Prisão de William expõe proximidade do tráfico com lideranças na Rocinha

Conheça a história da influência dos ‘donos’ do morro sobre a associação de moradores e a política partidária na maior favela do Rio, que agora busca nova dinâmica

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Imagens divulgadas pela polícia mostram a suposta negociação de venda de um fuzil AK-47

A prisão por associação ao tráfico de William de Oliveira , o William da Rocinha, expõe a proximidade e a ligação por vezes estreita de traficantes com líderes comunitários da favela e do Rio de Janeiro.

Leia também: Ocupação da Rocinha foi determinada na troca de comando da PM, em setembro

Após a ocupação pela polícia, a política interna da Rocinha vive um momento de redefinição, na nova ordem. Com a queda de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem , e de sua quadrilha, muda a dinâmica das políticas partidária e comunitária, antes fortemente influenciadas pelos criminosos.

O tráfico é suspeito de usar a Rocinha como “curral eleitoral” , apoiando candidatos com dinheiro e determinando, mediante coação, o voto dos locais em eleições gerais para cargos públicos e para a Associação de Moradores.

Proximidade da associação com tráfico começou nos anos 80, com Dênis

A proximidade da associação com o tráfico é antiga começou nos anos 80, quando o traficante Dênis da Rocinha expulsou os ladrões que controlavam o morro e assumiu, como novo “dono”. Sua namorada, a professora primária Maria Helena, derrotou o rival Zé do Queijo, espécie de “coronel” local, na eleição para a associação. Posteriormente, tanto Zé do Queijo como Maria Helena acabaram assassinados, mas desde então a influência do crime sobre a associação permaneceu ao longo das décadas.

Em 2005, William, então presidente da associação, já tinha sido preso por associação ao tráfico após ser flagrado em escutas negociando com o traficante Bem-Te-Vi, chefe do tráfico à época.

Reproduçao TV Globo
Agora preso, traficante Nem influenciava a política na Rocinha
Nem responde, entre outros delitos, por crime eleitoral. É suspeito de bancar a campanha eleitoral de 2008 e de pregar o voto da comunidade para o vereador Claudinho da Academia (PSDC), eleito com 11.513 votos – 8.235 (71,5%) deles na Rocinha. “Era muita opressão, só o Claudinho se candidatou. Aí é fácil se eleger”, disse um mototaxista.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral, rivais políticos e líderes comunitários ouvidos pelo iG , Claudinho era o único “autorizado” a fazer campanha lá em 2008. Nenhum líder local podia apoiar ninguém ou se registrar. O ex-administrador regional Carlinhos Brinquinho, que poderia ameaçar a eleição de Claudinho, foi impedido. Menos conhecido e sem representar perigo, o porteiro Adelson Guedes (PMDB) contou que fez campanha “à revelia”, mas foi “vigiado de perto”.

A pedido da Justiça Eleitoral, o Exército atuou lá. No dia do pleito, porém, os militares ficaram só nos acessos da comunidade. Centenas de cabos eleitorais de Claudinho distribuíam camisetas amarelas (cor símbolo do candidato) e montavam postos com mesas e cadeiras nas vielas, indicando a eleitores seus locais de votação, mediante apresentação do título. Sem repressão, correligionários intimidaram jornalistas, e a boca-de-urna irregular aconteceu ostensivamente. A Rocinha era um mar de camisas amarelas, possivelmente patrocinadas pelo tráfico.

Primeiro membro da comunidade eleito para um cargo público, Claudinho foi encontrado morto em junho de 2010, em casa, em São Conrado, de infarto. Diz-se na Rocinha que não resistiu às pressões de todos os lados, inclusive do tráfico.

Tráfico só permitiu campanha de candidatos ligados à associação. Nem Cabral entrou

Raphael Gomide
Para Léo, presidente da associação, é difícil dizer se saída do tráfico é boa para a Rocinha

Sua herança política foi disputada em 2010. As camisas amarelas se repetiram às centenas, com a foto de Claudinho, em apoio a dois candidatos “adotados”, de fora da Rocinha: André Lazaroni (PMDB, a deputado estadual) e Marcelo Sereno (PT, federal).

