Um depoimento sobre como é o reveillon no alto de um morro pacificado

Repórter conta como a festa para cerca de trinta turistas movimenta favela da zona sul do Rio

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Os moradores parecem adorar a “invasão” dos turistas, curiosos por descobrirem o outro lado da cidade, o que fica no alto dos morros. De visão privilegiada, a favela Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, localizada na zona sul do Rio, com vista para as praias de Ipanema, Leblon, Copacabana e a Lagoa Rodrigo de Freitas, virou um novo ponto turístico para a cidade. E, agora, também serve de palco para festas privadas de reveillon.

Subir as centenas de degraus – impossível contá-los com precisão, mas são muitos – é o primeiro desafio do grupo que se forma às 22 horas, conforme combinado, para a subida rumo morro acima. Mais precisamente para a laje de Azelina Viana dos Santos, uma simpática senhorinha de 77 anos. É lá que se realizará a festa de reveillon destinada a turistas dispostos a pagar R$ 250. Nada de ceia ou comida em fartura. O valor corresponde a um brinde de Veuve Clicquot Brut, diante dos badalados fogos da praia de Copacabana. Parece pouco para muito dinheiro. Mas os que estão ali parecem não se importar. Divertem-se antes mesmo da festa começar para valer.

Os turistas, alguns deles argentinos e chilenos, vão tirando fotos de tudo que veem pela frente. Casebres diante de esgoto a céu aberto, lixos depositados nas minúsculas calçadas, biroscas que vendem caipirinha... Vários moradores convidam os visitantes a entrar em suas casas. Eu entrei em três delas. Na do Seu Miguel, um senhor que usa a sala como bar, o cheiro de rabanada dominava o ambiente. Ele fez questão de nos mostrar a vista que tem de sua laje, outro ponto espetacular da favela. Promete alugar o espaço no próximo ano, assim como fez dona Azelina. Diz que vai vender ingressos a R$ 500.

Isabela Kassow
Clima de aparente sossego pelas ruelas da favela, apesar da sujeito e do esgoto
Pelo caminho vamos cruzando com diversas crianças que repetem sem parar “happy new year, happy new year”. Algumas pedem para posar para fotos. Luiz do Nascimento, presidente da Associação de moradores da comunidade, me conta que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), instalada em dezembro de 2009 no local, trouxe melhorias para a área. Mas é preciso avançar.

O cheiro de esgoto incomoda. Assim como a sujeira para todo o canto. Violência realmente parece não haver mais no local, ao menos não como nos altos índices de outrora. A polícia está presente em todo canto. Na noite de réveillon eram 77 homens espalhados pelo lugar – em um dia normal são cerca de 30. A parte “bonita” da favela ficou lá embaixo, na rua Barão da Torre, no acesso do Complexo Rubem Braga, que dá nome ao elevador panorâmico de duas torres. No alto da comunidade, é fácil se perder em becos escuros e fedidos, esburacados e enlameados.

Mas a subida vai além. Para se chegar à casa de dona Azelina é preciso ter pernas. Muitas. Os degraus parecem não ter fim. O esforço acaba sendo compensado quando chega meia-noite. Os fogos pipocam pelo céu, bem em frente às lajes mais altas do morro, como que se estivessem sendo estourados para eles, os donos das lajes.

Isabela Kassow
Inscrição em um muro da favela
Dali é possível ver várias outras “coberturas” em festa, comemorando a chegada do ano-novo. Pergunto a uma jovem turista argentina que acompanha o grupo por que escolheu passar o reveillon numa favela. Ela me responde, brindando. “Por quê? É algo que nunca vou fazer igual na vida. Só o Rio para me proporcionar uma coisa dessas”, diz.

Ao ir embora, quase duas horas depois do fim dos fogos, percebo uma pichação contrária à instalação da UPP. É a única manifestação aparente à presença cotidiana dos policiais. “Não é um trabalho fácil, é trabalho de mudar a mentalidade de todos”, um deles me diz. Já na calçada, lá embaixo, ouvimos uma nova queima de fogos, que parece vir de um morro mais afastado. “Uma hora mais tarde, é a vez da bandidagem comemorar a virada do ano em algum ponto da cidade”, diz o policial.

Na favela Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, o reveillon chegou primeiro.

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