Região serrana tem deslizamentos naturalmente, afirma geólogo

Solução seria seguir carta geotécnica para evitar a ocupação de áreas com potencial de escorregamento de terra

Alessandro Greco, especial para o iG |

A região serrana do Rio de Janeiro em que ocorreu a tragédia que até o momento matou mais de 600 pessoas tem deslizamentos de terra naturalmente. “É um fenômeno intrínseco da região. É comum viajar pelo sudeste brasileiro e ver as cicatrizes desses deslizamentos mesmo no alto, com a vegetação intacta”, explicou ao iG Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo, ex-diretor de Planejamento do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e consultor em geotecnia. E completou: “É possível que com as chuvas que caíram na região houvesse um escorregamento natural mesmo sem a intervenção do homem. Agora não é possível dizer que ocorreria um deslizamento dessas proporções.”

A questão, segundo Rodrigues dos Santos, não é o escorregamento em si, mas a falta de diálogo entre técnicos e governo. “A competência e excelência técnica dos geólogos brasileiros é reconhecida mundialmente. A questão é os governos ouvirem os técnicos.”, afirmou. Mais especificamente é necessário que haja um mapa com informações geológicas e geomorfológicas do município, a chamada carta geotécnica. Com ela em mãos é possível avaliar quais as áreas adequadas à construção e quais as em que não se deve construir. “Quando uma construção é legalizada ela recebe um alvará de construção da Prefeitura. Nessa hora é que deveria haver a necessidade de se consultar a carta geotécnica, mas isso não ocorre. Os planos diretores das cidades deveriam incluir uma carta geotécnica, mas muitas delas sequer tem uma”, afirmou Rodrigues dos Santos. E completou: “Há também uma certa complacência dos municípios em relação a esta questão [de construção]”.

A tragédia ocorrida no Rio de Janeiro não é exatamente uma novidade e a solução para ela também não seria, segundo Rodrigues dos Santos. “O que estou falando repito todo o ano. Não tem nenhuma novidade. A primeira atitude a ser tomada é parar de errar no uso e ocupação do solo. A segunda é começar a corrigir o enorme passivo geológico-geotécnico-urbanístico legado por muitas décadas de crescimento urbano espontâneo, totalmente desimpedido de qualquer obrigação técnica em relação ao meio físico geológico afetado”, afirmou.

Um bom exemplo do uso de carta geotécnica para ocupação e uso do solo análise no Brasil mesmo é Santos e São Vicente. “Há uma carta geotécnica desde 1978 e ela faz parte da lei municipal. Para construir é preciso consultá-la. Por isso não ocorrem mais tragédias na região como havia antes do uso dela”, afirmou Rodrigues dos Santos, que foi o responsável pelo documento. O uso da carta geotécnica, segundo ele, é a forma de evitar novas tragédias. “Previsão de chuvas é ótimo, mas não adianta fazê-la se houver construções em áreas de risco. E também não adianta culpar a Natureza, com suas encostas e suas chuvas.” 

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