam números, sentam-se novamente, mas Santos permanece imóvel na cadeira, observando o painel de controle de luzes coloridas e as telas à sua frente.

Em condições normais de funcionamento, o reator da usina permanece estável, quase sem mudanças. Por haver poucas alterações, operadores da sala de controle se comunicam com menos frequência com os funcionários que ficam no reator, na cúpula envolvida com aço e uma parede de concreto com cerca de 60 centímetros de espessura.

Uma vez por ano, há necessidade de reposição de combustível, o urânio enriquecido. Também há variações no núcleo da usina quando muda a quantidade de energia produzida pela usina, conforme define o Operador Nacional do Sistema Interligado (ONS). São os momentos que Santos tem que trabalhar mais.

De acordo com o superintendente de Operações de Angra 2, Ancelmo Carvalho, a produção de eletricidade da usina não tem se alterado nas últimas semanas: a central nuclear está operando a 100% da capacidade, sem trégua. Angra 1 também está funcionando no limite de sua capacidade instalada, pelo mesmo motivo: aumento do consumo de energia no País.

É importante salientar, contudo, que técnicos especialistas afirmam que o funcionamento a plena carga em usinas nucleares não compromete a segurança do sistema.

O governo brasileiro anunciou no final do ano passado incentivos fiscais para a atividade nuclear e mantém um plano para a construção de novas usinas no Nordeste. O número de centrais nucleares dependerá do crescimento da economia brasileira e da consequente demanda por mais energia. O plano continua firme, apesar da discussão mundial em torno do uso de energia atômica, despertada pelo risco de catástrofe nuclear no Japão.

Tecnologia mais segura

A Eletronuclear afirma que a tecnologia adotada no Brasil é considerada mais segura que o modelo usado no Norte do Japão - ao menos no que diz respeito à capacidade de resfriamento do reator. Criada em 1997, a Eletronuclear é uma empresa subsidiária da Eletrobras e responsável pela construção e operação de usinas termonucleares do País.

Em Angra 1 e 2 o vapor em contato com o combustível radioativo é separado dos circuitos de geração de vapor e resfriamento, o que não acontece com as usinas do tipo BWR (Boiling Water Reactor), tecnologia adotada no Japão. A separação de material atômico do restante da usina permite a continuidade de resfriamento, ao menos por algum tempo, mesmo com a interrupção de energia.

“Há cerca de 440 usinas nucleares no mundo, sendo 65% iguais a do Brasil e 25% como as que estavam na área afetada do Japão. Isso mostra que a indústria tem preferência pela PWR, o mesmo modelo de Angra 1 e 2”, avalia Leonan Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear.

Nas centrais de Angra, há um prédio que abriga o reator nuclear. É onde o urânio enriquecido sofre a fissão atômica, gerando calor e esquentando a água que fica neste mesmo sistema. A água quente percorre uma tubulação que passa por dentro de outro circuito, separado, também cheio de água, que acaba virando vapor. O vapor é então canalizado para mover as turbinas da usina e gerar energia, já em outro prédio. O modelo brasileiro, do tipo PWR (Pressurized Water Reactor), é mais complexo e mais caro.

No caso do modelo BWP, adotado pelas centrais de Fukushima, o vapor é o mesmo que movimenta diretamente as turbinas. Mais compacta, a tecnologia foi desenvolvida no final da década de 60, enquanto o modelo adotado pelo Brasil é dos anos 70. Guimarães explica que o gerador de vapor do modelo adotado no Brasil tem quantidade significativa de água que permitiria continuar o resfriamento sem a necessidade de bombas acionadas por energia elétrica.

“Como no BWR não existe o gerador de vapor, o resfriamento foi interrompido imediatamente. Por isso a PWR tem algumas vantagens sobre o outro modelo”, afirmou Guimarães, lembrando que metade das usinas nucleares japonesas adotam a mesma tecnologia experimentada no Brasil.

Apesar das dificuldades para resfriar reatores e impedir um desastre nuclear maior, o fato de as usinas japonesas terem permanecido de pé em uma área onde praticamente tudo foi destruído chama a atenção de especialistas. “Até onde eu sei, essas usinas estão atuando de forma brilhante”, avalia o coordenador de segurança e comunicação da Eletronuclear, José Manuel Dias.

“O que aconteceu foi uma sequência de eventos improváveis e mesmo assim as centrais estão de pé, com muitas dificuldades, mas tomando ações previstas no próprio projeto para tentar evitar que a usina libere parte do núcleo (com material radioativo) para o meio ambiente”, acrescentou o especialista, que trabalhou 10 anos na Agência Internacional de Energia.

Projetos

Desde o terremoto seguido de tsunami que arrasou o Norte do País, os japoneses tentam interromper o processo de aquecimento em reatores nucleares das centrais de Fukushima. Uma das medidas em curso é o uso da água do mar para resfriar os núcleos. O recurso está sendo utilizado após vários outros mecanismos de resfriamento dos reatores terem falhado. O primeiro sistema, que funciona a partir da energia gerada pela própria usina nuclear, foi automaticamente desligado juntamente com o reator.

Por medida de segurança, as unidades nucleares foram desligadas quando houve o terremoto. O segundo sistema, alimentado por eletricidade vinda de fora da usina, também não foi acionado porque as linhas de transmissão foram destruídas. Terceiro sistema capaz de acionar o resfriamento, os geradores movidos à óleo diesel das usinas japonesas teriam falhado por causa de enchentes no local da operação.

Para o professor de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ, Aquilino Senra, há falha em projetos que permitem a colocação de geradores de energia no mesmo plano da usina. “Eles têm que ficar no alto, para não serem alvos de ondas grandes”, comentou. Nas usinas de Angra, os geradores também ficam localizados no mesmo nível da usina, em prédio separado, ao lado do reator.

Angra 2 tem capacidade para gerar 1,35 mil megawatts elétricos e Angra 1, 657 megawatts elétricos. As duas produzem juntas eletricidade equivalente a um terço do consumo do Estado do Rio de Janeiro, cerca de 4% da energia elétrica consumida no País. Angra 3, em obras ao lado das duas outras usinas nucleares, com previsão para entrar em operação em 2015, deve produzir cerca de 1,4 mil megawatts elétricos.

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