Quadrilha do INSS conseguiu reativar benefícios falsos na Justiça

Esquema com cerca de 340 contas de fantasmas, que fraudou R$ 120 milhões, estava válido havia pelo menos 17 anos

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

A Polícia Federal já deflagrou centenas de operações em parceria com o INSS e prendeu milhares de pessoas recebendo benefícios de maneira irregular. Somente no ano passado, foram 330 operações conjuntas, com 1.700 prisões no país, mas o crime identificado pela operação Highlander , anunciada nesta quarta-feira, foi considerado “inédito”. A PF calcula que a quadrilha tenha causado um rombo de ao menos R$ 120 milhões aos cofres da Previdência, no que seria a maior fraude à Previdência nos últimos cinco anos.

Diferentemente de outras fraudes descobertas antes - baseadas em requesitos falsos apresentados ao INSS, como tempo de contruibuição, certidões de nascimento e atestado médico - os beneficiários de aposentadorias e pensões desta quadrilha nunca existiram de fato. O grupo, que contava com funcionários do INSS, criou personagens a partir de documentação falsa entre 1983 e 1994, antes do processo de informatização da Previdência.

Cerca de 340 cartões de benefícios estavam ativos até hoje. Outros cem foram suspensos pelo INSS, mas muitos voltaram a valer por decisão judicial. “A quadrilha era ousada, ingressando a partir de 2005 na Justiça Federal, foro competente, para reativar o benefício fraudulento. E infelizmente estavam conseguindo vencer na sua grande maioria", afirmou o delegado Wânderson Pinheiro, da Delegacia de Polícia Federal de Niterói, coordenador da operação, que cumpriu 9 dos 12 mandados de prisão de integrantes da quadrilha até o final da manhã desta quarta-feira (27).

Os valores dos benefícios variavam de R$ 2.000 a R$ 4.000 mensais, muitos deles referentes a ex-combatentes de guerra, que não estão sujeitos ao teto de pensões e aposentadorias fixado pelo INSS.

Além de reativar os benefícios via Justiça, outra preocupação era alterar a idade dos beneficiários para que não ficassem tão velhos a ponto de causar suspeita. "Identificamos um servidor que tinha como função atualizar a data de nascimento do segurado. Daí vem o nome da operação "Highlander", em referência ao filme homônimo (cujo protagonista tinha vida eterna). Uma das preocupações da quadrilha, como a fraude era muito antiga, era sempre manter o segurado sempre em uma determinada idade", afirmou o delegado.

"Então eles íam alterando a data de forma que o segurado nunca morresse. Como alguns dos ‘fantasmas’ tinham 70 anos na época em que foram criados na fraude e hoje já teriam 100 anos, a quadrilha falsificava também a data de nascimento do segurado para que o benefício nunca acabasse”, explicou o delegado, segundo quem as alterações eram feitas nas próprias agências bancárias ou por funcionários criminosos do próprio INSS.

Um dos principais nomes do esquema, um supervisor da agência de São Gonçalo, morreu em 2009. Em uma das residências aonde a PF foi, uma mulher, integrante da quadrilha, tinha 30 carteiras de identidade diferentes.

De acordo com a PF, os investigados serão indiciados por estelionato, formação de quadrilha e falsificação de documentos. A polícia não chegou aos responsáveis pela falsificação de documentos. Outros servidores do INSS, ainda na ativa, estão sendo investigados, segundo a PF. Advogados que conseguiram na Justiça a reativação de benfícios fraudulentos cancelados também estão na mira dos policiais.

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