`Tenho medo de perdê-lo, cada minuto é uma vitória¿, diz pai de bebê sobrevivente

Viúvo de grávida que morreu imprensada entre dois ônibus no Rio diz que não consegue registrar o bebê, que está no CTI

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

“A ficha já caiu. Não tem um minuto em que eu não pense na Alexandra e naquela fatídica sexta-feira. Mas além do desgaste emocional, a burocracia me deixa frustrado”. O relato do técnico em química Josenaldo Silva, de 43 anos, é sobre a dificuldade que ele enfrenta para registrar o pequeno Júlio Cesar, que nasceu prematuro de 7 meses na última sexta-feira (28). Embora estivesse casado há 13 anos com a manipuladora farmacêutica Alexandra Silva, de 34 anos, a união não estava formalizada, o que agora o impede de registrar o bebê, que sobreviveu à morte da mãe. Alexandra foi imprensada por dois ônibus quando seguia para o trabalho, em Bonsucesso, na zona norte do Rio.

Enquanto o bebê enfrenta uma batalha para sobreviver ao nascimento prematuro, Josenaldo caminha de um lado para o outro da cidade para conseguir fazer o registro da criança. “No hospital me encaminharam para o Conselho Tutelar, mas lá me informaram que não poderiam fazer nada. Voltei para o hospital com um documento repassado pelo conselho, mas ainda não sei como vou registrar meu filho”, ele conta. “Enquanto tem tanto pai que foge de assumir a paternidade, eu tenho de lutar para assumir que o filho é meu”, desabafa.

Além de Júlio Cesar, Josenaldo e Alexandra são pais de Brenda, de 12 anos. “Ela me ajudou a escolher o nome do irmão. O sonho da minha mulher era ter um menino, ela estava tão feliz”, ele diz. A filha mais velha do casal, que é católica e faz catequese, busca amparo na família e na religião para enfrentar a perda da mãe. “Ela está arrasada, muito triste mesmo. Mas as pessoas da igreja a estão ajudando a compreender o que aconteceu”, diz o pai.

Josenaldo, ele mesmo um católico, admite que também recorre a fé para enfrentar a morte da esposa. “Ela queria muito um menino e conseguiu dar a luz. A gravidez foi o tempo todo de risco, ela tinha oito miomas no útero, correu o risco de perder o bebê ou ter parto prematuro. Mas ela conseguiu, Júlio nasceu e está lutando pela vida”, relata Josenaldo.

“O médico foi um anjo”

O bebê Júlio Cesar sobreviveu graças ao cirurgião-geral Fabrício Carlos de Miranda, de 31 anos. Ele chegava para trabalhar na hora em que Alexandra foi imprensada pelos ônibus e conseguiu finalizar o parto da vítima, que com a colisão expeliu o bebê. “Ele foi um anjo, não tenho palavras”, diz. “Já o abracei tanto, que não é possível ter noção”, afirma.

Por conta da batalha para registrar o filho caçula, Josenaldo não tem parado em casa. Mas sempre encontra tempo para visitar o pequeno Júlio no hospital. “Eu o vejo sempre que é possível. Converso com ele, faço carinho em seu pezinho. Esse menino é um guerreiro”, conta. “A médica me falou que eu terei de ter paciência. Nesta terça-feira (1) ele fará um eletrocardiograma para a gente ver se está tudo bem com o coraçãozinho dele. Ainda tenho medo, mas cada minuto que ele vive é uma vitória”, celebra.

Júlio Cesar está internado no CTI do Hospital Geral de Bonsucesso (zona norte), em estado grave. Estima-se que o bebê tenha nascido com 1 quilo. Além de sobreviver ao acidente da mãe, ele ficou muito tempo exposto ao sol até que o socorro chegasse e o transferisse para o hospital.

    Leia tudo sobre: grávidaJulio CesarCTIBonsucesso

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG