Praia à noite: a receita mais carioca para fugir do calor

Livres de raios UVA e UVB, adeptos do `banho de lua¿ ocupam as areias com poesia, roda de leitura, dança e, claro, banho de mar

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Em 1959, quando a cantora italiana Mina Mazzini universalizou "Tintarella di Luna" – explosão brasileira com Celly Campello em sua versão "Banho de Lua" –, parecia profetizar ali o hábito mais carioca no verão: aproveitar a praia à noite. A canção italiana dizia que “ Se cé la luna piena tu diventi candida (se faz lua cheia, você se torna um candidato)”. Afinal, a mistura de sol escaldante e calor que chega os 40°C é muita pressão.

Na zona sul, as praias são ocupadas por todos os tipos de pessoas. Idosos, crianças, pescadores, atletas, boêmios e poetas, passando por músicos, escritores e outros que tais. Bochincho animado. E há motivos: De acordo com o oceanógrafo David Zee, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o mar não é nada perigoso à noite e, graças ao pôr do sol, ele ainda garante águas mais quentinhas a quem o encara (por truque da natureza).

George Magaraia
O casal Daniel Dantas e Luiza Tenan ensaia passos de forró no calçadão da Praia de Ipanema
“A água tem a temperatura inalterada, mas a sensação térmica parece quente devido a redução da temperatura do ar que ocorre mais rapidamente com o desaparecimento da luz solar”, explica Zee.

“No verão, venho todos os dias. Saio do treino e dou um mergulho para refrescar ou pego onda”, conta o judoca Daniel Dantas, 19, da equipe profissional do Flamengo. Porém, não é só de lua e água fresca que vive o atleta na praia. Flagrado com a estudante de jornalismo Luiza Tenan, 20, em pleno calçadão de Ipanema, o casal reconheceu que o astral do lugar é ótimo para relaxar. “Ele me tirou para dançar no meio da rua”, conta a moça, com certa timidez, apesar de integrar a Cia. Dom, de samba.

A frequência noturna no balneário carioca é tanta que vendedores de biscoito Globo e outros acepipes praianos prolongam o expediente. “Saio daqui umas 22h, tem muito cliente”, conta Severino dos Santos, 17 anos de praia. “À noite isso aqui enche. Casal de namorados, famílias inteiras ou amigos. A sardinha frita é campeã dos pedidos”, diz Isaias, do quiosque instalado no caminho dos pescadores, no Leme, onde a porção do aperitivo sai a R$ 10.

Contos de uma noite de verão

Segundo pregam histórias de botequins cariocas, era uma noite quente quando o jornalista Paulo Francis afirmou que “intelectual não vai à praia”, e colega Ivan Lessa acrescentou: “Intelectual bebe”. Se razão dá-se a quem tem, que ninguém tente confirmar a máxima com o engenheiro de Furnas Guilherme Preger, 43. Integrante de um clube de leitura – originalmente instalado em um sebo em Copacabana –, ele resolveu abrir os encontros de verão da trupe na praia.

George Magaraia
Autores do Clube da Leitura que geralmente se reúnem no sebo Baratos da Ribeiro trocaram os encontros fechados por uma rodada de contos ao ar livre

Não que a ideia tenha agradado a todos. Afinal, intelectual bebe, sim, e se puder sob ar-condicionado. Com certo esforço até vai à praia – mas nada de banho de mar noturno, ok? “Acho mais legal lá no sebo, mas o Preger, que foi o mestre de cerimônias deste encontro, quis fazer aqui. Sobrevivi”, admitiu o tradutor mineiro Ronaldo Brito Roque, 32, que apesar de não ser habitué do espaço foi consagrado vencedor do melhor conto da noite cujo tema era verão.

Não é apenas a literatura que atrai banhistas notívagos às praias da zona sul do Rio. Abrigado no quiosque Estrela de Luz, no Leme, o ator, escritor, diretor, produtor cultural e poeta Eduardo Tornaghi promove toda quarta-feira sua Pelada Poética, a partir das 19h. “Qualquer um pode participar. É livre. A palavra é a bola, faz gol aquele que consegue tocar o outro”, define o ex-galã global que há 30 anos deixou a TV.

E como a turma da cultura é vanguardista na ocupação do espaço, nada mais natural que os sete rapazes da Mykonos Flame escolhessem o luar praiano como cenário para a gravação de clipes de divulgação da banda. “Muitos aqui já viraram a noite no Arpoador. Faz parte”, diz o vocalista Kao Johnny.

Censurar ninguém se atreve

Sob a luz do luar, o casal Diogo Soares, 23, e Fernanda Nascimento, 28, curtia os dois meses de namoro – período em que tudo são flores, até o frio provocado pela brisa que flagrava o casal em trajes de banho. “Praia à noite é bom, a gente fica mais à vontade na areia, namora melhor”, diz Fernanda, agarradinha ao par, no Arpoador.

George Magaraia
A chilena Mônica Muñoz com o filho Stéfano ao seu lado e Maximiano na beira do mar
E como o amor é lindo, a nutricionista chilena Mônica Muñoz, 42, resolveu aproveitar as férias de 20 dias no Rio, onde se hospedou em Copacabana, para “cariocar” com a família. “O sol daqui é forte, as crianças ficam muito vermelhas. Resolvi vir à noite para deixar os pequenos mais à vontade, sem que tenham de fugir do sol”, disse ela com os filhos Maximiano e Stéfano, de 6 e 4 anos.

Já que praia à noite também é programa de família, o porteiro Marcos Antônio dos Santos, 44, arrastou o filhos e um sobrinho para a praia, onde foram pescar nas pedras do Arpoador. “Passo umas quatro horas por dia aqui. É bom para relaxar, esvaziar a mente dos problemas”, disse ele, olhos atentos atrás de uma lula.

A amizade também tem seu lugar na areia noturna. Na última terça-feira (25), um reencontro feliz terminou com banho de mar depois que a estilista Lorna Borgerth, 49, e a produtora de moda Aline Miranda, 25, se cruzaram depois de muito tempo sem se ver. “Fomos jantar e viemos dar um mergulho para brindar”, contou Aline. “Sou mais do dia, mas a praia à noite é diferente, tem um astral”, finalizou.

    Leia tudo sobre: verãopraiabanho de marnoite

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG