`Só saímos com o carro blindado¿, diz testemunha de arrastão

Para entrar e sair de casa, a 200 metros da sede do governo do Rio de Janeiro, nora de vítima diz que não abre mão do veículo

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Depois de ser vítima de 14 assaltos no Rio de Janeiro, a economista M.F., mãe de três meninas e moradora da Rua Presidente Carlos de Campos, em Laranjeiras, tomou uma decisão: trocou um carro zero quilômetro por outro de 2004. Blindado. A rua onde ela mora tem recebido destaque no noticiário policial. Segundo ela, em menos de três meses, 12 arrastões teriam sido feitos no lugar, a 200 metros do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro.

Procurado pela reportagem do iG , o delegado responsável pelas investigações na 9ª DP (Catete), Alan Luxardo, não quis comentar a sequência de assaltos na rua nem confirmar o número de casos registrados na delegacia. M.F., no entanto, afirma que no período de um mês, entre setembro e outubro, foram nove assaltos, a maior parte deles arrastões – em que os criminosos fecham a rua com um carro e rendem os motoristas que estão atrás.

“Neste domingo (21), minha filha desceu com o namorado para a portaria, onde a mãe dele o esperava. Assim que eles chegaram ao portão, ela viu a ação dos bandidos e puxou o namorado de volta para dentro do prédio. Ela chegou em casa gritando e muito nervosa”, conta M., ao lado da filha de 16 anos. “Mas a mãe dele não teve como ser avisada, levaram tudo dela”, lamenta.

A filha de M. F. diz que os assaltos na rua restringem suas saídas de casa. “A gente só sai com o carro blindado. Se não for assim, eu não saio mais. A mãe do meu namorado foi assaltada na porta da minha casa”, desabafa.

Apesar dos assaltos na rua onde mora, a última ação violenta da qual a economista M. F. foi vítima não foi em Laranjeiras, mas na Rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio a São Paulo. “Já morei em Portugal, em São Paulo e no Espírito Santo, mas só aqui fui assaltada. Foram 14 vezes. O último foi um arrastão, estava com meu marido e minhas três filhas. Perdemos tudo e ficamos a pé”, ela conta. “Depois disso, falei para o meu marido vender meu carro, que era zero, e comprar um mais velho, mas blindado”.

Em Laranjeiras, criminosos seriam jovens e bem vestidos

A economista M.F. diz que a "mecânica" do crime na Rua Presidente Carlos de Campos é a mesma: “São quatro rapazes, todos jovens e de muito boa aparência. E estão sempre armados.” Na ação deste domingo (21), três veículos foram abordados. Além da mãe do namorado de sua filha, uma médica e um engenheiro que estavam com os filhos de 6 e 2 anos também foram rendidos. O crime ocorreu por volta das 19h30.

M. acompanhou as vítimas à 9ª DP (Catete), para o registro de mais uma ocorrência. “A médica me contou que os assaltantes usavam pistolas, mas em outros arrastões algumas vítimas relataram o uso de metralhadoras”, conta.

A moradora diz que na maior parte das vezes os assaltantes são calmos. “Uma vez eles deram uma coronhada na cabeça de um rapaz que trabalha em uma clínica aqui perto. Eles ficaram nervosos porque ele não conseguia tirar a aliança do dedo”.

A vítima, na ocasião, foi o técnico de manutenção Claudenir Alexandre Martins de Andrade, de 36 anos, rendido por volta das 6h quando os ladrões levaram seu celular, sua carteira e seus documentos. A mãe do namorado da filha de M. F. também perdeu tudo o que carregava no veículo.

“A gente não pode esperar acontecer uma tragédia”

M.F. diz que apesar dos registros na 9ª DP, dos apelos feitos ao 2º BPM, em Botafogo – responsável pelo patrulhamento da área – e do carro de polícia que frequentemente fica baseado na entrada da rua, os crimes continuam a ocorrer sistematicamente. "A gente não pode esperar acontecer uma tragédia para tomar uma atitude mais séria", ela protesta.

O jornalista Cadu Gomes, 49, e a mulher dele, a professora Cássia Bhering, 49, também tiveram o carro roubado no local. “Não passamos por nenhum arrastão, mas levaram o veículo”. O roubo, de acordo com Cadu, ocorreu às 15h. “Em plena luz do dia, no quintal do governador, e com direito a carro da polícia parado a 50 metros da minha casa”, ele conta.

No prédio em que o casal vive, de 24 apartamentos, pelo menos três moradores já foram vítimas dos criminosos. “Levaram o oboé de um músico da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), que é meu vizinho. A mulher de outro vizinho também já foi agredida”, diz Cadu, cujo cachorro, Bruce, um border collie, de um ano, já ajudou a impedir um assalto em que os bandidos usaram gás de pimenta para render a vítima.

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