'Rezo para que minhas amigas descansem em paz', afirma Jhonatan

Sobrevivente do massacre de Realengo, estudante de 14 anos diz que pensa na dor dos pais que perderam seus filhos

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Léo Ramos
Jhonatan mostra o ferimento à bala, sofrido na tragédia
Jhonatan Oliveira dos Santos tem 14 anos e revela maturidade para a idade. Como muitos adolescentes, ele adora futebol, pizza e macarrão: “Com carne moída, salsicha ou o que for”, diz sorrindo. Mas quando o assunto é a tragédia de Realengo , a fisionomia se fecha. “Penso nas amigas que perdi . Elas vão fazer falta. Rezo para que descansem em paz. Imagino a dor dos pais delas”.

nullNo dia 7 de abril, Johnatan foi atingido pelo assassino Wellington Menezes de Oliveira na sala 4 da Escola Municipal Tasso da Silveira , em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele foi ferido no braço direito. O projétil rompeu uma artéria. Foram necessárias duas cirurgias. “Mas está tudo bem. Ele vai precisar fazer fisioterapia, mas não é nada grave”, conta a mãe de Jhonatan, Any Oliveira dos Santos.

Como estava perto da porta de saída da sala de aula, Jhonatan relata que foi um dos primeiros a escapar . Fui atingido e uma amiga me ajudou. O braço ficou pesado, o sangue esquenta. Eu me escorava nela enquanto a gente fugia. Depois que saí da escola, um homem que eu nunca vi antes me levou para o hospital. Até hoje não pude agradecer a ele”, emociona-se.

Vaidoso, o adolescente conta que a primeira atitude que tomou desde que recebeu alta do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no dia 19, foi cortar o cabelo e adornar a orelha com um brinco. “Às vezes eu faço moicano, outras eu raspo tudo. Mas tenho que fazer algo de diferente sempre”, conta.

Ansioso, ele mal conseguiu esperar pela recuperação plena em casa. Sem a mãe saber, acordou mais cedo na última terça-feira, 26, e foi para a escola Tasso da Silveira. “Ele estava doido para rever os amigos”, conta Any.

Sonho de entrar em campo com o Flamengo

Embora feliz por ter sobrevivido e recebido alta hospitalar, Jhonatan não é só felicidade. “Ganhei a camisa do Flamengo, mas não tinha autógrafo do Ronaldinho. Quero entrar em campo com o time, pô!”, ele brinca.

Por conta do ferimento que sofreu, Jhonatan não pode, pelo menos por enquanto, jogar futebol. “Adoro bater bola. Já quis ser jogador profissional, hoje eu não sei o que fazer no futuro”, conta. “Mas eu sempre vou gostar de jogar bola, pode ser na posição de meia ou atacante”, acrescenta ele, que também é baladeiro. “Adoro ir a festas”.

Com o filho em casa, Any diz que é só alegria. “Estava na casa do meu noivo quando recebi a notícia. Comecei a gritar, foi horrível”, relembra. “Quando o Jhonatan foi transferido de helicóptero, e eu estava com ele, tive um momento de paz. Ver a cidade lá de cima me deu uma sensação de tranquilidade, de que ele iria sobreviver”.

Porém, assim como o filho, ela lamenta pelas 12 crianças que morreram. “Foi terrível ver o desespero daqueles pais. É uma dor indescritível”.

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