Repórteres Sem Fronteiras: 'Concorrência colocou vida de cinegrafista em risco'

Benoît Hervieu, diretor da seção das Américas da organização, acredita que decisões de enviar jornalistas para zonas de conflito devem ser revistas com cautela

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Divulgação
Benoît Hervieu, diretor do departamento das Américas da Repórteres Sem Fronteiras
O diretor da organização Repórteres Sem Fronteiras Benoît Hervieu questionou a decisão de emissoras de televisão e empresas jornalísticas de enviar repórteres a zonas de conflito. “A concorrência chegou a um nível extremo. A primeira imagem ou o melhor ângulo se tornou mais importante que o profissional”, disse o jornalista em entrevista concedida ao iG sobre morte do cinegrafista da TV Bandeirantes.

Gelson Domingos, de 46 anos, foi morto no último domingo com um tiro de fuzil durante a cobertura jornalística da operação dos batalhões de Choque e de Operações Especiais (Bope), na Favela de Antares, zona oeste do Rio de Janeiro.

Segundo Hervieu, a morte de Domingos não foi um caso isolado e pediu “um sério questionamento sobre as decisões de empresas diante do risco”. Para o jornalista francês, as coberturas em zonas de conflito devem ser revistas com cautela já que ameaçam a segurança dos profissionais . No caso do Rio de Janeiro, com as operações militares tão frequentes e mundialmente conhecidas, ele defende que é preciso rever a posição da imprensa.

Veja também: TV Bandeirantes divulga vídeo com momento que cinegrafista é baleado no RJ

“As operações são eficazes e conhecidas em todo o mundo. A divulgação é o trabalho da imprensa já que não podemos nos resumir a cobertura policial. Porém, é necessário nos colocar ou enviar profissionais para a linha de fogo?”, questiona Hervieu enfatizando que, pouco antes do tiro, Domingos cruzou a rua e se colocou na visão do atirador.

“Não sabemos se decisão dele [de atravessar a rua] foi pessoal ou se foi consequência da busca pela imagem exclusiva com o melhor ângulo. Sem dúvida, a concorrência e a luta entre a mídia pode ter influenciado sua decisão”, disse.

Na segunda-feira (7), a TV Bandeirantes divulgou as últimas imagens gravadas pelo cinegrafista. Após ver o vídeo nas redes sociais, o jornalista francês se disse surpreendido pela imprensa estar tão perto do local de conflito antes da polícia controlar a situação.

Diretor do departamento Américas desde 2005, Benoît Hervieu diz ter contato direto com repórteres brasileiros e conhecer as dificuldades que eles enfrentam. Desmatamento ilegal na Amazônia, tráfico de drogas e animais silvestres e corrupção no Nordeste foram relatados para o jornalista francês como temas que mais rendem ameaças durante uma reportagem no Brasil.

Violência contra a imprensa

A organização Repórteres Sem Fronteiras é mundialmente conhecida por divulgar casos e contabilizar
ataques aos jornalistas. De acordo com o último levantamento, apenas em 2011, 57 jornalistas foram mortos e outros 162 foram presos.

No Brasil, dois casos de assassinatos foram contabilizados: no dia 15 de junho, a morte de Ednaldo Figueira, jornalista do blog Serra do Mel, e o caso do cinegrafista Gelson Domingues, da TV Bandeirantes. Até a publicação da reportagem não havia registro de prisão de jornalistas brasileiros.

No ranking de liberdade de imprensa de 2010, o Brasil ocupou a posição 58º entre 178 países analisados, sendo a última posição ocupada pelo Estado de Eritreia, localizado no Chifre da África. Eritreia é classificado como o país mais problemático e com menor liberdade de expressão. Neste ano, 34 jornalistas já foram presos. 

Para conhecer a lista e saber quais países são os mais perigosos para a imprensa, clique aqui .

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