Planejamento e treinamento são fundamentais para evitar tragédias

Costa Rica tem sistema de alerta e distribuição coordenada de informação; Japão também faz treinamento anual para emergências

Alessandro Greco, especial para o iG |

As inundações e deslizamentos de terra ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro são comuns em diversas partes do mundo. Para mitigá-las, países como Costa Rica e Japão contam com sistemas de monitoramento e alerta, mas acima de tudo possuem um sistema de coordenação de reação a situações de emergência. “Se detectamos um situação severa emitimos um aviso metereológico para a Comissão Nacional de Emergência, eles então distribui a informação”, explicou ao iG o metereologista Eladio Solano Leon, do Instituto Nacional de Metereologia da Costa Rica. A região tem uma topografia semelhante ao da serra fluminense e passou por uma situação de grande volume de chuvas em 2010. “Foi um ano difícil para nós. Tivemos chuvas muito acima da média. Em diversos meses, batemos recordes históricos. Me lembro, em especial, de uma semana em novembro em que um morro desceu, houve destruição das estradas, inundações e tivemos cerca de 30 mortos.”

O sistema de alerta coordenado pela CNE envolve diversos níveis de resposta. Após receber a informação do Instituto Nacional de Metereologia, a CNE distribui a informação para os Comitês Locais de Emergência que acionam os mecanismos de resposta e e logística. Os comitês locais, por sua vez, põe em funcionamento seus Centros de Coordenação de Operações que coordenam os processos de evacuação, resgate, abrigos, avaliação de danos, análise de necessidades, aviões e distribuição de assitência humanitária e doações à comunidade. Ao mesmo tempo, a nível nacional, o Centro de Operações de Emergência (COE) coordena com os comitês locais o suporte logístico e operacional da emergência, e o CNE supre o abastecimento de água engarrafada e comida para os abrigos. E, dependendo da emergência, o CNE pode ativar o Fundo de Emergências para apoiar instituições que estejam trabalhando no desastre. O trabalho, no entanto, não para por aí. Ao final da emergência a CNE também trabalha nas ações de recuperação da infraestrutura da região afetada.

No caso da tragédia no Rio de Janeiro, uma das grandes dificuldades foi justamente a transmissão da informação. “Estou rastreando as informações e como elas estão sendo passadas no evento do Rio. Minha conclusão é que não há nenhuma coordenação por parte das instituições. Ou seja: mesmo se houvesse um sistema que detectasse com 24 horas de antecedência o que iria ocorrer não adiantaria”, explicou ao iG André Dantas, engenheiro de transportes, especialista em Logística de Desastres e professor associado da Universidade de Canterbury, Nova Zelândia. “Outra questão é que a comunidade precisa receber a informação e tem de saber o que fazer com ela. Se não houver treinamento isto não vai acontecer”, emendou.

A falta de uma cultura de realização de treinamentos é um dos grandes vilões das respostas a desastres naturais. “O Japão para o país uma vez por ano para fazer treinamento para situações de emergência. Na Nova Zelândia também. Todo mundo participa. Não é uma opção, é uma obrigação. Agora imagine parar a região serrana do Rio e realizar um exercício desses? O resultado é que, por exemplo, teve um terremoto de 7,4 graus em setembro na Nova Zelândia e sabe quantas pessoas morreram? Zero. Um evento de deslizamento de terra, desculpe dizer, é uma mixaria perto de um terremoto. Ou seja: o que aconteceu na região serrana do Rio é inaceitável. E posso afirmar que não é falta de recursos financeiros. O que as grandes universidades brasileiras tem de recurso para dois meses eu tinha para um ano inteiro na Nova Zelândia.”, afirmou Dantas.

A solução imediata para o problema não é simples. Segundo Dantas, não há uma solução rápida a não ser retirar as pessoas das áreas de risco. “A solução de verdade mesmo é deslocar a população. Ela não deveria estar lá. Não deveria existir esta opção. As pessoas não têm ideia da situação em que estão se colocando. É ignorância mesmo e isto não tem necessariamente relação com classe social.” Em um prazo um pouco maior outra questão fundamental é o planejamento. “É importante conscientizar as pessoas de que situações como esta não têm solução de prateleira, não se resolve do dia para a noite e necessita de uma estratégia de atuação de curto, médio e longo prazo”, completou o professor.

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