“Claudinho é mais forte morto do que vivo”, disse então ao iG o presidente da União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR), Leonardo Rodrigues Lima, o Léo, articulado líder do grupo de Claudinho.

Postulantes da própria comunidade – os ex-presidentes da associação William da Rocinha e Xaolin da Rocinha e o porteiro Adelson Guedes – puderam fazer campanha, mas quem era de fora só podia pedir votos mediante acordo com a associação.

Nem mesmo o governador Sergio Cabral (PMDB), que concorria à reeleição, se aventurou a entrar na Rocinha, contraindicada por sua equipe de segurança. Esteve só na base, e disse não fazer campanha em lugar com tráfico.

André Durão
Retirado da associação de moradores por Nem em 2009, Xaolin se candidatou a deputado federal em 2010, sem se eleger
Herança de Claudinho foi dividida entre William e candidato 'outsider'

Os votos para deputado estadual foram divididos entre André Lazaroni (PMDB), com 5.998 votos, e William , “de raiz”, com 6.013 – 77% de seus votos no Estado. Juntos, receberam um quarto dos votos da comunidade. Isso mostra que, apesar dos 70 mil moradores, a Rocinha, sozinha, dificilmente elege um deputado estadual – vereador, caso de Claudinho, é mais fácil.

O “outsider” Marcelo Sereno (PT), chefe de gabinete da Casa Civil de José Dirceu, foi o mais votado lá, com 3.542 votos, mas não se elegeu. O local Xaolin da Rocinha (PCdoB) ficou em quarto na comunidade, com 2.087 (82% dos seus 2.543 no Estado).

Xaolin sentiu o poder do tráfico. Secretário-geral da UPMMR em 2009, herdara a associação, com a posse de Claudinho na Câmara de Vereadores. Ficou pouco tempo: em seis meses, recebeu de Nem a ordem de deixar o cargo, transferindo-o a Léo, que nem pertencia à associação, mas era homem de confiança de Claudinho. Questionado pelo iG , Xaolin não quis comentar o episódio.

Pleito às vésperas da ocupação reelege presidente da associação

Raphael Gomide
Faixa da chapa de William diz que 'Voto é secreto', tentativa de minimizar medo dos eleitores de contrariar o poder do tráfico
Em 30 de outubro, dias antes da prisão de Nem e da ocupação da Rocinha, Léo foi reeleito para a associação, com 3.994 votos, mais que o triplo do segundo colocado, para quatro anos de mandato. A Chapa 1, com Cabeça/William da Rocinha, teve 1.296, e Adelson Guedes teve 100.

Uma faixa (foto ao lado) remanescente da eleição na Estrada da Gávea, principal avenida da Rocinha, ilustra o clima de tensão e de medo de coação dos eleitores na comunidade. “A hora é essa, a mudança é já! O voto é secreto!”, dizia o texto da chapa 1, de oposição.

Adversários na disputa, como William da Rocinha, dizem que Léo teve o apoio do tráfico para se reeleger. Há relatos de que, no dia do pleito, traficantes batiam às portas – em especial no Valão, reduto principal de Nem – para convocar os moradores a votar na eleição da associação, em 30 de outubro, às vésperas da ação da polícia.

“A chapa 2 comprou votos”, acusou William, vice-presidente da chapa derrotada. “Eles fizeram campanha com muito dinheiro”, disse William. “Vamos pedir novas eleições, o processo não foi democrático, houve uma disparidade muito grande, o crime estava aqui dentro. A comunidade quer escolher. A história tem de ter novos atores”, diz.

Léo nega com veemência. “William diz que compramos votos porque perdeu a eleição. Foi tudo dentro da lei, aprovada pela Faferj (Federação das Favelas do Estado do Rio). Nunca tive envolvimento com nada. Quem foi preso foi ele (William, preso por 200 dias por associação ao tráfico), jamais me envolvi com traficante. Vi aquele garoto (Nem) jogando bola, mas não tinha amizade. Conhecia, mas amizade nunca tive”, afirma Léo, antes da nova prisão de William, nesta sexta-feira (2). Em entrevista ao iG , Léo disse que "não dá para dizer" se a saída do tráfico é boa para a Rocinha .

