Testemunha diz que viu policiais matarem se livrarem do corpo de Juan

Em entrevista a uma emissora de TV carioca, moradora afirma que menino foi morto por PMs que teriam "queimado" vestígios do crime

iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Cartaz na porta indica que escola está de luto pela morte do menino
Uma dona de casa moradora da favela Danon quebrou o silêncio e afirmou nesta sexta-feira (8) que  policiais militares mataram o menino Juan de Moraes, de 11 anos, durante um tiroteio no local no último dia 20.

Ela declarou ao "Jornal Nacional" TV Globo, que os PMs primeiro atiraram em traficante e depois mataram Juan. O corpo do menino teria sido escondido embaixo de um sofá abandonado no meio da rua por um morador e os policiais foram atrás do irmão mais velho de Juan, que também foi baleado e está sob proteção.

Os PMs, segundo a moradora, voltaram em seguida para retirar o corpo do local. E, no dia seguinte ao tiroteio, retornaram à comunidade para queimar o sofá a fim de não deixarem vestígios de sangue do menino.

Nesta sexta, a polícia reconstituiu o crime. O irmão de Juan não participou. Familiares do adolescente, de 14 anos, relataram que ele demonstrou receio de ficar frente a frente com os quatro PMs suspeitos do crime. Um outro jovem baleado participou da reconstituição . Com capuz e óculos para esconder o rosto, ele revisitou o local onde levou três tiros.

Cerca de 30 policiais civis, além do corregedor-interno da PM, coronel Ronaldo Menezes, acompanham os trabalhos, que começou por volta das 11h e só terminou à noite. Para evitar que os PMs suspeitos combinassem uma única versão sobre o crime, cada um participou separadamente da reconstituição..

Juan foi enterrado nesta quinta-feira , em Nova Iguaçu. O enterro foi feito às pressas e sob forte escolta policial, já que a família de Juan está sob proteção.

Marcada por erros, investigações começaram com atraso

Na manhã de quarta-feira (6), a chefe de Polícia Civil do Rio, delegada Martha Rocha, admitiu erros nas investigações ao confirmar a morte do menino, desaparecido desde o dia 20 de junho, após uma incursão do 20º BPM na favela Danon.

A delegada reconheceu que erros da perícia protelaram por quase uma semana o desfecho sobre o sumiço do garoto.

No dia 30 de junho, a polícia encontrou o corpo de Juan no Rio Botas - a 18 quilômetros da favela Danon -, mas a perita responsável pela identificação da ossada afirmou que se tratava de uma menina. Martha Rocha afirmou que a profissional responderá a uma sindicância.

A chefe de polícia do Rio também informou que o delegado Claudio Nascimento de Souza não é mais o titular da delegacia de Comendador Soares (56ª DP), que começou a apurar o sumiço do garoto.

Apesar de a família de Juan ter denunciado o desaparecimento do menino no dia seguinte à operação na favela - o irmão do menino, Weslley, de 14 anos, foi baleado e disse ter visto o irmão ser atingido e cair no chão -, foi preciso esperar por uma semana até que a Delegacia de Homicídio da Baixada assumisse o caso.

A perícia só chegou ao local do tiroteio oito dias depois . E embora dois policiais envolvidos na operação tivessem a ficha profissional sob suspeita, foi necessário esperar por cinco dias até que fossem retirados das ruas.

Como o iG mostrou na sexta-feira (1), o cabo Edilberto Barros do Nascimento é réu em um processo de homicídio qualificado . Ele também está envolvido em oito mortes em que foram registrados autos de resistência - quando um suspeito é morto em confronto com a polícia. O cabo Isaías Souza do Carmo, que também participou do tiroteio, está envolvido em 13 autos de resistência.

Além disso, outros sete PMs envolvidos na operação só depuseram 15 dias depois de Juan ter desaparecido. No dia da ação, eles apresentaram uma arma e drogas como sendo de um outro jovem baleado no tiroteio, Wanderson dos Santos de Assis, de 19 anos. Os PMs afirmaram que ele era traficante.

Na ocorrência, eles ainda apontaram Wesley, irmão de Juan, como menor infrator. No entanto, mudaram o depoimento 45 minutos depois, quando disseram que, em vez de infrator, o jovem era testemunha .

O relatório dos PMs levanta outras dúvidas sobre a atuação que tiveram no dia do crime. Wanderson, que também foi baleado, chegou a passar cinco dias algemado no hospital por conta da afirmação dos policiais. Ele só foi liberado depois que a Defensoria Pública conseguiu sua liberdade provisória após provar que o rapaz tinha emprego fixo.

A família afirma que além de trabalhador Wanderson é estudante. Em outra entrevista à TV Globo, o jovem contou ter visto o momento em que Juan foi baleado e disse acreditar que o menino foi atingido por policiais.

Na última terça-feira (4), Wanderson deixou o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, onde estava internado, sob escolta policial. Foi incluído, junto com sua família, no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (PROVITA). A família de Juan também está sob proteção.

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