Para conquistar Rocinha após ocupação e assaltos, PM usa charme feminino

Estratégia pretende aumentar o patrulhamento a pé, revistar mulheres, crianças e idosos e quebrar resistência de moradores a policiais

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Raphael Gomide
Soldados Daiane, Marcela e Mônica atuam na Rocinha desde dezembro, logo após a formatura
Desde o fim de dezembro, 30 policiais militares femininos, jovens, bonitas e maquiadas fazem o patrulhamento ostensivo a pé nas principais vias de acesso à Rocinha, maior favela do Brasil, ocupada pelas forças de segurança desde 13 de novembro .

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Ao usar o charme feminino de PMs recém-formadas em um território conquistado em novembro, o objetivo é aproximar a população – menos resistente a mulheres que a policiais homens – e permitir a revista de mulheres, idosos e crianças.

O serviço de Inteligência do Bope, que controla a área, identificou que traficantes ainda escondidos na Rocinha têm usado pessoas menos “suspeitas” para transportar drogas dentro e para fora da comunidade. Policiais homens não podem fazer revista de mulheres; as recém-formadas não têm essa restrição.

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Três policiais femininos fazem patrulhamento na Via Ápia, uma entrada da Rocinha
Elas se formaram em 15 de dezembro, em uma turma de 411 PMs – cerca de 130 mulheres – e, quatro dias depois começaram a atuar na Rocinha, com o apoio do Bope e do Batalhão de Choque , em sua primeira experiência operacional nas ruas. No CFAP (Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças), tiveram curso de Policiamento Comunitário e estágio sobre UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Atuam nas rondas a pé pela comunidade, para completar o patrulhamento de motociclistas do Choque e as seis novas motos do Bope, adotado após os assaltos ao comércio em dezembro . São seis grupamentos de cinco policiais femininos em cada, que operam entre as 16h e as 22h nas ruas.

As “PMs fem” (femininos), como são chamadas no jargão policial, são comandadas também por uma mulher, a capitão do Bope Marlisa Neves, relações-públicas da unidade e que esteve na Rocinha desde o começo da operação. Na Via Ápia ou no Largo do Boiadeiro, duas das principais localidades da comunidade, as novas policiais tem sempre a companhia de um sargento ou cabo da Tropa de Elite da corporação.

“Ficamos em pontos estratégicos, entradas, e abordamos e fazemos revista em pontos-chaves”, explica a soldado Daiane Clive, 29 anos. Formada em Administração e com pós-graduação em Logística, ela era supervisora de RH antes de ser aprovada na corporação, em busca da “estabilidade” do serviço público.

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Comandante da tropa feminina na Rocinha, capitão Marlisa Neves usa brinco de caveira, símbolo do Bope
Fardadas, com colete à prova de balas, “cobertura” (boina), cabelo preso em coque ao estilo militar, elas não descuidam, porém, da maquiagem e dos brincos. Quase todas usam batom, blush e até sombra, sempre de modo discreto.

“Tem o lado positivo de ser PM feminino: a mulher inspira mais confiança, tem a aparência mais sensível. Mas respeitam a gente”, disse a soldado Marcela Gomes, 29 anos.

“Mais ou menos! Outro dia eu ouvi gracinha: ‘Queria ser revistado por essa mulher!’ Mas eram garotos, adolescentes”, completou a soldado Mônica Santos. Minutos depois, um homem na Via Ápia comenta, com um amigo: “Só menina (PM) bonita, né?”

Muito além desse tipo de “hospitalidade”, as novas policiais têm se sentido bem-vindas na comunidade, há menos de dois meses ocupada, após 30 anos de presença do tráfico. “A população aqui é bem receptiva – diferente de outras comunidades –, mais politizada. Parece uma questão cultural”, opinou Daiane.

Mudança de imagem da PM serviu com estímulo para entrar na corporação

Elas fizeram estágio de uma semana de instrução com o comando de UPPs. Agora, embora à disposição do 23º BPM (Leblon) e trajando o uniforme padrão da PM (camisa azul e calças pretas), elas ficam “alojadas” no Bope, unidade que comanda o policiamento na Rocinha.

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Recém-formadas, com sargento do Bope
Para a loura de olhos claros Marcela Gomes, 30 e professora de formação, a mudança da filosofia da PM – com ênfase em UPPs –, aliada ao incentivo de parentes policiais, pesou na decisão de entrar para a corporação, além do emprego público.

“A PM não tem mais a mesma imagem (negativa) de antes. Tem uma imagem positiva”, disse.

As mulheres ainda são minoria na PM. De acordo com a assessoria da corporação, até novembro – dado oficial mais atualizado disponível – eram 2.544 PMs femininos, o equivalente a 5,9% do efetivo total de 43.175 PMs.

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