São Carlos, a UPP que ainda não deu certo

Tráfico continua armado, nove meses após implantação da unidade, cujo ex-comandante foi preso por corrupção. Carnaval teve tiroteio, e Bope faz operação hoje

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Fernando Quevedo/Agência O Globo
Viatura da PM incendiada durante confronto no morro de São Carlos, no carnaval

O tiroteio entre traficantes do Complexo São Carlos e policiais, com um carro da PM incendiado, durante o desfile das escolas de samba, e a prisão do ex-comandante da UPP local  local, por corrupção, dia 16 de fevereiro, sugerem que o controle da comunidade ainda não é pleno da Polícia Militar. Nesta segunda-feira, o Bope fez operação no São Carlos para combater o tráfico.

Divulgação
UPP São Carlos busca se estabelecer após prisão do ex-comandante por corrupção
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A 17ª unidade pacificadora do Rio foi instalada no São Carlos, em maio de 2011, com 241 PMs, mas não assumiu o controle de fato do território, e o tráfico continuou ativo na região, que engloba ainda os morros da Mineira, Querosene e Zinco. De sua inauguração até ao menos outubro/novembro, quando foi substituído o ex-comandante, capitão PM Luiz Piedade, suspeito de receber R$ 15 mil semanais para não reprimir o tráfico , o crime continuou quase liberado.

É uma UPP que ainda não deu certo e busca auto-afirmação, embora não seja a primeira onde houve investigações de corrupção – em setembro, 30 PMs da UPP do Fallet/Fogueteiro foram investigados , suspeitos de receber dinheiro do tráfico. De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), a unidade está na fase de "avaliação e monitoramento" e passa por ajustes. "É natural que haja confrontos e operações nesta fase", informou a assessoria de comunicação da CPP.

O São Carlos sempre foi considerado por policiais um dos lugares mais arriscados, pelas dificuldades de se operar e a violenta reação dos criminosos locais às operações, que resultaram em muitas mortes de agentes. Por esse motivo, policiais do Rio têm muito ressentimento dos traficantes locais.

Da Rocinha, chefes mantiveram domínio e tráfico pela corrupção, apesar da UPP

Divulgação/Taiane Hunder/Seap
Coelho (1o à esquerda), preso com Nem (direita), parceiro e chefe do tráfico na Rocinha
Os dois líderes do tráfico do São Carlos – Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, e Sandro Amorim, o Peixe – traficantes da ADA (Amigos dos Amigos) mantiveram o domínio da favela, mesmo com a instalação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Os dois foram presos às vésperas da ocupação da Rocinha, por agentes da PF, tentando fugir da favela cercada .

Corromperam policiais e mantiveram as atividades ilegais lá ao menos até janeiro, pondo em xeque o projeto das UPPs no local.

Com a chegada da UPP, Coelho e Peixe passaram a administrar o negócio à distância, da Rocinha – da mesma facção criminosa –, em São Conrado, para onde se mudaram. A quadrilha se adaptou à nova realidade da presença policial no São Carlos, optando por um comércio de drogas sem armas longas ostensivas e usando mulheres como “mulas”, para fazer o transporte principalmente entre as comunidades do Centro e a da zona sul.

Coelho, 32 anos, já comandava o tráfico no Complexo São Carlos desde abril de 2007, quando tomou a Mineira, “controlando a venda de entorpecentes, monitorando a presença de policiais no local e dirigindo todas as atividades ilícitas dos demais integrantes da quadrilha, inclusive nos confrontos com forças policiais”, segundo denúncia do Ministério Público, de 2008.

A associação comercial com a Rocinha remonta a pelo menos 2010, quando Coelho foi novamente denunciado pelo MP, desta vez pela intensa e permanente parceria de negócios ilegais com Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha. Na época, a “mula” mais usada para o transporte ilegal era Adriana Duarte dos Santos, chamada pelo MP de “mulher de confiança da facção” e que “desfruta de íntimo relacionamento” com os traficantes, entregando “mercadoria ilícita pessoalmente” a Coelho.

Atuantes, Popozuda e Cheru só foram presos após prisão de ex-comandante da UPP

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Aline Popozuda atuava no morro de São Carlos
Outra mulher atuante na quadrilha desde a década passada era Aline de Oliveira Braga, 29 anos, a Aline Popozuda. De acordo com denúncia do MP de 2008, ela atuava como soldado armado e fazia a segurança do chefe da quadrilha, entre outras funções.

Ela continuou com destaque no morro desde a implantação da UPP até 18 de janeiro, quando foi finalmente presa por PMS da UPP, curiosamente, apenas dois dias após a ação da Polícia Federal que prendeu 11, entre eles o ex-comandante da unidade, capitão Luiz Piedade, e um soldado PM.

Outro criminosos de relevo no bando que só foi preso após a saída do ex-comandante Luiz Piedade foi Marcílio Cheru de Oliveira, 24 anos.

Armado de fuzil, Cheru era gerente do São Carlos, responsável “por todo o controle da venda de entorpecentes, vinculada ao controle central da quadrilha”, segundo o MP. De acordo com denúncia de 2008, “Cheru é responsável pela execução dos ‘condenados’ pelo ‘Tribunal do Tráfico’ no Morro do Zinco, sempre com ciência do controle central”.

Segundo a PM, Cheru “era um dos criminosos mais procurados do Rio” e tinha recompensa de R$ 2 mil por sua prisão.

O gerente do São Carlos foi detido na segunda-feira de carnaval, em ação que resultou na morte de um menino de 14 anos. A PM recebeu a informação de que Cheru estava em uma festa na comunidade, às 3h30. Ele tentou fugir, mas foi preso. Segundo a PM, criminosos em motos tentaram resgatá-lo e passaram a disparar contra os policiais, atingindo o próprio Cheru e mais quatro pessoas. Um rapaz de 14 anos morreu.

Na confusão, foi ateado fogo a um carro policial, o que sugere que o local ainda enfrenta hostilidade e não está sob controle.

A PM informou, em nota, que abriu “sindicância para apurar detalhes da ocorrência”. “A UPP do Morro do São Carlos continua funcionando normalmente. A ação isolada de um marginal não compromete o serviço da Polícia Militar, que permanece atuando na comunidade com muito afinco”.

PM informa que fase é de "avaliação e ajustes", e operações são normais

Agência O Globo
Bope faz operação no Complexo São Carlos, nesta segunda-feira

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) afirmou ao iG que a UPP São Carlos é uma unidade recente, com menos de um ano e que a atual fase é de "avaliação e monitoramento", podendo ocorrer ajustes, operações e mudanças de comando e efetivo. De acordo com a assessoria da CPP, "é natural que aconteçam confrontos nessa fase".

A CPP reconheceu que quase não havia confrontos na gestão do capitão Luiz Piedade, depois preso. Mas informou que, entre 26 de outubro de 2011 - quando assumiu o atual comandante, capitão Ricardo Alves - e fevereiro, já aconteceram 75 prisões, senod quatro líderes do tráfico. Também foram apreendidos 15 armas, 23 motocicletas, 3.316 trouxinhas de maconha, 1.518 papelotes de cocaína, 1.197 pedras de crack, haxixe, ecstasy e loló, além de material de endolação, radio-transmissores e celulares.

A CPP também ponderou que o complexo São Carlos tem um histórico de violência e de confrontos intensos com a polícia e sempre foi considerada área crítica.

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