Por dentro, blindado é quente, sujo e muito barulhento

O iG foi ver como os policiais são transportados nos veículos emprestados pela Marinha

Manuela Andreoni, especial para o iG |

AE
Blindado Anfíbio Clanff
O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, insistiu: sem os blindados emprestados pela Marinha, as operações dos últimos dias, que permitiram a rápida ocupação do Complexo do Alemão - principal base da maior e mais antiga facção criminosa do Estado - teriam sido impossíveis. O M113, o Piranha e o Carro Lagarta Anfíbios (Clanf) deixaram boquiabertos os cidadãos cariocas, e passaram a legitimar o uso da palavra guerra para definir a situação de conflito armado vivida pela cidade.

Com tanta curiosidade em torno dos blindados, o Comando da Força de Fuzileiros da Esquadra decidiu abrir o jogo nesta terça-feira (30) e levar a imprensa para dar uma voltinha no maior de seus equipamentos, o Clanf. Capaz de carregar 25 homens armados, ele tem poder de fogo de peso: uma metralhadora ponto 50, capaz de perfurar blindados, e um lançador de granadas M275.

Eram cerca de 20 os jornalistas reunidos em torno da tenente Juliana, encarregada de assessora a imprensa. Alguns reclamavam que não poderiam participar do passeio por terem sido preteridos por outros colegas do mesmo veículo. “Eu queria tanto ir”, dizia um repórter excluído a um fotógrafo sortudo.

Depois das explicações dadas por oficiais sobre cada um dos blindados, seguimos para o interior do 16º Batalhão da Polícia Militar, uma espécie de quartel-general da operação no Complexo do Alemão, para buscarmos os importantíssimos capacetes. Cada repórter que recebia o seu pedia ao colega que tirasse uma foto. Por motivos meramente profissionais, é claro.

Os capacetes pesam cerca de dois quilos e, após três minutos com ele, a repórter do iG já sentia o suor escorrer pelo rosto e uma certa dor no cocuruto da cabeça. A princípio também usaríamos os coletes da Marinha, mas, como não havia em número suficiente para todos, esta parte da missão foi abortada. O calor na cidade já não era de se ignorar, cerca de 35º C, dependendo do local da cidade. Dentro do Clanf, a temperatura pode chegar a 45º C – e não há dúvidas de que tenha atingido algo bem próximo a isso.

Esmagados uns contra os outros, jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos eram 15 dos tripulantes. Conosco iam o coronel Henrique Lima Castro, o relações públicas da PM; o tenente Lopes - comandante da primeira equipe do Batalhão de Operações Especiais (Bope) a subir a Vila Cruzeiro durante a operação de quinta-feira (25); o comandante Carlos Chagas, da Marinha, e mais seis fuzileiros navais. Três deles nas posições de comando: o de tropa na escotilha esquerda, o do carro na direita e o operador.

Os Carros Lagarta Anfíbios, os Clanf, são essencialmente quentes, sujos e barulhentos. Não havia nada que se encostasse sem que os dedos saíssem sujos de graxa ou de uma poeira preta. Logo que começamos a nos movimentar, percebemos o quão estrondoso era o barulho do motor. Por vezes, havia ruídos que se assemelhavam a tiros. A lagarta, esteira que move o veículo, é de metal. Quando em contato com pedras, faz o som “ratatata”, trazendo uma sensação desagradável de estarmos sendo alvejados.

Blindados nas vielas

nullForam oferecidos dois percursos para o passeio. O primeiro era o caminho que fez o blindado em sua primeira incursão na Grota, pela Rua Joaquim de Queiroz, aquela em que foi marcado o ponto de encontro da rendição dos criminosos. O destino seria o teleférico onde os policiais civis estenderam as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio para simbolizar a conquista do território. O segundo seria o trajeto que percorreram os traficantes fugidos da comunidade da Vila Cruzeiro, invadida na quinta-feira (25) pela polícia, até o Complexo do Alemão, ocupado no domingo (28). Iríamos, porém, fazer o percurso oposto, que terminaria na Pedra do Sapo, onde foram encontrados em 2002 os restos mortais do jornalista Tim Lopes, assassinado por criminosos da Vila Cruzeiro.

O iG decidiu ir aos dois. Saímos às 15h20 da porta do 16º batalhão com as escotilhas superiores abertas com destino ao teleférico. Mesmo assim, o calor já nos cozinhava nos primeiros minutos. Pelo teto podíamos ver os postes passando e, quanto mais avançávamos para dentro da comunidade, mais emaranhados os fios condutores se tornavam: eram os gatos, de luz e TV a cabo. Também observávamos pela distância entre as casas de um lado e de outro o quanto era estreita a viela pela qual aquele enorme blindado se esgueirava.

