Subchefe de Polícia preso pela PF teria ido à Draco pedir fim de investigação

Cláudio Ferraz disse à Corregedoria que Carlos Oliveira pressionou delegacia. Segundo ele, apuração passou aos federais por abordar cúpula

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Carlos Oliveira apresenta armas recuperadas, quando ainda era da DRAE. O ex-chefe operacional da Polícia Civil, hoje preso, é acusado de pedir fim de investigação
O delegado da Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas), Cláudio Ferraz, afirmou que o então subchefe operacional da Polícia Civil, Carlos Oliveira, foi à sua delegacia em janeiro de 2010 fazer pressão para encerrar a investigação que resultaria na Operação Guilhotina, da Polícia Federal. A declaração foi registrada no depoimento de Ferraz à Corregedoria de Polícia Civil, na segunda-feira (14), ao qual o iG teve acesso.

Ferraz iniciou apuração a partir de dados de um informante que identificou a atuação de policiais civis e militares no comando da milícia da favela Roquete Pinto. Entre eles, havia agentes da Drae (Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos), ligados a Oliveira, que antes chefiou a delegacia.
De acordo com Ferraz, Carlos Oliveira foi à Draco em janeiro do ano passado, e falou com o chefe de investigações e homem de confiança do delegado, Jorge Gerhard. Como o delegado estava de férias, o assessor lhe telefonou para avisar da visita.

“O então subchefe operacional da Polícia Civil, Carlos Oliveira, esteve pessoalmente na sede da sua especializada, onde informou conhecer todos os detalhes da investigação que estava se iniciando; que teceu comentários elogiosos a respeito da imagem do PM Afonsinho [Ricardo Afonso Fernandes] e do inspetor de polícia Christiano [Gaspar Fernandes, chefe de investigações da 22ª DP, Penha], filho de Afonsinho”. Assim como ocorreu com Carlos Oliveira, os dois tiveram a prisão preventiva pedida pela PF. É importante salientar que prisão preventiva é uma medida cautelar e não significa o reconhecimento de culpa pela Justiça. É um instrumento legal que permite a prisão por um tempo determinado em alguns casos. Por exemplo, quando a Justiça considera que há risco de que o réu possa atrapalhar as investigações - intimidando testemunhas ou ocultando provas.

Vazamento no Disque-denúncia

Ferraz disse em depoimento que, “em virtude do vazamento das informações e do recado dado pelo subchefe operacional, determinou ao inspetor Gerhard que interrompesse imediatamente o trabalho investigativo em virtude do público-alvo que estava sendo apurado”. O delegado disse que “o vazamento” teria acontecido na sede do Disque-denúncia, onde “essa organização criminosa possuía tentáculos operacionais”.

O Disque-Denúncia informou que Zeca Borges, seu fundador, é a única pessoa que poderia comentar a declaração e não está disponível nesta quarta.

Além de Carlos Oliveira, outro policial da cúpula da equipe de Turnowski, diretor de polícia da capital, Ronaldo de Oliveira, também teria questionado Ferraz sobre suposta investigação contra si, afirmando que o delegado da Draco estaria tentando “destruí-lo”.

Segundo o depoimento, Ferraz “disse que recebeu um contato do então diretor de Polícia da Capital da PC, delegado Ronaldo de Oliveira, que em conversa reservada lhe informou sobre o boato de que estaria tentando destruí-lo e que o declarante estaria fazendo uma ‘investigação minuciosa em desfavor do então diretor [Ronaldo de Oliveira]; que afirma que esses fatos são totalmente inverídicos”.

Depois desses episódios e do depoimento de um preso identificado como Magnum, ex-informante da polícia e integrante de quadrilha de policiais, o delegado afirmou ter passado os dados para o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

Agência O Globo
Claudio Ferraz deixa o prédio lacrado da Draco. Ele acusa Carlos Oliveira, ex-chefe de operações e hoje preso, de pressionar por fim de investigação de aliados
Por maior autonomia, investigação passou à PF

“Ficou decidido que a investigação seria realizada pela Polícia Federal com o apoio do Ministério Público e da Draco, tendo em vista o distanciamento operacional daquela instituição federal; que não possuía qualquer possibilidade de aquela investigação ser conduzida pela sua delegacia especializada em virtude das pessoas que estavam sendo investigadas e das freqüentes intervenções e perda de poder realizada pela chefia de Polícia em relação ao seu trabalho à frente da Draco”, disse à Corregedoria.

A Draco foi transferida na quinta-feira passada, véspera da Operação Guilhotina, para a estrutura da Secretaria de Segurança.

De acordo com Ferraz, “o presente trabalho apuratório desenvolvido pela PF na Operação Guilhotina resultou na prisão de vários policiais civis e militares, em especial, do delegado de polícia Carlos Oliveira e do chefe do setor de operações da 22ª DP, inspetor Christiano, além de outros policiais civis lotados na DRAE, antiga delegacia chefiada pelo Dr. Carlos Oliveira”.

O iG não localizou o advogado de Carlos Oliveira. A reportagem deixou recado no celular de Ronaldo de Oliveira, mas não teve retorno; em outro telefone do delegado, não foi possível deixar mensagem.

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