Para escapar, vítima de Realengo se cobriu com sangue de colega morta

Carlos Matheus Vilhena de Souza, de 13 anos, contou ao iG que lutou pela vida durante o massacre e afirma que pretende voltar a estudar na mesma escola

Priscila Bessa, iG Rio de Janeiro |

Helio Motta
Carlos Matheus fez o que pôde para escapar: empilhou mesas e tentou usar o celular de uma colega
Mesmo com a alta de Carlos Matheus Vilhena de Souza, de 13 anos, a rotina da família do menino está longe de voltar ao normal. Sentado no sofá da sala de sua casa, onde vive com o pai, Carlos de Souza, a mãe, Carla de Souza, e o irmão, Carlos Alberto de Souza, de 14 anos, que estuda na mesma escola, mas não estava no local no momento do ataque por cursar o turno da tarde, Matheus, como os pais o chamam mais frequentemente, tenta não deixar transparecer as marcas do trauma vivido na manhã do dia 7 de abril.

Estudante do oitavo ano, na sétima série, ele estava na sala 1801 da Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, onde houve mais vítimas dos disparos do massacre ocorrido

“No início, até não queria voltar para a escola, mas agora não estou com medo não. Já fui até lá. Estão reformando, mas está meio afeminado, cheio de desenho de flores na parede”, afirma ele, esboçando um rápido sorriso. Os curativos no braço esquerdo do menino, que levou dois tiros no braço e um de raspão no peito, são lembranças visíveis da experiência trágica.

nullSangue da amiga

Segundo ele, a manhã em que houve a chacina começou tranquila, sem qualquer prenúncio de anormalidade. Após ter aula de física, o menino iria começar a aula de português. Entretanto, a professora Patrícia nem teve tempo de começar a escrever no quadro negro. Foi interrompida pelos disparos.

Helio Motta
Apesar do medo, mãe e filho preferem que tente superar o trauma estudando na mesma escola

“Ficamos apavorados. A gente ouviu o barulho do tiro, mas primeiro pensamos que fosse da aula de teatro. É comum. Quando a professora sai da sala eles (alunos) jogam cadeira no chão, mesa. Colocam o quadro abaixo”, explica Matheus, que sentava na primeira fileira.

Segundo o menino, em seguida, a professora saiu da sala para verificar o que estava acontecendo e, ao ver o atirador, correu. “Ele chegou na nossa sala carregando a arma. Aí peguei duas mesas e coloquei na minha frente. Botei uma mesa embaixo e uma em cima. Na hora do pavor você faz qualquer coisa...”, diz o menino levantando os olhos rapidamente.

Na maior parte do relato, Matheus mantém o olhar fixo. Perguntado se teve muito medo ao ver que o homem estava armado, responde em voz baixa: “Um pouquinho”. A tentativa de minimizar o terror fica clara ao falar sobre o que passou por sua cabeça naquele momento. “Pensei que a minha hora tinha chegado”.

Helio Motta
Ele ainda sente dores na palma da mão. Motivo pelo qual chegou a voltar a ser internado

Matheus conta que Wellington começou a atirar nas meninas “rindo” e que “escolheu” um aluno que parecia estar passando mal para poupar a vida. “Ele (o atirador) disse para sair da frente e sentar na cadeira que não ia atirar nele. Ele (aluno) desmaiou na hora”, disse. Porém, ao decidir deixar que o menino escapasse, a atenção de Wellington mudou para Matheus. “Ele apontou direto para mim, mas fiz assim (faz gesto de defesa com os braços). Então, ele atirou em todos os meus amigos que estavam à minha esquerda e estava quase terminando os que estavam à minha direita”, lembra ele, que antes de ser alvejado ainda tentou pedir socorro.

“Peguei o celular da Larissa, que estava atrás de mim. Ele já tinha atirado nela, só que aí não deu tempo de ligar para polícia ou para a mãe. Então caí e fingi que estava morto. Peguei sangue da colega que estava do meu lado e coloquei em mim. Fiquei jogando em mim. Depois fiquei parado”, relembra ele, se referindo ao sangue de Larissa, uma das vítimas fatais da chacina.

