Transatlânticos: turistas gastam 14% a mais na capital do Rio

Secretaria Municipal de Turismo informa que até abril cerca de 800 mil pessoas terão deixado cerca de US$ 240 milhões na cidade

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

No último domingo de janeiro, dia 30, o terminal de cruzeiros Píer Mauá, na região portuária do Rio de Janeiro, bateu um recorde de atracação: sete transatlânticos ancoraram simultaneamente na cidade e 40 mil pessoas desembarcaram na capital fluminense. Levantamento da Secretaria Municipal de Turismo calcula que entre outubro de 2010 e abril deste ano cerca de 800 mil turistas de navegação terão passado pelo porto do Rio, o que representará uma injeção de US$ 240 milhões de dólares na economia carioca – 14% a mais que o mesmo período na temporada passada (US$ 206 milhões).

Até o fim de abril terão sido 255 atracações contra 226 registradas entre 2009/2010. Um recorde registrado pelo terminal. Com o preço das passagens marítimas mais acessíveis, o brasileiro tem aproveitado o turismo de navegação. A empresa Píer Mauá, que administra o porto carioca, registra um crescimento de 800% no segmento desde a primeira temporada em que assumiu o lugar, em 1998. Em média, uma viagem de quatro noites nos chamados “minicruzeiros” pela costa brasileira apresenta pacotes de R$ 1 mil, valor que geralmente pode ser dividido em até 10 vezes.

“Os cruzeiros marítimos são relativamente novos no Brasil, mas nos últimos dez anos registraram crescimento surpreendente”, diz Ricardo Amaral, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Abremar). “As empresas que operam no mercado internacional enxergaram o País como um destino com grande potencial, por isso, trouxeram mais navios. E o consumidor ficou encantado com esta modalidade de turismo que mistura entretenimento, hospedagem e alimentação em um único produto”, ele avalia.

"Estamos casados há dez anos, mas só agora fazemos a nossa lua de mel. Queremos encomendar um bebê nessa viagem", conta o casal Diogo e Daiana Inácio, que percorre de navio as cidades de Santos (SP), Salvador (BA) e Búzios (RJ).

Do interior de São Paulo, a turista Lucineire Secoli decidiu voltar ao Rio depois de seis anos. "Esse porto melhorou bastante", ela avalia. "Vou aproveitar o dia para bater perna, quero conhecer o Cristo, Ipanema e Copacabana. Só volto uma hora antes de embarcar", contava a turista.

Para dar conta da crescente demanda, a concessionária responsável pelo porto do Rio precisou se adaptar. Na última década, a área destinada a receber turistas saltou de 2,5 mil metros quadrados para 15 mil metros quadrados, área que corresponde aos cinco armazéns que integram o cais. O porto carioca, que funciona 24 horas, conta com 12 banheiros e apenas um restaurante. A meta é crescer.

Léo Ramos
Presidente da Píer Mauá, Luiz Antônio Cerqueira: "Investimos em segurança, de olho na Copa de 2014 e na Olímpíada. Mas a revitalização da Zona Portuária também é meta"
Somente em 2010, a empresa informa ter investido R$ 35 milhões em obras, enquanto que este ano já alocou recursos na ordem de R$ 15 milhões.

“Será uma transformação relevante para toda a cidade, a exemplo do que ocorreu em Buenos Aires, Barcelona e Lisboa. Trabalhamos para transformar a Píer Mauá em importante ponto turístico do Rio de Janeiro, com atividades culturais permanentes, polo gastronômico, além da revitalização da zona portuária, o que requer ações voltadas para a segurança”, afirma o presidente da empresa, Luiz Antônio Cerqueira. "Queremos que os cariocas também passem a frequentar o porto", acrescenta.

Navegar é preciso

O crescimento do turismo de navegação tem provocado mudanças significativas na cidade. Uma das maiores obras em andamento no Rio, o Porto Maravilha, busca justamente revitalizar a região que é a porta de entrada desses visitantes – e servirá de hospedaram em navios para visitantes que chegarão no Rio durante a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. “A gente tem investido muito. Vamos ter museus e uma série de equipamentos novos naquela área, o que vai revitalizar a economia carioca”, diz o secretário de Turismo do Rio, Antônio Pedro Figueira de Mello.

Enquanto os eventos esportivos internacionais não chegam, o crescimento constante da temporada de transatlânticos tem sido um teste para apontar os ajustes necessários à infraestrutura pública.

