Operação da PF expõe e desmonta quadrilha familiar de bicheiro

Investigação identificou as funções das figuras-chaves do bando de Piruinha, organizado por laços de sangue e de confiança

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Carros contrabandeados são apreendidos em loja de Haylton Escafura
A operação da Polícia Federal "Black Ops", que desarticulou a união de uma máfia israelense com a contravenção para contrabandear carros e lavar dinheiro, expôs e quebrou a estrutura de um dos mais tradicionais ramos da contravenção do Rio, a família Escafura, cujo patrono é José Caruzzo Escafura, o Piruinha , 83 anos. Foram expedidos 22 mandados de prisão e 11 presos na ação, dia 7.

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As investigações demonstram que a organização do jogo atua junta desde 1997 como uma empresa familiar, na qual os funcionários têm laços de sangue e de amizade próxima, seguindo a tradição do jogo do bicho. Uma forma de recompensa aos serviços prestados é a autorização para explorar máquinas caça-níqueis na área da família.

Haylton Escafura , filho de Piruinha e atual comandante de fato da organização que explora as máquinas e o jogo do bicho, está foragido, porém a maioria dos integrantes da cúpula operacional da quadrilha foi presa e está respondendo a processo judicial, após denúncia do Ministério Público Federal. Além do jogo, eles contrabandeavam carros de luxo para usar na lavagem de dinheiro, pelo Espírito Santo .

Os agentes da Polícia Federal destrincharam a organização interna do grupo, que domina o jogo em mais de dez bairros da zona norte do Rio e identificaram as funções e formas de atuação específicas de cada membro. Sete pessoas fazem parte do grupo de figuras-chave que toma decisões e opera os negócios clandestinos do grupo. Todas respondem a processo por contrabando, crime contra a economia popular, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.

Estrutura da quadrilha

Embora José Caruzzo Escafura , o Piruinha , seja o explorador desde os anos 1970 das áreas administradas – que se revertem em lucro para ele –, o octogenário já repassou ao filho Haylton a tarefa de comandar os caça-níqueis e a atuação da quadrilha no dia a dia. A Polícia Federal identificou que todas as atividades de exploração de caça-níqueis e demais negócios passam por Haylton, a quem os integrantes do grupo se reportam e são subordinados.

Júlio Cesar Blaso da Costa , o “ Julinho ”, é sócio de Haylton nas máquinas nas áreas de domínio e arrendamento de Piruinha e atua como contador, ou gerente financeiro. Ao longo do tempo, segundo as investigações da polícia, Julinho conquistou prestígio e o direito de passar a atuar de forma independente dos Escafura na exploração de pontos de jogo. A proximidade com Haylton é tão grande que os dois sócios moram no mesmo prédio, um flat na Barra da Tijuca.

A gerência operacional do bando cabe a Sandro Alberto Borba de Lima , a quem cabe a prospectar de novos negócios e locais de instalação de bingos, além de fazer a contabilidade mais simples, resultado do dinheiro recolhido das máquinas e apostas de jogo. Ele cuida de atividades administrativas, como a manutenção e programação das máquinas, além de pagar fretes e serviços de transporte.

Divulgação
Entrada do hotel na Barra, onde moram os contraventores Haylton Escafura e Julio César, seu braço-direito
Sandro também funciona como uma espécie de “secretário de luxo” e homem de confiança de Haylton, cuidando de tarefas de seu interesse pessoal do chefe, como pagamento de contas. Como demonstração dessa relação de confiança, Sandro – como Julinho – é autorizado a explorar pontos de jogo do bicho e máquinas de caça-níqueis e controla bingos de cartela.

Irmã de Julinho, Ana Carolina Blaso da Costa , a Carol, trabalha com ele na parte operacional da quadrilha, como chefe operacional intermediária, gerenciando encontros e intermediando negócios, ao rádio e ao telefone, coordenando à distância atividades como a escala de funcionários e o conserto de equipamento. É ela que recebe informações sobre a repressão policial ao negócio e as repassa ao restante do grupo, muitas vezes resultando até no reposicionamento das máquinas.

Seu marido e cunhado de Julinho, Marcelo Pereira , o Marcelo “Pikachu”, tem função semelhante, porém fica mais no campo: cuida da montagem, programação e distribuição de caça-níqueis, abrindo novos bingos e articulando a consignação de máquinas em bingos irregulares de outros contraventores.

O casal Carol e Marcelo operacionalizou a vinda de técnicos israelenses ao Brasil para revender placas eletrônicas contrabandeadas à quadrilha e adulterar máquinas. O iG revelou que o israelense Yoram El Al , principal parceiro de Haylton no contrabando de carros, foi trazido ao Brasil pelos Escafura inicialmente para adulterar máquinas e lesar o apostador, reduzindo ou impossibilitando suas chances de ganho – crime contra a economia popular. Pela intensa e relevante participação nas atividades do grupo, a Justiça negou o pedido de revogação da prisão do casal Carol e Marcelo.

Agência O Globo
Agente apreende carro importado durante operação da Polícia Federal

Outro personagem de destaque nessa área é Michel Vasconcelos Fernandes , o responsável pelas fraudes eletrônicas nos máquinas de vídeo-poker e caça-níqueis.

Ele atua como preposto de Haylton, pagando seguranças e transporte de dinheiro e sendo, provavelmente, o negociador de propina para policiais. Como Julinho e Sandro, Michel explora máquinas em áreas arrendadas de Piruinha.

O grupo contava ainda com a proteção de ao menos três policiais militares – Angel Silva Martins , o Binho, Anderson Viola Barros e Julio Cesar da Silva Boeta –, que estão presos e foram denunciados pelo Ministério Público Federal.

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