Tamanho, localização e poderio do tráfico tornam operação difícil e sensível em área nobre. PM não tem hoje efetivo necessário

Vista da passarela da Rocinha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, em São Conrado. A favela só vai receber UPP em 2012
AE
Vista da passarela da Rocinha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, em São Conrado. A favela só vai receber UPP em 2012
Maior favela da zona sul do Rio e ainda sob o domínio do tráfico de drogas, a Rocinha só será pacificada em 2012 pelo governo do Estado. A chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Polícia Militar não será possível no ano que vem por falta de pessoal.

O cronograma só será antecipado emergencialmente se acontecer algum fato grave, como a onda de ataques, que levou à megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão. Com a bem-sucedida ocupação, a Secretaria de Segurança decidiu aproveitar a oportunidade e implantar a UPP, antes prevista para daqui a 16 meses, em 2012.

De acordo com a secretaria, a onda de ataques – comandada, segundo a Secretaria de Segurança, pelos traficantes dessa região – antecipou a tomada da área, considerada a mais inóspita e bem armada do Rio. A UPP lá deve chegar em outubro de 2011 – até lá o terreno será ocupado por militares do Exército.

Principal reduto da segunda maior facção de traficantes da cidade, a Rocinha funciona como entreposto de drogas para outras áreas do mesmo grupo. A Rocinha está entre as definidas pela Secretaria de Segurança como de “alta complexidade”, por seu tamanho, pelo número de saídas e pela localização, no coração da zona sul, com acessos por São Conrado e Gávea, bairros de classe média-alta. A comunidade também fica na saída do túnel Zuzu Angel, à beira da Auto-Estrada Lagoa-Barra, que liga os dois bairros da elite carioca.

Homens detidos após invasão de hotel, em agosto, pertenciam ao tráfico da Rocinha
Bruna Fantti
Homens detidos após invasão de hotel, em agosto, pertenciam ao tráfico da Rocinha
O local é sensível, e tiros e episódios de violência na região causam pânico na zona sul da cidade e grande repercussão na imprensa. Um exemplo disso foi o tiroteio entre policiais militares e traficantes da favela na manhã do sábado 21 de agosto, que acabou com a invasão do Hotel Intercontinental por criminosos e a tomada de 30 funcionários e cinco hóspedes como reféns. O incidente terminou com a prisão de dez homens e a apreensão de oito fuzis, cinco pistolas e granadas.

Com 56 mil habitantes, segundo o Censo 2000, do IBGE – mas com a população atual estimada entre 80 mil e 100 mil –, a Rocinha é cheia de vielas e becos que tornam difícil uma operação policial. Obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) têm aberto ruas em localidades como a Rua 4, antes um beco de menos de 1,5 metro de largura, de acordo com o relato de moradores antigos, mas boa parte da favela ainda é de acesso complicado.

Pelo seu tamanho e pela geografia da favela, a previsão é de cerca de 2.000 policiais necessários para atuar na UPP. A PM do Rio enfrenta déficit de agentes, e os concursos cada vez mais freqüentes continuam incapazes de superar a evasão – por desistência, aposentadoria, morte e invalidez.

Secretaria priorizou favelas da facção dos complexos do Alemão e da Penha

Outro motivo para a Rocinha ser deixada de lado, em princípio, é a estratégia da Secretaria de Segurança de atacar inicialmente a outra facção criminosa, maior e mais problemática, que promove mais assaltos violentos e “bondes” de criminosos pela cidade.

O perfil de traficantes da favela da zona sul e de seu bando em geral é de “comércio”, na definição do chefe de Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski. Embora muito bem armados, os criminosos da Rocinha têm como foco a venda de drogas e não assaltos. Procuram evitar atrair a atenção da polícia para sua região. São também homens mais velhos e experientes que outros de áreas da quadrilha rival.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, já afirmou que a ocupação na favela da zona sul é questão de tempo e usará os meios necessários. Ele, entretanto, ressalvou que pretende manter as próximas UPPs dentro da programação.

“Uma das vitórias no Complexo do Alemão é que se entrou lá. E na Rocinha se vai entrar. Se tiver de trazer gente de fora, mais equipamento blindado, mais aeronaves vamos chegar lá, como em outros lugares planejados. Mas tudo tem o seu tempo e planejamento, um horizonte. Saímos do foco em função dos acontecimentos e conseguimos completar o planejamento do Alemão graças às forças federais”, disse Beltrame, segundo quem já existe o levantamento de informações e planejamento básico para a UPP na Rocinha.

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