Rio tem seis vezes o número de homicídios de Buenos Aires

Pesquisa aponta que assassinatos na região metropolitana fluminense têm relação com o tráfico de drogas; no país vizinho, mortes são entre conhecidos

iG Rio de Janeiro |

Apesar de a população da região metropolitana do Rio (11 milhões, em 2005) ser inferior à de Buenos Aires (12,2 milhões), os homicídios nas principais cidades fluminenses entre 2002 e 2005 representaram 5,7 vezes os casos na área da capital argentina. Foram 26.538 pessoas assassinadas no Rio no período, e 4.639 em Buenos Aires, de acordo com estudo comparativo feito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade de Buenos Aires (UBA).

Em 2005, ano de maior diferença entre os dois locais, os homicídios na região metropolitana do Rio em números absolutos (6.457 casos) corresponderam a 8,5 vezes os ocorridos na área de Buenos Aires (759).

Agência Estado
Casa em Campo Grande (zona oeste do Rio) onde o marroquino Chalon Benitian, 57, foi encontrado morto, nesta terça-feira
Também na taxa de assassinatos por 100 mil habitantes, a diferença em desfavor do Rio é enorme. Em 2005 (58,8/100.000 habitantes), a taxa fluminense representou 9,5 vezes a de Buenos Aires, recorde no período, mas foi sempre acima de 4,3 vezes (dado de 2002) – variando a 6,1 e 8,6 vezes a taxa argentina, antes de chegar à marca de quase dez vezes, em 2005.

Essas foram constatações de estudo que compara os registros criminais das regiões metropolitanas do Rio e de Buenos Aires, feito em conjunto por uma equipe em cada país. No Brasil, a análise foi conduzida por Ana Paula Miranda, ex-presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio e pelo sociólogo Renato Dirk, ainda gerente do banco de dados do ISP; na Argentina, coube a María Victoria Pita e a Hernán Olaeta, da Dirección Nacional de Política Criminal da Argentina.

“A relevância em um estudo como este está em entender a dinâmica dos conflitos e que soluções podem ser pensadas para diminuí-los. Para isso, saber o tipo de morte e suas circunstâncias é o básico”, afirmou Ana Paula Miranda, ao iG .

Crimes acontecem na rua e com arma de fogo no Rio

A análise dos números na região metropolitana fluminense indica que os homicídios ocorrem principalmente por conta do tráfico de drogas, segundo os pesquisadores. A maior parte se dá em disputas por território entre grupos rivais, tiroteios entre policiais e criminosos e acertos de contas entre traficante.

De acordo com os autores do trabalho, o fato de 73% dos casos ocorrerem na via pública no Rio, em 2005, contra 54% na Região Metropolitana de Buenos Aires, é representativo disso. Nessa região da Argentina, 29% dos assassinatos acontecem dentro de domicílio particular, o que indicaria mortes entre pessoas que se conhecem, fruto de relações interpessoais, passionais. No Rio, esse percentual é de apenas 10%, um terço do argentino.

Para reforçar essa tese, lá mais de um terço (37%) dos homicídios não acontece com emprego de arma de fogo – o que indicaria crime não premeditado nem cometido por um “criminoso profissional”, que tem ou toma uma arma emprestada – contra 18,5% do Rio (dados de 2005). Além disso, as chacinas, ou homicídios múltiplos, são muito mais comuns no Brasil do que na Argentina.

Maiores de 29 anos são quase metade das vítimas em Buenos Aires

A idade é outro fator de diferença entre as duas regiões. Embora em 2002, os números de mortos entre 15 e 29 anos sejam parecidos (47,5% no Rio, e 42,7% em Buenos Aires), na área da capital argentina os homicídios ocorrem de maneira mais distribuída entre as idades. Isso indica que o crime ocorre em relações interpessoais e não apenas em brigas e no tráfico - situações nas quais os protagonistas tendem a ser mais jovens.

No Rio, só pouco mais de um quarto (28,6%) das vítimas têm mais de 29 anos; em Buenos Aires, essa fatia representa quase a metade (44,5%).

Mulheres representam menor proporção entre vítimas no Rio

Quase 10% dos assassinados em Buenos Aires são mulheres, contra 6,5% no Rio. O dado fluminense é 54% superior ao portenho – para cada mulher que morre proporcionalmente aqui, morrem duas lá, o que reforça o argumento da violência com características domésticas. No Rio, falta informação em 12% dos casos.

O ano com maior registro de uso de arma de fogo em homicídios no Rio foi 2003, com 85% dos casos. Nos dois anos seguintes, há ligeira queda, chegando ao percentual de 2005. Para os pesquisadores, o motivo da redução pode ter sido a entrada em vigência do Estatuto do Desarmamento, que além de aumentar as restrições ao porte de arma, implantou política de recompensa econômica para quem entregasse sua arma. Na Argentina, a queda é significativa, e o percentual varia de 81,7%, em 2001, para 64,5%, em 2005.

Latrocínios são menos comuns no Rio

Outro dado que chama a atenção na comparação entre distintas dinâmicas do crime de homicídio, na Argentina, a incidência de casos no comércio é maior do que no Rio. Em anos como 2002, por exemplo, 8,5% dos homicídios ocorreram nesses estabelecimentos, o que indicaria tentativas de assalto, latrocínios. No Rio, só 3,07% das mortes foram nesses locais. Em 2005, porém, os percentuais foram praticamente idênticos, 6,5% e 6,1%.

Fica claro quando se analisam as mortes violentas na área metropolitana da capital argentina que, embora uma parte considerável das mortes aconteça em domicílios particulares, as tentativas de assalto são a importante razão única para os homicídios, embora esse impacto venha diminuindo no total de homicídios.

Em toda a série isso fica claro – 28,7% em 2005, 34% em 2004, 44% em 2003 e 48% em 2002. No primeiro período investigado, quase a metade das vítimas de mortes violentas no país vizinho sofreu roubo ou tentativa, contra apenas 2,33% no Rio – uma diferença impressionante de 21 vezes. Mesmo no ano em que foi registrado o menor percentual (2005, 28,7%), o dado representa 11 vezes o equivalente ao do Rio, 2,6%.

O horário do crime também varia bastante. No Rio, quase um terço dos homicídios (31,6%) em 2005 foram à luz do dia, entre 6h30 e 11h30 da manhã, diferença considerável em relação a Buenos Aires, onde 22,5% ocorrem nesse horário. O pico no país vizinho foi de 18h30 e 23h30, quando acontecem 31,1% dos crimes. No mesmo período, a região metropolitana tem 28% de seus homicídios.

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