Teresópolis: moradores tentam retomar a rotina

Falta d¿água, de suprimentos e de mão de obra provoca aumento de preços e altera dia a dia da cidade serrana

Flávia Salme, enviada a Teresópolis |

Em meio aos trabalhos de resgate de sobreviventes e busca por corpos soterrados, os moradores de Teresópolis se esforçam para descobrir um jeito de retomar a rotina. Além da tragédia que destruiu 27 bairros do município, a falta d’água prejudica a cidade inteira. 

Hélio Motta
Sem água, moradores recorrem às fontes naturais da cidade; comércio chega a cobrar R$ 30 pelo galão

A dificuldade de acesso ao município, por causa das quedas de barreiras nas estradas, faz com que fornecedores aumentem consideravelmente o preço de itens básicos, como comida, material de higiene e combustível. Nas prateleiras dos mercados, até vela virou artigo de luxo.

O analista de sistema Vagner Matos, 33, abrigou sete amigos vitimados pelas chuvas no apartamento de dois quartos onde mora no Jardim Meudon. Também buscou água na fonte do Alto que, de carro, fica a cerca de 20 minutos de seu bairro. "O prédio gastou R$ 420 para ser abastecido com carro-pipa, mas temos de economizar. Vim buscar água para o banho", contou.

Hélio Motta
O analista de sistema Vagner Matos hospedou sete amigos desabrigados em casa e precisa estocar água

Manter o comércio aberto nessas condições é uma tarefa quase tão heróica quanto o socorro às vítimas. “A cidade não pode parar, senão vira um caos. Temos de seguir em frente”, diz o comerciante Nilson de Moraes Gomes, de 51 anos, proprietário do restaurante Coisa Nossa, no bairro Alto. Ele tem buscado água na fonte Judite, no mesmo bairro onde trabalha, para lavar a louça e manter os banheiros limpos.

Hélio Motta
O comerciante Nilson de Moraes estocou água para manter seu restaurante aberto

Por toda a cidade, muitos recorrem às fontes minerais para garantir o abastecimento de suas casas. A escassez fez com que alguns comerciantes chegassem a cobrar até R$ 30 por um galão de 20 litros. “O meu estoque acabou”, disse Rosângela da Silva, gerente do supermercado Cardoso, onde o produto era vendido a R$ 26. “Vela eu também não tenho mais, acabou tudo”, contou.

Hélio Motta
Prateleira de vela do supermercado Carodoso ficou vazia, por falta de produtos para reposição de estoque

Muitos bairros, sobretudo os periféricos ao centro urbano de Teresópolis, também estão sem luz e telefone. 

Falta de combustível à mão de obra

Perto da 110ª DP, onde está instalado o IML (Instituto Médico Legal) da cidade, os dois postos de gasolina instalados no local estavam com as bombas vazias. “A gasolina comum chegou hoje, o caminhão levou quatro dias para entregar. Só estávamos com gasolina aditivada”, informou o gerente Cláudio Braz, 46. Ele garantiu, no entanto, que o preço não subiu. “O litro da normal custa R$ 2,76 e da aditivada, R$ 2,78.”

Hélio Motta
O gerente de posto de combustível Cláudio Braz afirma que o preço não subiu, apesar de ter ficado sem gasolina comum neste fim de semana

Quem vive do transporte, por incrível que pareça, não reclama. “O movimento está muito fraco, nem tive corrida neste sábado”, contou o taxista José Luiz Esteves, de 66 anos. “A gente não consegue trabalhar direito mesmo, a cidade está um caos. Só consigo circular pelo centro”, diz Esteves. “Uma passageira pediu para ser levada para o Caleme (zona oeste), mas não pude passar do bairro Cascata do Imbuí, está tudo destruído por lá e ela teve de seguir a pé.”

Hélio Motta
O taxista José Luiz Esteves diz que o movimento no ponto de táxi ao lado da prefeitura está bastante fraco

A tragédia também reduziu a mão de obra da cidade. No mercado Cardoso, a gerente Rosângela diz que dos 13 funcionários da equipe, quatro não estão indo trabalhar porque perderam parentes e casas.

Hélio Motta
A gerente de mercado Rosângela da Silva: "de 13 funcionários, quatro não estão vindo trabalhar porque perderam parentes e casas"

Na pousada Meu Repouso apenas quatro funcionárias dobravam os horários para atender a 108 hóspedes. Os 45 quartos do lugar foram todos ocupados por pessoas que vieram do Rio de Janeiro para ajudar nos trabalhos de resgate. "Éramos oito funcionários, mas quatro perderam parentes e não estão vindo", diz a recepcionista Janete Carracena.

Lazer cede ao luto

Embora os moradores tentem manter a rotina, ainda que em ritmo bem mais lento do que o normal, é difícil agir como de costume. A cidade parece viver uma espécie de luto coletivo. Parques e praças estão vazios há dias, e uma parte considerável do comércio permanece fechada. Em alguns lugares, as ruas parecem o cenário de uma cidade fantasma.

Hélio Motta
A praça Higino Silveira, no Alto; o mais conhecido ponto turístico no centro urbano de Teresópolis estava completamente vazio

Neste fim de semana, um dos eventos mais conhecidos da cidade, a Feirinha do Alto, na Praça Higino da Silveira, na entrada de Teresópolis, não foi montada. Os artesãos locais deixaram barracas e lonas encostadas nas árvores que cercam o lugar.

Hélio Motta
A Feirinha do Alto não funcionou; barracas ficaram abandonadas na Praça Higino da Silveira

Uma chuva fina e constante deixa o município serrano triste, úmido e frio. Quase ninguém sai de casa. Apesar das férias escolares, nem as crianças aparecem para brincar nas ruas. Embora abertos, restaurantes e shoppings estão vazios.

“Vim para espairecer”, diz cliente de salão de beleza

“Não aguentava mais ficar em casa e ver tanta história triste. Vim para espairecer”, explicou a advogada Renata de Castro Melo, que aproveitou as portas abertas do salão Gardênia, no centro, para retocar a cor dos cabelos. “A falta d’água faz com que em muitos pontos da cidade o mau cheiro tome conta do lugar. Às vezes passa uma brisa e com ela um odor horrível”, diz Renata. “O clima está muito triste e preocupante.”

O pequeno salão estava cheio. “Tive sorte, não estou com falta d’água”, diz a cabeleireira Sílvia Tavares. “Preciso pagar aluguel, não posso fechar as portas. Ainda bem que as clientes apareceram”, comemora a profissional.

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