Saúde pública no Rio: ‘Nem animais são tratados assim’, reclama paciente

Reportagem do iG foi às ruas verificar o atendimento em unidades médicas públicas

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Vivian Fernandez
Paciente chega em ambulância ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro
Longa espera pelo atendimento, poucos médicos, falta de especialidades e problemas em equipamentos. Esse foi o cenário encontrado pelo iG nesta quarta-feira (29), após a visita a cinco unidades públicas de saúde no Rio de Janeiro. Levantamento divulgado hoje (1) pelo Ministério da Saúde – Índice de Desempenho do SUS (IDSUS 2012) – aponta que a cidade tem o pior desempenho no acesso e na qualidade dos serviços de saúde pública entre todas as capitais do País.

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O ranking do IDSUS é liderado por Vitória (7,08), Curitiba (6,96) e Florianópolis (6,67). O Rio de Janeiro teve 4,33 de pontuação. A reportagem foi às ruas da capital fluminense para verificar o que esse número representa no dia a dia. Foram visitados os hospitais Salgado Filho (rede municipal), Getúlio Vargas (estadual) e Geral de Bonsucesso (federal), além da UPA 24h da Penha (estadual) e do Centro de Saúde César Pernetta (municipal). A situação encontrada você confere a seguir.

Pacientes insatisfeitos

“Não estamos aqui para ver televisão”, reclamou uma mulher, que aguardava atendimento em um saguão com uma TV ligada. “Quando a senhora for atendida, reclame com o médico”, respondeu a atendente. Outra paciente dormia no banco. Eram 16h e a camareira Jurema de Souza, de 41 anos, esperava ser chamada desde as 11h. Com dores pelo corpo, de cabeça, torcicolo e tendinite , ela foi ao Centro Municipal de Saúde César Pernetta, no Méier, zona norte do Rio, após ter sido atendida na UPA de Marechal Hermes, quase 10 km dali.

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Jurema de Souza em frente ao posto de saúde do Méier: mais de cinco horas de espera pelo atendimento
“Lá, eles aplicaram uma injeção para aliviar um pouco a dor e pediram para vir pra cá completar a consulta e porque não davam atestado para apresentar no trabalho. Preciso desse documento, senão vão descontar R$ 21 pelo meu dia”, disse Jurema. “Minha filha também não estava sentindo-se bem quando saí de casa, mas preferiu ficar passando mal porque o atendimento demora muito. Mas acho que até 17h saio daqui”, completou, com esperanças.

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Alguns pacientes relatavam que um equipamento usado nos exames de sangue tinha quebrado e só havia voltado a funcionar após cerca de três horas. A reportagem questionou a recepcionista qual era o tempo de espera pelo atendimento. Ela respondeu que havia um clínico geral recebendo os pacientes e foi taxativa. “Não vou te enganar, vai demorar muito. Tem gente esperando desde as 10h. Olha quantos estão na sua frente”, disse, mostrando um calhamaço de fichas.

Busca pelo atendimento

Poucos metros dali, ainda no bairro do Méier, a situação era menos crítica no Hospital Municipal Salgado Filho. A dona de casa Joyce Rosa, de 29 anos, aguardava a saída do marido que havia quebrado um dedo após prendê-lo na porta do carro. Chegaram à unidade do Méier às 14h e duas horas e meia depois ele foi chamado. Um período considerado curto para os padrões da saúde pública.

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Joyce Rosa com o filho: atendimento médico para o marido após passar por duas unidades de saúde
O casal, no entanto, estava fora de casa desde as 9h. Já havia passado pelo posto médico de Santa Cruz e Hospital Estadual Rocha Faria, mas as unidades não possuíam ortopedistas. “Quem não tem plano de saúde está perdido. É um descaso total. Não sei para quê pagamos impostos”, questionou ela, com o filho de dois anos no colo. A criança estava um pouco febril e também acabou sendo atendida no Hospital Salgado Filho.

Emergência escondida

A noite estava começando e a movimentação era intensa no Hospital Estadual Getúlio Vargas , na Penha, zona norte do Rio. Vizinha ao Complexo do Alemão, a unidade possui uma das principais emergências da cidade. Na ala pediátrica, aproximadamente 100 mães aguardavam atendimento para seus filhos. A recepcionista informou que dois pediatras estavam de plantão e algumas pessoas aguardavam desde manhã.