Das janelas mais altas, crianças, idosos, mulheres e homens nos observavam. As crianças riam e respondiam aos acenos de militares e jornalistas. O Clanf chacoalha muito mais do que um veículo comum. Sem cintos de segurança e sentados em três bancos paralelos, o que nos restava era mesmo apoiar no companheiro ao lado para não cair. Por mais que nossa visão se restringisse ao teto, era possível perceber claramente o relevo do local pelos movimentos do blindado.

Depois de cerca de 30 minutos, paramos. Um dos oficiais chamou pelo rádio um colega que o informou de que havia uma obra no percurso que nos impossibilitaria de seguir caminho. A rampa de entrada foi aberta e os fuzileiros navais nos deram cinco minutos para observar o redor antes de darmos meia volta e retornarmos ao batalhão.

Ao sairmos de capacete do veículo que mais parecia um tanque, nos deparamos com o contraste. Mulheres compravam legumes na vendinha e crianças corriam pela rua. Alguns sorriram, mas a maioria nos olhou como quem avalia algo patético. Talvez fosse normal ver os fuzileiros navais equipados, mas, se todos andavam de regata e bermuda para aliviar o calor, por que os jornalistas se protegiam de uma ameaça que não parecia se impor aos habitantes daquele local?

Os militares cumprimentavam a população e posavam com as crianças para os fotógrafos profissionais. A maioria dos passantes parou para acompanhar a manobra do Clanf para fazer a volta. Regressamos ao interior do veículo, sempre observados de soslaio pelos moradores, e seguimos de volta ao batalhão.

Calor, barulho e dificuldade de respirar

nullPassados alguns minutos, os jornalistas pediram aos militares que fechassem as escotilhas para que pudéssemos ter uma ideia de como se sentiram os oficiais transportados ali durante a ocupação. O Clanf, então, parou e, em um longo minuto, um oficial se encarregou de nos enclausurar no blindado numa verdadeira operação abafa. Neste momento, o operador, piloto, ligou a ventilação e todos suspiraram aliviados.

Por pouco tempo. Passados alguns minutos, o ventilador começou a soprar um ar quente, com cheiro de carburador. Respirávamos a expiração uns dos outros, misturada com o cheiro de combustível queimado. Com tudo fechado e o breu total cortado apenas pelas luzes das câmeras, foi possível fechar os olhos e tentar perceber o que aqueles oficiais sentiram. A tensão e a dificuldade de raciocinar em um ambiente tão adverso. O esforço para respirar aquele ar quente e úmido. E a total ignorância do que se passava do lado de fora. Não à toa, aguentamos apenas dez minutos. Os policiais transportados ali durante a operação precisaram suportar mais de trinta. Abrir a escotilha significaria perigo de vida.

De volta ao batalhão, partimos novamente em dois grupos de jornalistas, um em cada Clanf. Seguimos pela Rua Nova à Rua da Pedreira, no caminho oposto ao feito pelos traficantes na quinta-feira. Desta vez, os militares nos permitiram ir com os pés nos bancos e as cabeças para fora das escotilhas do teto. Observamos que, na nossa frente, uma picape do Bope nos escoltava e, atrás, seguia o segundo grupo da imprensa, de onde se viam diversas câmeras fotográficas e filmadoras.

O ar era quente e soprava poeira para os nossos olhos. Ficar de pé ficou difícil em certos pontos onde era preciso que o veículo transpusesse buracos enormes. Seguíamos em uma trilha bastante estreita e desfolhamos muitas árvores pelo caminho. O que vimos no percurso foi surpreendente. Não pelo tamanho das comunidades que, juntas, abrigam cerca de 400 mil pessoas. Mas, por percebermos que, entre duas regiões tão pobres, o Complexo e a Vila Cruzeiro, revelava-se uma mata densa e verde e montanhas tão belas quanto algumas imagens de floresta que vendem a Cidade Maravilhosa no exterior.

No fim, chegamos à Pedra do Sapo, onde Tim Lopes foi assassinado. O local não cheirava a morte ou pólvora, mas a fezes de cavalo. Se desconsiderássemos a amplitude do complexo de favelas que víamos lá de cima, vigiados pela igreja da Penha, cartão-postal do subúrbio carioca, poderíamos pensar que estávamos em uma comunidade rural qualquer. Entre as casas pobres, meninos brincavam de bola e a vida parecia continuar.

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