"Ruas não existem mais, é tudo rio", diz voluntário em Bom Jardim

Apesar de não haver mortes entre seus moradores, cidade sofre com lama, boatos, saques, altos preços e danos estruturais

Daniel Torres, iG São Paulo |

Bom Jardim é mais uma das cidades atingidas pelas chuvas que castigaram a região serrana do Rio de Janeiro neste início de ano. Na contagem oficial de vítimas da região , tem apenas uma morte registrada, e provavelmente de um morador de outra cidade que teria sido arrastado pelo rio, já que não foi reconhecido como habitante de Bom Jardim. Mesmo assim, sem nenhuma morte ou ferido grave, os moradores da pequena cidade passam por momentos de horror e pânico desde a última semana.

O município de cerca de 25 mil habitantes foi arrasado pelas chuvas. Ruas e casas que antes existiam, não existem mais. No lugar deles há um rio de aproximadamente 30 metros de largura, como conta Rafael Loschiavo Miranda, de 26 anos, que está em uma vila, num morro de 3 quilômetros acima da área urbana de Bom Jardim, desde o dia 4 janeiro, para fazer um curso de Bio-arquitetura. “A situação em Bom Jardim é algo que nunca tinha há visto. Está tudo devastado. Ficamos totalmente ilhados. O rio destruiu tudo. Abriu um rio enorme no meio da cidade. As ruas não existem mais, é tudo rio”.

Rafael conta que a chuva que atingiu a região há uma semana, era forte, mas ele não imaginava que poderia causar essa tragédia. “Eu que moro em São Paulo estou acostumado com chuva até pior. Naquela noite acabou a luz aqui e não tínhamos muito a idéia do que estava acontecendo. Mas estamos aqui no meio de uma floresta, é uma coisa que até achei que fosse normal. Não tinha idéia do que tinha acontecido. No outro dia as pessoas começaram a chegar aqui e contavam que a cidade estava arrasada”, afirmou.

O arquiteto conta que as informações ainda eram muito desencontradas e que ficou preocupado com a família em São Paulo, já que também falavam sobre uma forte chuva na capital paulista. “Eu não fazia idéia do caos que a cidade onde estava se encontrava. As pessoas falavam que Friburgo e Teresópolis estavam destruídas. Também falavam que São Paulo estava debaixo d’água e fiquei preocupado. Mas não sabia que Bom Jardim estava do jeito que estava. Só no dia seguinte que a gente conseguiu descer por uma trilha e viu o tamanho do desastre. As pessoas andando em 1 metro de lama, afundando”.

No mesmo dia, quando boatos de estouro de uma barragem também levaram pânico a moradores de Nova Friburgo , Bom Jardim passou por algo semelhante, mas por um alerta equivocado de fontes oficiais. “Quando a gente começou a ajudar as pessoas, apareceram dois carros de polícia e de bombeiros com os agentes gritando para que todos subissem o morro porque a barragem havia estourado e que uma grande quantidade de água estava vindo. Foi um pânico geral na cidade. Todo mundo correndo para o meio da mata, desesperados. As pessoas começam a ficar presas na lama e achando que seriam afogadas. Um absurdo. E duas horas depois os mesmo policiais falavam para todos terem calma, que não era uma informação oficial”.

Além dos boatos, que levam medo e insegurança a população, a ação de criminosos tem feito algumas pessoas tomar medidas extremas na cidade. “Sabemos que estão havendo saques na cidade. Alguns comerciantes têm dormido armados dentro de suas lojas para evitar os roubos. Encontramos algumas pessoas que foram espancadas após saques em suas casas. Além dessa tragédia, as pessoas ainda passam por isso”, lamentou Rafael, que ainda contou que também há comerciantes que estão aproveitando da escassez de alimentos para aumentar os preços dos produtos. “Tem lugar que vende o saco de arroz por R$ 30 e o botijão de gás a R$ 70”.

De acordo com Rafael, a ajuda para a população de Bom Jardim demorou a chegar. Segundo ele, os próprios moradores começaram a organizar o auxílio para os desabrigados. “Uma parte das pessoas foram para o colégio Ramiro Braga, que recebeu muitas doações da cidade. Lá organizaram as refeições e começaram a separar e distribuir cestas de roupas e comida. Ainda estamos aqui na Ecovila. O curso que vim fazer foi cancelado, mas descemos todos os outros dias para ajudar as pessoas. Ficamos cavando e ajudando a tirar a lama dentro das casas”.

Outra reclamação da população é a falta de organização nas operações das autoridades da cidade. “O Corpo de Bombeiros e a polícia da cidade ficaram isolados. E as ações para chegar até os pontos que ainda estão isolados são confusas.

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