Seis meses depois, vítimas das chuvas ainda improvisam lares

No Morro do Bumba, uma família sobrevivente mora no meio das obras

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

Seis meses após a tragédia das chuvas que deixaram milhares de desabrigados no estado do Rio, muitos tiveram de dividir o teto com parentes, ficar em abrigos ou morar de favor na casa de amigos. Outros ainda vivem ou voltaram para as áreas de risco interditadas pela Defesa Civil. Há quem tenha alugado casa só para morar em dias chuvosos e aqueles que simplesmente não dormem direito em noites assim. O iG entrevistou e revisitou pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela catástrofe de abril.

A diarista Kátia Cilene Barbosa e os três filhos deixaram a casa de paredes rachadas para habitar em outra residência também afetada pelas chuvas, na mesma comunidade em Niterói. No alto do morro do Bumba, ela e os vizinhos dividem terreno que termina em um barranco provocado pela força das águas. “Como neste lado não caiu, então vamos ficar aqui”. Ela conta que a casa foi cedida por uma amiga que se mudou para um local mais seguro. Sem ter recebido o aluguel social prometido pela prefeitura de Niterói, conta, não teve outra alternativa a não ser trocar uma casa condenada por outra interditada.

Na casa ao lado, Raquel dos Santos mostra como o quintal era maior antes das chuvas. Ao contrário de Kátia, ela e a família recebem o aluguel social. “Alugamos uma casa em São Gonçalo (município vizinho) e vamos pra lá quando chove”. A família ficou cerca de 40 dias em abrigos, até voltar para a casa em risco. O iG presenciou a volta da família para a casa condenada na ocasião. “Conseguimos encontrar uma casa, depois de meses de procura, mas fica longe e não temos dinheiro de condução para trabalhar e mandar nossos filhos para escola todos os dias”.

Na noite do dia 7 de abril, o solo cedeu e uma cratera se abriu onde residiam pelo menos 50 famílias no Morro do Bumba, deixando 48 mortos e 7 desaparecidos. A área abrigou um lixão entre as décadas de 70 e 80. Casas foram construídas no terreno em pleno processo de decomposição do lixo, tornando o local totalmente vulnerável a desabamentos. Para evitar que a população volte a ocupar a região, o governo do Estado está investindo R$ 15 milhões na construção de uma praça sobre rampas irregulares. Além das casas que caíram, cerca de 40 foram demolidas. Na área plana das obras, no mesmo nível da rua, uma única casa divide espaço com os tratores.

Helio Motta
Ana Maria Monteiro e o filho Caíque em frente à casa que resistiu às obras do Morro do Bumba

“Por que eles vão derrubar casas se podem consertar? Não deixamos que derrubassem nossa casa. Nos jogamos na frente das máquinas e impedimos eles até ficar estabelecido que não podem fazer isso”, conta a dona de casa Ana Maria Monteiro, que mora com marido e filhos.

Responsável pelas obras, o coordenador de Resíduos Sólidos da Secretaria de Meio Ambiente do governo estadual, Osmar Oliveira Filho, afirma que a casa não vai atrapalhar o projeto e ficará ao lado da praça.

“Não tenho autorização para demolir porque o DRM (Departamento de Recursos Minerais) e a Defesa Civil avaliaram que não há risco. É óbvio que se eles saíssem, a praça ficaria maior, mas não chega a atrapalhar o projeto”. Ele explica que a casa de Ana Maria foi construída sobre terra firme e que logo atrás dela há um maciço que desviou as toneladas de material que desceram morro abaixo, livrando-a de um desmoronamento.

Outras famílias não aceitaram a demolição de suas casas, tanto em Niterói como no Rio. “Não temos intenção de sair. A Prefeitura do Rio nos ofereceu um valor para deixarmos a casa, mas não aceitamos”, conta Marcelo Fraga, estudante de Publicidade. “Aqui não pagamos aluguel, fica perto de tudo”, acrescenta. A casa dele é a mais próxima do local do deslizamento que mudou a paisagem no Morro dos Prazeres, no bairro de Santa Tereza.

Helio Motta
Marcelo Fraga não aceitou oferta da prefeitura para sair da casa onde mora, no Morro dos Prazeres

Elisa Rosa Brandão, presidente da Associação dos Moradores do Morro dos Prazeres, reivindica obras de contenção em vez de remoção de famílias. “Só fizeram demolições e não contenções. Querem tirar as pessoas em vez de consertar e mantê-las na comunidade. Algumas famílias saíram, outras não quiseram sair”.

A Prefeitura do Rio informa que tem encontrado resistência de moradores que não querem sair da comunidade e que têm realizado obras no local. Outra queixa de Elisa é a falta de aluguel social para algumas pessoas que foram afetadas pelas chuvas, como o fotógrafo Márcio Marques.

Depois de morar com a tia por dois meses, Márcio Marques tentou se mudar definitivamente do Morro dos Prazeres e diz que chegou a fechar aluguel para morar em outro bairro. Mas, sem receber o aluguel social, segundo conta, ele desanimou e acabou ficando na sua casa própria, localizada a alguns metros de onde houve o deslizamento que matou várias famílias.

Conta que sua casa não foi interditada, mas com ressalvas. “Técnicos estiveram aqui e disseram pra gente que estava tudo bem, mas pra gente sair se chovesse. Eles querem que eu durma com um medidor de chuva? Ninguém dorme quando o tempo fica assim”.

Helio Motta
Elisa na sacada de casa: até hoje não recebi aluguel social

Segundo a Prefeitura do Rio, 4 mil famílias que viviam em áreas de risco em 80 comunidades receberam aluguel social de valor mensal de R$ 400. O pagamento é previsto em lei. Em seis meses, cerca de R$ 23 milhões foram desembolsados para este pagamento e para indenizações. Outras 1.071 famílias foram reassentadas em unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida na cidade.

    Leia tudo sobre: ChuvasabrilBumbadesabrigadosseis mesesNiterói

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG