Revitalizada pelo PAC, Rocinha espera conclusão de 1/4 das obras

Ações de R$ 279 mi abriram rua urbanizada onde havia beco, construíram apartamentos, complexo esportivo e UPA na maior favela do País. Comente

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Maria Eduarda Gonçalves de Castro, 8 anos, não sabia nadar até os 7. Com a inauguração da piscina semi-olímpica, de 25 metros, do Complexo Esportivo da Rocinha, ela deu as primeiras braçadas perto de casa, na maior favela do Brasil. A menina atravessa a via-expressa pela passarela projetada por Oscar Niemeyer – semelhante aos arcos da Praça da Apoteose, no Sambódromo – sobre a auto-estrada, e sai em frente ao complexo, para as aulas de natação duas vezes por semana. 

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Maria Eduarda, 8 anos, aprendeu a nadar no complexo esportivo da Rocinha

O conjunto de 15 mil metros quadrados – com duas piscinas, campo de futebol de grama sintética, quadras poliesportivas, pista de skate e patins, vestiário e tatame de judô – foi construído pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), após a remoção de casas precárias, em área com um valão a céu aberto e muito lixo, à beira do Túnel Zuzu Angel, na Auto-Estrada Lagoa-Barra.

Apesar das obras já feitas, após quatro anos e meio e R$ 278,8 milhões do PAC, ainda falta um quarto do previsto pelos governos federal e estadual e muito para ser feito em urbanização e saneamento básico. Restam muitas línguas negras e esgoto exposto, com mau cheiro.

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Ministério dá sinal amarelo, de atenção, para obras, por demora nos projetos

Segundo o Ministério do Planejamento, 77% das obras de urbanização previstas para a Rocinha foram entregues, ao custo total de R$ 278,8 milhões – R$ 156,5 milhões do governo federal e R$ 122,3 milhões do Estado. Em 21 de novembro, quando foi divulgado o último relatório periódico do PAC, a pasta avaliou a atuação da Rocinha com “sinal amarelo”, de “atenção”. Na avaliação do ministério, havia “demora na aprovação dos projetos do escopo remanescente de obras”.

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Passarela do PAC projetada por Niemeyer leva moradores da Rocinha ao complexo esportivo

Apesar disso, um novo pacote de complementação do PAC foi lançado pelo Estado em dezembro, para mais reurbanização, prevista inicialmente em mais R$ 50 milhões. A estimativa de gastos no primeiro anúncio na Rocinha, de R$ 110 milhões, multiplicou-se por 2,5, chegando aos atuais R$ 278,8 milhões.

As vedetes dessa segunda parte são o plano inclinado (que já estava previsto desde o início e não foi feito), com três estações, a drenagem e pavimentação do Caminho dos Boiadeiros e a construção de um mercado público.

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Rocinha, vista do complexo esportivo
Favela simbólica no Rio, pelo tamanho e localização, a urbanização da Rocinha já estava nos planos de governador do Rio, Sérgio Cabral, antes mesmo de assumir e da existência do PAC. Na semana anterior à posse, ele já acertara convênio de R$ 90 milhões com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a comunidade e obras no Maracanã.

Intervenção transforma viela, foco de tuberculose, em "oásis" e ponto turístico

De todas as obras já entregues – que, de fato dão nova cara a alguns pontos da Rocinha –, o PAC fez diferença real especialmente em um lugar: a Rua 4, no alto da favela. Antes uma comprida e insalubre viela no alto do morro, com pouco mais de um metro de largura, a Rua 4 era um dos principais focos de tuberculose na Rocinha, cujas estatísticas na doença estão entre as piores no País. “A rua era desta largura”, anunciou o guia turístico local a um grupo de gringos, abrindo os braços comedidamente.

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A nova Rua 4, antes uma viela de 1 metro, agora urbanizada e arborizada, com vista para a Pedra da Gávea
A intervenção abriu e pavimentou uma rua com 6 metros de largura no local, removendo 350 casas e facilitando a circulação de ar. De insalubre e quase intransitável, a área hoje recebe turistas estrangeiros e a colorida pintura das casas lembra o Caminito, ponto turístico de Buenos Aires, com a vantagem da vista para a Pedra da Gávea e um pouco do mar de São Conrado.

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Zenildo Marinho apanhou de vizinhos por defender os canteiros da nova Rua 4
Entre plantas e paredes com intervenções artísticas, na via ventilada em pleno verão carioca, a Rua 4 se tornou um oásis bucólico no meio de uma das mais movimentadas e frenéticas comunidades do Rio. "A mudança está em nós", diz pixação em um muro de contenção recente. Mas nem todos concordam.

O autônomo Zenildo Marinho, que cuida dos canteiros da rua, chegou a apanhar de vizinhos por suas constantes reclamações contra quem quis abrir garagens e portas e se apropriar dos jardins. "As pessoas não entendem que isso é um bem comum e não querem as árvores", disse.

Na região ficava a moradia do chefe do tráfico da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem , preso em novembro , no cerco à favela. À noite, homens armados de fuzil faziam segurança à porta para permitir ao “Mestre” – como gostava de ser chamado – dormir tranquilo. Hoje, é sua mãe que vive ali.

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Com sombra, silêncio e o maciço ao fundo, prédios têm estilo de vila
Moradores foram removidos para apartamentos em prédios coloridos

O conjunto de nove prédios vizinhos – de quatro andares cada e 144 apartamentos –, também do PAC, conseguiu criar uma atmosfera de vila, silenciosa e tranquila, com árvores. Nesses dois lugares, é fácil esquecer que se está na maior favela do Brasil, com 69.161 moradores.

Muitos dos antigos moradores da Rua 4 receberam, como contrapartida, um apartamento no conjunto entregue em 23 de dezembro de 2010. Na tarde do último dia 4, porém, funcionários usavam rapel para consertar infiltrações nos prédios do PAC. Com um produto de vedação nas juntas, eles buscavam impedir novos vazamentos e refaziam a pintura em tons fortes, além de dar manutenção preventiva.

'Ganhei a casa porque quase morri no tiroteio do Intercontinental ', diz morador

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Operários usaram rapel para consertar infiltrações nos prédios do PAC
O treinador de futebol do Rocinha Esporte Clube, Paulo Sérgio Gomes, ganhou uma casa depois de ter passado um susto, ao cruzar um tiroteio na ação que levou à invasão do Hotel Intercontinental , em São Conrado, por traficantes da favela, em agosto de 2010.

“Ganhei ( a casa ) porque quase morri. Para mim, foi um presente de Deus, morava em uma casa no Valão. Era uma quitinete, não era boa, ficava em cima da vala. Aqui é tudo novinho, agradeço a Deus pelo resto da vida”, disse Paulo.

O Valão, onde ele morava, foi outra área urbanizada e que teve melhorias nas fachadas de 60 casas, com pintura.

O PAC também construiu uma UPA 24h (Unidade de Pronto-Atendimento), administrada pelo município, em área de 2.800 metros quadrados, na “Curva do S”, na Estrada da Gávea, principal via da Rocinha.

A unidade, com capacidade para atender 450 pacientes, tem emergência, ortopedia, odontologia, fisioterapia, raio-X, eletrocardiograma, ultrassonografia e vacinação.

Outros equipamentos entregues foram uma creche, um centro de convivência, cultura e cidadania. Uma biblioteca comunitária, da rede de Bibliotecas Parque – a mesma de Manguinhos – deve ser inaugurada nos próximos 30 dias.

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