Parentes e amigos fazem carreata para os 12 “anjos” de Realengo

Homenagem durou 2h30 e contou com 400 pessoas, passando em frente ou perto das casas das vítimas do massacre ocorrido há um ano

Victor Corrêa, especial para o iG |

No dia em que o maior massacre em uma instituição de ensino brasileira completa um ano, famílias e amigos das 12 crianças mortas na Escola Municipal Tasso da Silveira, em 7 de abril de 2011, participaram da “Carreata da Paz” , que reuniu cerca de 400 pessoas (de acordo com a Guarda Municipal) em Realengo, zona oeste do Rio. O objetivo da carreata, que durou cerca de 2h30 , era passar em frente, ou nas proximidades, das residências das vítimas de Wellington Menezes, ex-aluno da escola e autor dos assassinatos. Cada vez que isso acontecia, todos os participantes aplaudiam. Emocionados, parentes das vítimas falaram sobre a dor que persiste até hoje.

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Fabrizia Granatieri
Carreata marcou o aniversário de um ano do massacre de Realengo, quando Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira
Também esteve presente o Sargento Alves, o policial militar que parou o atirador. Ele lembrou do dia da tragédia e rejeitou a alcunha de herói: “Já dispensei o título de herói. Queria ter chegado mais cedo para evitar tantas mortes. Está sendo muito difícil e estou compartilhando esse momento com vocês. Deus sabe o que faz. A primeira coisa que pensei naquele momento foi no meu filho de 13 anos. Como eu disse, não me considero herói. Fiz o que tinha de ser feito. Não era nem para entrar na escola, agi por impulso. Sou pago pela sociedade e tento cumprir meu papel. Se precisasse colocaria a minha vida em risco novamente”.

Sônia Moreira, avó de Larissa Atanázio, vítima do atirador, contou que costumava dormir na mesma cama que a neta. Até hoje, não conseguiu retirar da cama o travesseiro usado por Larissa. “Parece que há um buraco no peito. A Larissa morava e dormia comigo. Não tive coragem de tirar o travesseiro dela da cama. Ela tocava piano na igreja e fazia curso de modelo”, lembrou. Vera Lúcia, mãe de Samira Pires Ribeiro, também tinha o hábito de dividir a cama com a filha. “Ela foi a primeira a levar tiro. Tudo lembra a minha filha. Como sou espírita, penso que chegou a hora, que Deus precisou de 12 anjinhos. A gente dormia na mesma cama e isso causa um vazio muito grande na minha vida”.

Fabrizia Granatieri
Thayane, uma das sobreviventes do massacre, e a mãe Andreia
Já na casa de Ana Beatriz Silva, de 13 anos, irmã da vítima Rafael Pereira da Silva, de 14, a solução para tentar amenizar a dor da perda foi outra. O quarto do menino foi demolido para que a sala fosse ampliada. “Todo dia lembro alguma coisa do meu irmão. Era uma pessoa que eu via todos os dias e agora tenho de me acostumar a viver sem”.

Também esteve na carreata Andreia Tavares, mãe de Thayane Tavares, uma das sobreviventes do massacre. Ela completará 15 anos em julho e ficou paraplégica por conta dos tiros que recebeu. “Doze anjos que se foram, um momento único. Fico feliz em estar representando esses 12 anjos. Outros pais abraçam a Thayane como se ela fosse filha deles também. No momento a Thayane luta para voltar a andar, luta por um tratamento digno e adequado”, reclamou Andreia.

Ana Paula Oliveira dos Santos, tia de Karine, morta aos 14 anos, narrou a dificuldade de passar em frente à escola. Ela recordou do seu último contato com a sobrinha, no seu aniversário, quando recebeu “o melhor presente que poderia receber”. “A dor é a mesma, a saudade é cada vez maior. Passar em frente à escola é uma dor absurda. Fico imaginando que ela chegou com vida e saiu daqui morta. Naquela situação, eu não acreditava no que estava acontecendo. A última lembrança que tenho da Karine foi do meu aniversário. Ela sempre foi muito reservada, mas no meu aniversário ela fez um cartaz dizendo: ‘Tia, eu te amo’. Ironicamente, foi o presente final, o melhor presente que poderia receber”.

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