Sacos brancos com as roupas das vítimas

Depois disso, Matheus se recorda de ver três policiais entrando na sala, perguntando quem estava vivo e podia andar. “Falei que eu podia, mas tinha que segurar o meu braço”, conta o menino, que foi levado por um policial até o lado de fora da escola. Neste momento, um vizinho o socorreu e o colocou em uma ambulância. A mesma unidade que levava Karine Chagas de Oliveira, de 14 anos, morta no ataque. Segundo Matheus, ele não pôde conversar com a menina, pois ela estava desacordada.

Matheus conta que não sentiu dor na hora e que não conseguia ver exatamente aonde havia sido atingido. “Veio uma pressão só, no braço. Não cheguei nem a olhar. Não deu para ver aonde foi”, diz o estudante, que garante não ter conseguido ver o corpo de Wellington porque havia “muita gente desesperada correndo”.

Helio Motta
Detalhe da família em uma viagem de férias. Segundo os pais, os quatro são muito unidos

Enquanto Matheus era atendido no Hospital Albert Schweitzer sua mãe, Carla, vivia um drama paralelo. A cabeleireira foi acordada pelo sogro com a informação de que Matheus havia sofrido apenas um arranhão e iria fazer um curativo no hospital. “Peguei a documentação dele e corri para a escola. Lá, vi as pessoas desesperadas e comecei a me dar conta de que algo sério havia acontecido. Mas só no hospital me contaram o que houve. Fui a primeira mãe a chegar”, lembra ela emocionada.

Sem informações sobre o real estado de saúde do filho, a cabelereira viu as emoções oscilarem enquanto famílias recebiam a notícia da morte das crianças no hospital junto com saquinhos brancos com as roupas dos estudantes.

“Tentei não me desesperar. Até que a tia dele conseguiu ter certeza que ele estava vivo e bem. É uma sensação estranha, de alívio e, ao mesmo tempo, de pesar. Um sentimento totalmente esquisito”, explica ela, se referindo ao fato de acompanhar o estado emocional das famílias. “Quando trouxeram as coisas do Matheus entrei em pânico achando que tinha morrido”, conta Carla.

Dormindo juntos no mesmo quarto

“A gente ainda não sabia que o atirador tinha morrido e o Matheus não conseguia dormir direito porque achava que ele ia voltar. No dia seguinte contei que saiu uma foto dele morto no jornal e ele pediu para ver. Só então começou a dormir melhor”, conta Carla, que tomou a decisão orientada por psicólogas. Mesmo assim, a família ainda não se sente segura e, desde então, todos dormem juntos no mesmo quarto.

Helio Motta
Preocupado, ao ver a mãe Carlos Matheus pediu que não deixasse o irmão ir à escola

De acordo com os pais da criança, Matheus ainda está traumatizado. “Às vezes ele fala que vai dormir e quando vejo ele foi apenas deitar para ficar sozinho. É o jeito dele de fugir do assunto quando não quer falar. Mas mesmo assim checa o tempo todo se tem gente em casa. No começo dizia que não queria voltar para a escola porque tinha medo que acontecesse tudo de novo. Conversamos com ele e, felizmente, ele decidiu continuar. Acredito que será mais fácil para o Matheus superar junto dos colegas do que numa nova escola”, afirma Carla.

O pai, Carlos, não esconde a emoção ao falar sobre o que houve com o filho. “Meu filho é mesmo um herói. Talvez eu não tivesse feito metade do que ele fez. Parece besteira, mas pedi para tirar as minhas férias agora porque fico pensando em como vai ser para deixá-lo voltar ao colégio. Tenho medo. Os pais sempre pensam que podem proteger os filhos, mas na hora não estávamos lá para levar o tiro no lugar dele”, diz Carlos, com a voz embargada.

E completa: “Quando seu filho é bandido você até espera que uma hora ou outra uma notícia dessas vá chegar à sua casa, mas quando ele está na escola e acontece isso, a sua cabeça pára. Só sabe quem passa. Não desejo a ninguém”.

De acordo com a mãe, os médicos do Hospital Albert Schweitzer garantem que o garoto não perderá nenhum movimento da mão, afetada após um nervo ter sido atingido.

“No começo ele não estava conseguindo movimentar muito a mão, mas já está melhor. Se semana que vem mexer melhor ainda pode ser que tire a tala e, se for necessário, fará fisioterapia”, disse Carla, que viu o filho ser internado novamente no hospital após ter tido alta. “Liberaram ele na segunda-feira (11) e, na semana seguinte, ele voltou. Ficou mais três dias. Porque os remédios eram fracos e, como foi no nervo, sentia muita dor”.

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