O desembarque de 40 mil visitantes no último domingo de Janeiro provocou uma fila de transatlânticos jamais vista no cais: aproximadamente 2,5 quilômetros. Organizar a movimentação dos agentes de turismo, dos motoristas de táxis e das vans que atendem a esse público foi uma tarefa árdua para a administração do porto e a Prefeitura.

“Três mil pessoas desembarcando simultaneamente de um navio não é uma coisa fácil de organizar. Mas eu gostei do resultado que obtivemos. Montamos uma operação especial com o auxílio da CET-Rio, da Comlurb, da Guarda Municipal e da Secretaria de Controle Urbano, e nossa atuação evitou a presença de muitos motoristas de táxis irregulares que tentam achacar os visitantes”, diz Antônio Pedro. “Também gostei da atuação do nosso atendimento turístico, que orientou sobre os locais mais visitados na cidade”, acrescenta o secretário.

Léo Ramos
Sérgio chegou ao Rio pela rodoviária, na Zona Portuária, de onde pegou um táxi para o cais: taxista cobrou R$ 99 pela corrida que não dura mais de cinco minutos de carro
Coibir a atuação de taxistas piratas é um dos principais desafios da Prefeitura. Os turistas prejudicados por esses profissionais afirmam que deixam a cidade carregando uma péssima impressão. "Vim da rodoviária até aqui para embarcar e o taxista me cobrou R$ 99. Tive certeza de que fui roubado", diz o mineiro Sérgio Antônio. "Eu só queria curtir e relaxar", ele reclama. O trajeto entre a rodoviária e o porto carioca não dura mais do que cinco minutos de carro.

O turista argentino Cláudio Coca considerou a chegada à cidade bem tranquila, mas se mostrou desconfiado quanto à segurança nas ruas do Rio. "Quero ver a cidade está realmente segura", disse ele, que viajou acompanhado de dois filhos.

Van para cadeirantes, wireless e salas VI P

De olho nos turistas, o terminal de cruzeiros do Rio tem incrementado a recepção aos visitantes. Mulatas trepidantes em trajes característicos de passistas recebem os passageiros a cada desembarque, embaladas por ritmistas. Em dezembro, a administração local inaugurou um serviço exclusivo destinado a visitantes com deficiência de locomoção: uma van adaptada para o transporte simultâneo de até três cadeirantes.

De olho nas estimativas da Associação Brasileira dos Operadores de Turismo Receptivo Interncional (IBTO), que calcula gastos diários de US$ 300 de cada turista de navio que passa na cidade, o cais também conta com lojas, joalherias, cafés, livrarias e restaurantes. Os visitantes ainda têm à disposição internet banda larga para passageiros e tripulantes, banco 24h horas, loja de câmbio, climatização, estacionamento, ambulatório e UTI Móvel.

De acordo com o gerente de operações da Píer Mauá, Alexandre Gomes, cerca de 20% dos cruzeiros que chegam ao Rio vêm do exterior, de países da Europa, dos Estados Unidos e, principalmente, da Argentina. "Acreditamos que cerca de 300 mil passageiros passem pela vistoria da Alfândega do porto enquanto que o restante, cerca de 500 mil, seja apenas inspecionado pelos fiscais, que acontece ao longo da viagem", explica Gomes.

O porto do Rio conta com instalações para Alfândega, polícias Federal, Civil, Anvisa, ministérios do Trabalho e Agricultura, além de despachantes e da Autoridade Portuária. O local é certificado pelo ISPS Code, o código internacional para a proteção de navios e instalações. “O Rio ganhou no ano passado o prêmio de melhor porto da América do Sul”, orgulha-se o secretário Antônio Pedro, ao mencionar a segunda premiação consecutiva do World Travel Awards. Realizada em Londres, a titulação cabalou votos de aproximadamente 200 mil agentes de viagens e profissionais de turismo de 198 países. O terminal marítimo do Rio concorreu com o de Buenos Aires (Argentina), Valparaiso (Chile) e Callao (Peru).

De acordo com o gerente de operações da empresa, a fiscalização da atividade portuária no local fica a cargo da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), criada pela lei 10.233 de 2001. "Já a segurança da navegação é submetida às análises da Capitania dos Portos, departamento da Marinha do Brasil", acrescenta Alexandre Gomes.

* Colaborou: Léo Ramos

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