PF indicia ex-chefe da Polícia Civil do Rio

Allan Turnowski irá responder pelo crime de violação de sigilo funcional

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

A Polícia Federal indiciou no início da noite desta quinta-feira (17) o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Allan Turnowski, pelo crime de violação de sigilo funcional. De acordo com o Código Penal, o crime prevê pena de seis meses a dois anos de detenção. Se for comprovada que a ação resultou em dano à administração pública, a pena pode aumentar para seis anos.

Agência O Globo
Turnowski foi indiciado por vazamento de informações
Turnowski é acusado de ter passado informações sobre a Operação Guilhotina , da Polícia Federal, a um policial civil, preso na ação. O ex-chefe da Polícia Civil esteve nesta quinta-feira na superintendência da Polícia Federal, na zona portuária do Rio, onde prestou depoimento por aproximadamente três horas.

Na saída, ele desqualificou o indiciamento aplicado pelo delegado da PF, Allan Dias. Segundo Turnowski, a medida foi tomada sem que constassem nos autos uma declaração do secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame.

O ex-chefe da Polícia Civil disse à imprensa que durante seu depoimento ligou para Beltrame e gravou a conversa, com a autorização de Allan Dias. Turnowski perguntou ao secretário se ele o havia avisado sobre a Operação Guilhotina e o mesmo respondeu negativamente.

"Gostaria que vocês perguntassem ao secretário de Segurança se ele me contou sobre a operação. Se ele disser que me comunicou, vou responder perante a Justiça. De qualquer maneira, tenho certeza de que esse juízo de valor do delegado, que eu respeito e que é uma autoridade séria, não passa de um primeiro crivo do Ministério Público e da Justiça", afirmou.

Acusação

O ex-chefe da Polícia Civil é acusado de ter repassado informações sobre a Operação Guilhotina ao inspetor Christiano Gaspar Fernandes, preso no último sábado. Ele nega ter vazado dados.

Turnowski alega que, durante a investigação da PF, em 2010, foi informado por um policial federal que uma escuta telefônica havia registrado a prisão de um criminoso por Christiano. Ele teria entrado em contato com o inspetor para pedir que o preso fosse levado à delegacia. O ex-chefer da Polícia Civil disse que acreditava que o telefone do bandido estava grampeado, e não a linha do policial.

"Falei com ele porque muitas vezes você prende alguém oito horas da manhã e faz várias diligências até chegar à delegacia. Falei para ele, já que o secretário havia perguntado, que levasse o preso para qualquer delegacia antes de qualquer diligência".

Afastamento

Turnowski deixou a chefia da Polícia Civil três dias depois da Polícia Federal ter deflagrado a Operação Guilhotina . A ação desarticulou um grupo criminoso formado por policiais civis e militares acusados de envolvimento com tráfico de drogas, de armas e de munições, além de atuação em milícias, na segurança de pontos de jogos clandestinos e na venda de informações sigilosas.

Entre os presos está Carlos de Oliveira, homem de confiança de Turnowski, que comandava a Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae). O ex-chefe da Polícia Civil chegou a ser interrogado por policiais federais, na condição de testemunha.

Na ocasião, o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame enfatizou que Turnowski contava com sua total confiança. "Não vou fazer julgamento precipitado. Vou escutar os esclarecimentos dele e, se for o caso, tomaremos as medidas cabíveis ao seu tempo", afirmou.

Leia a seguir na íntegra as declarações de Turnowski ao deixar a Polícia Federal:

Indiciamento

"Fui acusado de vazar uma operação que, segundo o doutor Allan Dias, eu teria sabido dela através do secretario de Segurança [José Mariano Beltrame]. No fim dessa investigação, nada foi comprovado em relação a qualquer dinheiro recebido por mim. Os autos foram para a Justiça e nada tem no meu nome contra mim. Em relação à pirataria, nada ficou provado. Prestei declarações como indiciado por vazamento de informação sendo que a informação teria sido obtida através da secretaria de Segurança Pública, só que o secretário de Segurança Pública não foi ouvido. Já fui indiciado antes que alguém da secretaria de Segurança dissesse que falou para mim que eu sabia da operação. Durante o depoimento, liguei para o secretário com a autorização do doutor Allan e perguntei: ‘Secretário, o senhor falou comigo da operação?’ e ele disse: ‘Claro que não’. Mas estou sendo indiciado antes de ele ser ouvido".

Acusações

"Em primeiro lugar, queria dizer que estou sozinho, que não vim com advogado, para de uma vez por todas dar a última declaração antes do fim da apuração. Fui acusado por todo mundo sem que tivesse uma prova nos autos desses fatos. Não tem um grampo de corrupção e nem nada que pudesse bater na minha honra, mas fui massacrado como se fosse o maior vilão da Polícia Civil".

Sobre as denúncias

"Teve apenas uma testemunha que falou a respeito. Não há nenhuma outra prova na investigação. Gostaria que vocês perguntassem ao secretário de Segurança Pública se ele me contou sobre a operação. Se ele disser que me comunicou, vou responder perante a Justiça. De qualquer maneira, tenho certeza de que esse juízo de valor do delegado, que eu respeito e que é uma autoridade séria, não passa de um primeiro crivo do Ministério Público e da Justiça".

Grampos telefônicos

"A única gravação obtida é a que eu falo com o inspetor Christiano, da 22ª DP, a respeito de um preso sobre o qual o secretário me perguntou e mandou que eu checasse [a informação]. Liguei para ele [Christiano] e realmente existia o preso. Falei com ele porque muitas vezes você prende alguém oito horas da manhã e faz várias diligências até chegar à delegacia. Falei para ele, já que o secretário havia perguntado, para que levasse o preso para qualquer delegacia antes de qualquer diligência. Foi nesse sentido que falei com ele. Depois, tem diálogos em que falo que a nossa corregedoria está de olho nele e na equipe dele, porque ele já tinha discutido com o corregedor, e que então ficasse muito atento, que não tivesse uma falha e que procedesse dentro da lei".

Vida pessoal

"Gostaria de uma vez por todas que a sociedade pensasse melhor se é isso que ela quer dos meios de comunicação. Foi um sofrimento para mim, para minha família e para meus amigos. Nada foi provado e o único indiciamento que tive depende da palavra do secretário de Segurança [José Mariano Beltrame]. Não quero olhar para trás. Quero olhar para frente e quero que isso não aconteça a outros inocentes".

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