PM do Rio faz autocrítica no teatro em peça sobre desvio de conduta

Espetáculo montado por policiais vai servir como alerta em programa de prevenção a irregularidades na corporação

iG Rio de Janeiro |

"Hoje eu estou muito triste. Meu papai foi preso, e eu não entendo. Todos na escola ficaram rindo, e eu morri de vergonha. Como meu papai pode ser preso se ele é policial?”

A PM do Rio de Janeiro resolveu fazer autocrítica no teatro. E a peça “O preço de uma escolha”, que estreou na tarde desta quarta-feira no Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio, tem como tema o desvio de conduta na corporação. Ela é encenada por atores policiais militares e começa com essa frase do filho de um PM preso.

Fabrizia Granatieri
Oficiais da Polícia Militar assistem a estreia de peça encenada por policiais no Teatro Carlos Gomes, no Rio
A primeira apresentação acontece oito dias após dois PMs terem liberado Rafael Bussamra, atropelador de Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães – supostamente depois de cobrança de propina de R$ 10 mil, R$ 1 mil pagos pelo pai do rapaz.

“O preço de uma escolha” conta a história de uma família de policiais militares, em que o pai é referência ética na corporação. A trama se desenrola a partir da acusação de participação de Fernando, filho do meio, em um sequestro. O irmão mais velho ficou paraplégico após ser ferido em serviço, e o mais novo é recruta.

O envolvimento do rapaz no crime e sua prisão preventiva geram uma crise familiar, revelam consequências institucionais e sociais do desvio de conduta. O tema foi escolhido a partir das discussões do grupo cênico, que integra o Programa de Prevenção ao Desvio de Conduta Policial Militar.

Fabrizia Granatieri
Diretor e ator da peça, o sargento PM Sidney Guedes, também foi o maquiador
A mulher de Fernando se desespera e não acredita, apesar de o marido viver coberto de cordões e pulseiras de ouro, ter carro importado e moto esportiva. Além da rejeição dos colegas, o filho do oficial tem abrupta queda de rendimento escolar e acaba perdendo a bolsa de estudos no colégio particular, o que o obriga a sair.

“A merda está respingando em todo mundo! Muda esse discurso repetitivo de que foi traído”, ataca o irmão cadeirante, que alerta depois o mais novo, ainda recruta em formação: “Papai dizia que na PM você vai encontrar de tudo, até porque policial não caiu de Marte, veio da sociedade. A maioria esmagadora é honesta, como na sociedade, mas tem bandido, corrupto, ladrão. Cuidado com a expressão ‘parada de polícia’. Foge dos espertos, do polição, do malandro”, avisa.

A platéia riu quando no palco se falou das “tentações” diárias a que o PM está sujeito.

Preocupação em evitar o maniqueísmo

O espetáculo, porém, não vai ficar em cartaz no Carlos Gomes. Embora a estreia para oficiais da corporação tenha sido aberta ao público, as próximas apresentações serão itinerantes, apenas em unidades-escola e quartéis pelo Estado, tendo como público-alvo os próprios PMs.

A idéia da peça surgiu em abril, quando foi criado o grupo teatral “Disse que”, formado por seis PMs e dirigido pelo sargento Sidney Guedes, profissional dos palcos há 26 anos. O nome do grupo é uma referência ao termo usado em documentos de sindicâncias internas, em que a versão de cada testemunha ou réu é precedida da expressão “disse que”.

Fabrizia Granatieri
Policiais esperam para início da peça no hall de teatro
Sidney foi convidado pelo próprio comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Brito Duarte, para montar o grupo pelo Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas), que Mário Sérgio já comandou.

“Tínhamos a preocupação de evitar uma abordagem corporativista ou moralista. Não tem uma visão maniqueísta, queremos mostrar a realidade como ela é, e as conseqüências do desvio de conduta na vida do policial e de sua família. O grupo quer discutir a questão, e o teatro é uma ferramenta para pensar isso”, disse o diretor.

Os seis atores da peça – quatro homens e duas mulheres – são sargentos, cabos e soldados da PM, selecionados dentre 11 candidatos. Sem experiência prévia no palco, eles receberam formação técnica e de pensamento teatral nos últimos dois meses e meio, três vezes por semana.

Chama a atenção a PM expor publicamente uma de suas principais feridas, o desvio de conduta. A corporação é frequentemente apontada como corrupta. Na formação básica do PM, no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), é constante o discurso oficial dos instrutores contra a corrupção e o desvio para o crime. 

Sem censura

Fabrizia Granatieri
Os atores, que são policiais, agradeçem aos aplausos da plateia no final da peça
A PM mantém uma relação tensa com a sociedade. Seus integrantes julgam que a opinião pública não reconhece atuações positivas da polícia, apesar dos baixos salários, e só a critica por corrupção, esquecendo-se de que sempre há um corruptor.

O comandante-geral da PM já tinha assistido ao espetáculo no quartel-general e também foi à estréia, esta tarde. “Ele nos deu liberdade de construir e elaborar. Assistiu e não cerceou”, disse Sidney.

O argumento da peça vai virar roteiro de filme. De acordo com Sidney, o cineasta José Padilha (de “Tropa de Elite”) – que assistiu à apresentação privada no quartel-general da PM – pode apoiar com estrutura.

Também com o intuito de alertar policiais contra desvios, a PM prepara um curta-metragem em que policiais expulsos da corporação dão depoimentos afirmando estar arrependidos

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