Voto de Cabresto e assistencialismo

André Durão
William da Rocinha recebe um abraço da eleitora Cristina de Souza, com a camisa amarela da associação, adversária
Além do suposto “voto de cabresto”, outra forma de o tráfico controlar a população se assemelha ao da política coronelista nacional, o assistencialismo. Moradores dizem que o tráfico bancava os projetos sociais da UPMMR. Por meio da associação de moradores, os criminosos patrocinavam cerca de 1.500 cestas básicas por mês. Assim, fidelizava moradores para eleições e criava dependência, especialmente em áreas mais pobres, como a “Macerga” e a “Roupa Suja”. “É coação”, disse um morador.

“Era para manter o pessoal no cabresto mesmo. Não tinha como haver paridade na disputa”, disse o derrotado Adelson Guedes, com 100 votos. “O pessoal tinha medo, receio de votar e de pedir voto para os outros candidatos. Porque alguém podia denunciar: ‘Fulano está fazendo campanha para X, Y’. As pessoas não tinham liberdade. Claro que atrapalhou a minha campanha, porque quem queria votar ou falar abertamente que votaria em mim não falava”, complementa Adelson.

William denuncia apoio do tráfico em eleição para associação

De acordo com William e outros entrevistados, no dia da eleição, a chapa da associação usou vans para levar eleitores aos locais de voto, lotados de boca-de-urna amarela, com megafones e pressão sobre quem chegava.

Raphael Gomide
Mototáxis são alvo de cobiça na Rocinha
Segundo ele, os mototaxistas foram liberados de três diárias, e cerca de mil foram contratados, com o compromisso de levar três eleitores para votar. Moradores teriam sido constrangidos a pôr a camisa amarela, símbolo da chapa 2. “Qual é, botando a camisa do outro?”, questionavam. Na frente de William, uma senhora disse ao iG que quase foi agredida. “Tive de pôr a amarelinha.”

“Você sabe para quem eu perdi (para o traficante Nem)”, disse William à senhora. “A maioria dos moradores não vota”, disse um mototaxista. “Tenho mandato de quatro anos, foi tudo dentro da lei, reconhecido pela Faferj”, afirma Léo.

A associação é tida por muitos ouvidos pela reportagem como “opressora”, pelo histórico de proximidade com o tráfico, mas também por cobrar taxas dos mototáxis e de camelôs, para usar o espaço público, por exemplo. “Não fazem nada por nós, são falsos. Antes (de o tráfico sair) não tínhamos voz para falar”, afirmou um mototaxista.

De acordo com Gama, ex-“dono” do ponto de mototáxis do Largo da Macumba – um dos maiores da Rocinha – metade da diária de R$ 13 paga pelos profissionais era destinada à associação de moradores, para a distribuição de cestas básicas.

Após ocupação, governo evita associação como intermediária

André Durão
Adelson Guedes fez primeira campanha à revelia do tráfico
Mototaxistas disseram que parte do dinheiro era repassado ao tráfico . Com a chegada da polícia, as diárias estão suspensas, e os mototáxis se reorganizam. “Mentira. A associação nunca pegou nenhum centavo (da diária). Vai para a associação dos mototáxis”, rebate Léo.

“A associação manda em tudo. As pessoas não querem essa política antiga, querem uma política nova, com a ocupação”, disse Xaolin.

Após a ocupação, temendo eventuais influências do tráfico, as esferas de governo têm evitado usar a UPMMR como intermediária da chegada de políticas públicas à Rocinha. A opção está sendo por lideranças independentes.

Muito ativos e organizados, porém, os “amarelinhos” se fazem presentes em grande número em todos os eventos públicos, desde a ocupação. Nas eleições de 2012, Léo, atual presidente da UPMMR deve se candidatar vereador pelo PMDB, com o apoio de André Lazaroni, para quem fez campanha.

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