Queima de pneus, de carros e de sonhos em favela carioca

Exilados em casa, moradores do Complexo do Alemão narram momentos de tensão em meio às cenas de violência que aconteceram na quinta-feira (25)

Por Bia Amorim e Carmen Moreira, iG Rio de Janeiro |

Quando a corretora B.S., de 21 anos, saiu de casa às 7h30 da manhã desta quinta-feira (25) nem imaginava que não poderia voltar. Moradora do Complexo do Alemão quase na divisa com a Vila Cruzeiro, zona norte do Rio, ela assistiu pela TV a invasão da polícia em blindados da Marinha e a fuga de uma centena de bandidos pela mata no alto do morro. Embora estivesse bem longe de lá, em Botafogo, zona sul carioca, bairro onde trabalha, B.S. não se mantinha tranquila. “Meu coração está na mão porque minha mãe, minha filha de um aninho e meus irmãos estão lá”, lamenta.

Mesmo cheia de preocupação e com vontade de estar perto da família, a corretora decidiu dormir na casa de uma colega de trabalho. “Não tenho outra opção, minha mãe já me ligou várias vezes pra dizer que a situação lá está complicada”, disse. O auxiliar administrativo L.S., de 17 anos, irmão de B.S., conseguiu voltar para casa por volta das 16h30 após o expediente de trabalho, na Barra da Tijuca. Ele explicou que entra na comunidade pelo lado de Inhaúma, bairro vizinho à Penha, onde foi deflagrada a operação policial. “Quando cheguei, as ruas estavam vazias; tudo fechado”, contou.

Apesar de não ter presenciado nenhum confronto, L.S. disse que em sua casa todo cuidado é pouco para que não sejam atingidos por tiros. “Ninguém pode ficar na janela e estamos usando só o primeiro andar de nossa casa, que é mais seguro”. Agora, com a fuga dos bandidos da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão, L.S. acredita que amanhã nem conseguirá ir ao trabalho. “Se a situação continuar assim vou ligar e pedir pra faltar”.

‘Usaria uma palavra mais específica para resumir a nossa situação: pavor’

O construtor N, 54 anos, mora no Complexo do Alemão bem próximo à região por onde os bandidos passaram fugidos da Vila Cruzeiro. Ele está trancado com a família dentro de casa desde as 14 horas, quando conseguiu voltar do trabalho. De lá, ele conversou com o iG sobre a situação em que ele e a comunidade se encontram.

“Estou no meio do foco principal, onde deverá acontecer um confronto se a polícia resolver invadir. Quando sai para trabalhar, meu filho ficou me monitorando pelo telefone, mandando eu voltar para casa quando a situação começou a piorar. Voltei de carro e fiquei com medo de ser parado no meio do caminho. Mesmo tendo garagem, a situação é de temor, porque estão queimando pneus e também os carros dos moradores. As ruas estão desertas e só se ouvem os tiros trocados. Não podemos ficar perto das janelas. Por medida de segurança a gente procura a área mais concretada da casa para tentar se proteger, porque os tiros não escolhem alvo nessa situação”, diz o morador. “Graças a Deus não foram cortados nem luz, água ou telefone. Tentamos acompanhar as notícias pela televisão. Nós sabíamos que um dia a polícia ia chegar ao morro com a UPP, mas garantiam que isso não seria feito esse ano, por isso todo mundo está tomado também pela surpresa. Contra o poder, não há força: essa é a lição. O clima é de medo, mas usaria uma palavra mais específica para resumir a nossa situação: pavor. É duro para um pai não poder garantir a proteção da sua família, mas isso a gente deixa para Deus. Ficamos em oração para que tudo termine rápido e bem para todos”.

Há pessoas, no entanto, que conseguem manter uma aparente calma diante da crise. O casal F e J moram há 50 anos em um dos acessos ao Complexo do Alemão e narram uma situação um pouco diferente. “Estou em uma região mais baixa que é privilegiada, onde não conseguimos nem escutar os tiros. Não tenho medo da invasão dos bandidos, mas de alguma ação como queima de carros, porque o fogo poderia atingir as casas. A gente tem que se acostumar com situações de perigo, porque essa é a nossa realidade. Para mim não há nada de diferente. Aqui só mora gente boa, gente amiga. O problema vem de fora. O filho do meu marido já ligou duas vezes para cá. Ele mora em São Paulo e está alarmado com a situação. Tentei tranquilizar, mesmo sabendo que nunca havia presenciado uma situação como essa no Rio”, contou J.

O sonho em compasso de espera

Os últimos ataques não abalaram apenas a seguranças de quem mora nessa região do Rio de Janeiro. A violência também levou sofrimento a quem se deu ao direito de sonhar. A jovem M, 26 anos, estava de casamento marcado para a noite desta quinta-feira, mas o tiroteio no Complexo do Alemão, onde mora e onde também é a região onde fica a igreja, ameaçava colocar fim em seus planos.

“Escuto de longe os tiros e não posso sair de casa. Estou muito triste, porque levei mais de um ano com os preparativos da festa e agora a violência vem acabar com o meu sonho. Ainda não desmarquei a cerimônia, porque tenho que casar hoje. Não sei como vai ser. A minha esperança é que a situação amenize e que as pessoas se animem a sair de casa”, disse ela, que namora R, 22 anos, há dois anos e meio. “Estou olhando para o meu vestido no cabide, o cabelo já está feito e só falta a maquiagem. Todos ficam me ligando para saber o que fazer e eu não sei o que responder. Também não sei o que pensar. Nasci na comunidade e já vi de tudo por aqui, mas nada parecido com essa situação”.

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