Tropa de elite, Core faz de invasão tática a retrato falado

Prima civil e menos famosa do Bope quer novo endereço, blindados modernos e mais estrutura para diminuir riscos em operações

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro | 13/11/2010 08:44

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"O Core entra onde outros policiais não chegam", diz coordenador

Uma Kombi com vidros fumê sobe a Rocinha na manhã da quinta-feira, 11 de março, pela Estrada da Gávea repleta de carros, motos e pedestres. Dentro da van, estão oito policiais armados de fuzis e pistolas da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), grupo de elite da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Entre eles, o delegado titular da Core, Marcus Maia, 35 anos. Os policiais têm informação confiável e objetivo audacioso: em uma ação tática fulminante, pretendem parar em frente à casa de Francisco Bonfim Lopes, o Nem, o chefe do tráfico na favela, desembarcar, invadir o imóvel e prendê-lo. E depois, "esperar o socorro, sozinhos na Rocinha", explicou Maia.

A tensão no interior do automóvel é evidente. É quase uma missão suicida: estima-se que haja ao menos 200 criminosos armados na Rocinha, e eles identificam ao menos três com pistola no caminho. O pequeno grupo teria o apoio de sete agentes, que cercariam a rota de fuga dos traficantes, pela mata. Tinha ido para lá cedo, qual andarilhos, mochila nas costas guardando os fuzis com a coronha retrátil. Outro grupo de apoio estava na Gávea, antes do túnel (para não ser visto), a cerca de 3km dali.

Cerca de 100 metros à frente da Kombi, uma batida de carros interrompe completamente o fluxo. Os policiais deliberam rapidamente sobre o que fazer – ainda faltava um bom trecho até a casa. "Abandonamos a Kombi e saímos correndo que nem malucos, subindo a Rocinha em direção à casa." Quando traficantes viram o grupo armado, começou um tiroteio intenso. Sete homens que tentaram fugir em direção à mata foram alvejados e mortos pelos "andarilhos" da Core.

Nem escapou, e o socorro da Core chegou em seguida. A operação, que envolveu 80 policiais de cinco delegacias diferentes, não prendeu ninguém, mas apreendeu três fuzis, uma metralhadora, quatro pistolas e granadas.

Aventura

Foto: Fabrizia Granatieri

Policiais da Core disparam seus fuzis em treinamento no Rio

É de ações assim, quase aventureiras à primeira vista, que a Core e seus homens de preto da Polícia Civil fizeram a fama. Diferentemente do primo mais famoso Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), da Polícia Militar, a Core atua com grupos menores de homens em ações mais táticas e pontuais, com objetivos mais específicos.

"Não temos a mesma logística. Falta efetivo e estrutura. Somos uma força mais tática, o Bope tem mais músculo, no sentido de efetivo. Somos um grupo pequeno, não temos pessoal suficiente para tomar uma favela inteira, mas entramos e tomamos qualquer casa, qualquer objetivo em uma favela, com dez, 15 homens", disse Marcus Maia.

O Bope tem um batalhão próprio, com área para treinamento, e maior efetivo operacional. A Core se espreme em uma área improvisada ao lado da sede da Chefia de Polícia. Na atual, por vezes, falta espaço e vaga para o blindado estacionar. Por isso, planeja mudar de sede, para um local mais amplo que possa abrigar todas as suas seções – há previsão de uma área para a Core na nova Cidade da Polícia, a ser construído.

A unidade usa blindados e quer trocá-los por outros mais modernos. Atualmente são dois – um quebrou na Avenida Brasil (via que liga o centro à zona oeste), em operação na quarta-feira.

‘Cada macaco no seu galho’

Foto: Fabrizia Granatieri

Marcus Maia, coordenador da Core: caveira, símbolo de operações especiais, nas bandeiras e até na camisa polo

Boa parte de seus integrantes operacionais fez uma das seis edições do Curso de Operações Táticas Especiais (COTE), com seis semanas de duração. É uma variação mais curta do COEsp (Curso de Operações Especiais Policiais), do Bope – retratado no filme Tropa de Elite –, onde ao menos três da Core já estiveram.

O delegado Marcus Maia nega haver rivalidade com o Bope. "Não tem nenhuma rivalidade, nós nos ajudamos e temos vários amigos lá. Não tem ciúme, mas é cada macaco no seu galho. Treinamos na favela deles (Tavares Bastos, onde fica o Bope), eles usam nossa casa de tiro... Temos nossos resultados, sabemos o que podemos fazer. E é bom ver o vizinho bem. Se precisar de algo, estamos aqui. O que não falta é vagabundo no Rio", afirma Maia, que reconhece não haver treinamento conjunto.

Como no Bope, há um culto ao "policial de operações especiais", tido como mais preparado que os demais. Nas paredes de entrada da sede da unidade, ao lado da sede da Chefia de Polícia, no centro, lêem-se a “Oração das Forças Especiais” e a lista dos 98 formados pelo Curso de Operações Táticas da Core e pelo Curso de Operações Especiais Policiais (COEsP) e a divisa “Falcão Sempre!”.

A Core usa alguns símbolos comuns de unidades de operações especiais, como o Bope. Durante operações, seus integrantes vestem gandolas (camisas) e calças pretas. O símbolo da unidade também é referência às forças especiais: uma caveira com um punhal transfixado – de baixo para cima – cruzada por dois fuzis.

Uma citação anônima gravada em um quadro define a Core, segundo um experiente policial, que se apresenta apenas como Vieira. “Se as condições forem normais, venceremos; se as condições forem anormais, também venceremos; e se, além de tudo, as condições forem totalmente desfavoráveis, ainda assim nós estaremos no páreo.”

Estrutura

Foto: Fabrizia Granatieri

Core enfrenta problemas de estrutura. Falta lugar até para estacionar seus veículos

Apesar de ser sua face mais visível, a Core não é só operação em favela. Seus 400 policiais são divididos em áreas tão diversas como escolta de dignitários (quase cem policiais), atiradores de precisão (snipers), Esquadrão Antibomba, Retrato Falado, Aeropolicial (cerca de 20, entre pilotos e tripulantes atiradores, de três helicópteros), Operações com Cães, lavagem de dinheiro, Operações Marítimas, entre outras.

O delegado niteroiense e bacharel em Direito nunca imaginou virar policial. Após concluir a faculdade de Direito, estudou um ano para ser juiz. Fez um concurso para delegado, passou e ficou. "Estava duro, preci

sando trabalhar. Entrei, fui gostando, as coisas foram conspirando favoravelmente e não me pergunte como vim parar aqui na Core", ri.

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