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A reportagem não pôde conferir como estava a sala de espera da emergência para adultos porque o local só era acessado por pacientes. Os acompanhantes deveriam deixar os enfermos e depois aguardar do lado de fora. Angustiadas, algumas pessoas reclamavam da falta de notícias e relatavam o cenário existente no interior do hospital: saguão lotado e alguns pacientes em macas aguardando atendimento.

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Entrada da emergência pediátrica do Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro

A dona de casa Vera Lúcia da Silva, de 50 anos, questionava a demora. O irmão de 38 anos tinha sofrido uma convulsão, caído da escada e batido com a cabeça, o que gerou um ferimento grande. Segundo ela, uma tomografia havia sido realizada, mas, uma sutura, não. “Chegamos às 15h e já são 19h. É um absurdo. Colocaram uma fralda geriátrica na cabeça dele”, contou. As atendentes da emergência de adultos não informaram quantos médicos estavam de plantão.

UPA lotada

Perto dali, na UPA 24h da Penha, alguns pacientes aguardavam do lado de fora da unidade porque a sala de espera estava lotada. “Aqui não tem distribuição de senha, meu amigo. Vamos organizando como dá. Às vezes, no grito”, disse um paciente inconformado. A recepcionista informou que a situação estava conturbada porque estava ocorrendo a troca de plantões, mas não soube dizer quantos médicos estavam trabalhando, apenas que havia clínicos gerais.

Na UPA, o atendimento funcionava da seguinte forma: o paciente aguardava na fila improvisada do lado de fora, depois era convocado para preencher uma ficha, uma pré-seleção era feita e, então, ocorria o direcionamento ao médico. Eram mais de 19h e algumas pessoas aguardavam desde as 11h. Elas comentavam que um homem com falta de ar havia morrido no local à tarde, aguardando atendimento. A Secretaria Estadual de Saúde informou em nota que o paciente teve uma parada cardíaca enquanto esperava a realização de exames.

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Com a UPA 24h da Penha lotada, pacientes aguardam atendimento do lado de fora da unidade de saúde
Desesperado, o comerciante Leandro Fernandes chegou à UPA com o pai Aloísio Fernandes, 67, na cadeira de rodas. O aposentado possui um problema urinário e não ia banheiro havia dois dias. Antes de chegar à UPA, o paciente já tinha passado pelo posto de saúde de São João de Meriti (Baixada Fluminense) e hospitais Geral de Bonsucesso e Getúlio Vargas. Os dois primeiros não possuíam urologistas. O terceiro possuía, mas precisava de um encaminhamento da UPA.

“Estamos na rua desde meio-dia.Vergonha é pouco para essa situação. Ver seu pai com uma idade avançada passando por isso. Só sinto vontade de chorar”, disse.

“Nem os animais são tratados assim”

Na porta do Hospital Geral de Bonsucesso um cartaz informava: “Estamos atendendo apenas casos de risco de morte e pacientes encaminhados da UPA, GSE e SAMU”. Questionada pela reportagem, a atendente disse que dois clínicos gerais estavam de plantão. Um ortopedista também estava, mas realizava uma cirurgia demorada. Não havia pediatras. “Estamos com superlotação. Essa é uma unidade apenas de suporte”, informou.

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Para organizar o atendimento, os casos eram divididos por cores de fichas. Documentos vermelhos e amarelos tinham urgência. Azuis e verdes não eram urgentes. A autônoma Leice Monteiro, de 44 anos, estava no hospital desde meio-dia. Às 20h30 foi informada das cores das fichas e, para sua tristeza, descobriu que a sua havia sido classificada como verde.

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Placa na porta da emergência do Hospital Geral de Bonsucesso informa restrições para o atendimento
“Por que não avisaram antes? A recepcionista disse que não tem previsão de atendimento para mim, ainda mais agora que trocou o plantão. Pelo visto, aqui você só é atendido se estiver baleado, à beira da morte”, disse a moradora de Ramos, que estava com dores pelo corpo e placas vermelhas nas pernas, nos braços e no rosto.

Antes do Hospital Geral de Bonsucesso, ela já havia passado pelas UPAs da Vila do João, da Maré e de Bonsucesso. “O ser humano é muito maltratado, nem os animais são tratados assim. É um absurdo chegar a uma unidade de saúde e não ser atendido. É nosso direito, o mínimo. Não vou esperar mais. Vou para casa. Lá, pelo menos, eu tenho uma cama para deitar”, declarou, quando já passava das 21h.

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