Olimpíadas são usadas como pretexto para investimentos no Rio

Em entrevista ao iG, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, diz que competição esportiva serve para impulsionar mudanças na cidade

Anderson Dezan e Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Vestindo camisa social branca para fora das calças azuis, Eduardo Paes chega risonho à sala de entrevista, anexa ao seu gabinete. São 9h10 e ele já estava havia duas horas no “Piranhão”, apelido que a sede da Prefeitura do Rio recebeu, por ficar em região antes destinada à zona do meretrício. Paes está lá desde 1º de janeiro de 2010, há pouco mais de dois anos. Desde então, ganhou alguns quilos e passou a dormir quatro ou cinco horas por noite, mas tem certeza de que prefeitos de outras capitais morrem de inveja dele. A não ser quando chove muito na cidade. Aí, ele devora barras de chocolate e mal dorme.

Cláudia Dantas
'Agora uso as Olimpíadas para tudo', diz Paes
Com estilo jovial, o prefeito de 42 anos fuma cigarrilha longe das câmeras – como o ex-presidente Lula e o governador Sérgio Cabral –, usa palavrões, e tem o estilo informal de um rapaz criado na zona sul do Rio, mesmo com autoridades. Por vezes, isso o leva a cometer gafes, como quando lamentou o estado de conservação do Palácio do Itamaraty, ao lado do chanceler Celso Amorim, na assinatura de acordo para obras no local. Com os subordinados, dá ordens, broncas, brinca e implica, sem constrangimentos.

O momento do Rio é bom. A cidade tem dinheiro e faz muitas obras, impulsionado pela escolha da cidade como sede das Olimpíadas de 2016. Eduardo Paes reconhece que a conquista – em outubro de 2009, seu primeiro ano de mandato – é seu maior capital e beneficia diretamente o seu governo. Segundo ele, acelera processos e serve como argumento para obter recursos até para coisas sem relação direta com os Jogos.

“Na verdade, agora eu uso as Olimpíadas para tudo. Envolver a cidade sem ter um argumento forte como os Jogos ou a Copa do Mundo é muito difícil. A escolha facilitou muito a minha vida. E é claro que sempre há um argumento para captar recursos, os órgãos de financiamento, desde os do governo federal quanto os internacionais, ficam mais ‘inspirados’ e ‘emocionados’.

Para ele, a vitória teria sido impossível sem a união da prefeitura com os governos estadual e federal e por isso minimiza a participação do antecessor – e desafeto – Cesar Maia no processo.

Apesar de atribuir tanta importância às Olimpíadas, evita falar da quase certa candidatura a um segundo mandato no ano que vem a ser o prefeito durante os Jogos – foram as únicas perguntas que evitou responder na entrevista. “Não estou pensando em eleição” e “Não sou candidato a nada, sou candidato a cumprir meu governo” foram as frases que usou.

Leia abaixo a entrevista:

iG: Mudou muita coisa na sua vida desde que assumiu o cargo de prefeito?

Eduardo Paes: Tirando os quilos que eu ganhei [risos], costumo dizer que ser prefeito do Rio é o melhor emprego do mundo. Quando vou a Brasília e encontro prefeitos de outras cidades do Brasil, olho para a cara deles e penso que devem morrer de inveja de mim. Ser prefeito do Rio é uma atividade que me dá enorme prazer, principalmente neste momento especial da cidade [após a conquista do direito de sediar as Olimpíadas]. Trabalho 20 horas por dia, sete dias na semana com enorme prazer. Chego todo dia na sede da prefeitura às 7h, saio tarde pra caramba. No final de semana, rodo a cidade inteira. Estamos conseguindo fazer muita coisa. É gratificante.

Cláudia Dantas
'Não estou pensando em eleição', afirma
iG: O que o surpreendeu, o que o senhor não esperava?

Eduardo Paes: Tive uma vantagem, porque já conhecia bem a prefeitura [Paes foi subprefeito da Barra e Jacarepaguá, na primeira gestão do ex-prefeito Cesar Maia, entre 93 e 96]. Fizemos um esforço grande para organizar a casa, montamos um plano de metas. A Prefeitura do Rio tem hoje 80% dos servidores trabalhando com acordo de resultados, que é o 14º salário. No geral, acho que o governo está conseguindo dar a resposta, principalmente naqueles pontos que “pareciam impossíveis”, como licitar linhas de ônibus.

iG: Mas não mudou muita coisa [os quatro consórcios que venceram a licitação são formados pelas mesmas empresas que já atuavam na cidade]...

Eduardo Paes: Mas houve licitação. Mudou porque hoje só existem quatro consórcios. É natural que as empresas pré-existentes, que já estão estabelecidas, têm os ônibus e as garagens, levem vantagem no processo licitatório. Mas para a relação com o poder público, algo mudou. Antigamente não existiam contratos nem obrigações e direitos definidos. A relação da prefeitura hoje é com quatro consórcios e não mais com dezenas de empresas. As mudanças promovidas geram resultados concretos, sendo o primeiro benefício direto a implantação do Bilhete Único sem um tostão de subsídio. Esse modelo foi possível graças ao processo licitatório. Até novembro deste ano, todos os ônibus vão estar com GPS e câmeras.

iG: Muitas obras viárias também estão sendo feitas com a promessa de desafogar o trânsito do Rio. Quando estarão prontas a Transoeste, a Transcarioca e a Transolímpica?

Eduardo Paes: A obra mais avançada é a Transoeste, que está prevista para o primeiro semestre do ano que vem. Estamos começando agora a Transcarioca, com meta para 2014. Apesar de ter recursos da prefeitura, ela é do Governo Federal. Temos ainda a Transolímpica, que vai ligar o bairro de Curicica, em Jacarepaguá, até Deodoro. Essa ainda está em fase de definição de projeto e licitação. É uma meta para 2016.

iG: De que forma as Olimpíadas influenciam na realização dessas obras?

Eduardo Paes: A Transoeste, nós começamos as obras antes mesmo de recebermos o direito de sediar as Olimpíadas. A Transcarioca tem mais a ver com a Copa do Mundo do que com as Olimpíadas. Conseguimos verbas do Governo Federal no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) da Mobilidade da Copa do Mundo. A Transolímpica surgiu integralmente por causa das Olimpíadas. Mas é claro que, com a escolha do Rio para sediar os Jogos, há um clima na cidade que permite ousar e estabelecer metas ambiciosas.

Cláudia Dantas
'Há um clima no Rio que permite ousar', avalia
iG: Quanto o senhor acha que essa vitória ajuda o seu governo?

Eduardo Paes: Muito. Na verdade, agora uso as Olimpíadas para tudo. Envolver a cidade sem ter um argumento forte como os Jogos ou a Copa do Mundo é muito difícil. A escolha facilitou muito a minha vida. E é claro que sempre há um argumento para captar recursos, os órgãos de financiamento, desde os do Governo Federal quanto os internacionais, ficam mais ‘inspirados’ e ‘emocionados’.

iG: Um de seus principais projetos, o Porto Maravilha, também está fortemente ligado à realização das Olimpíadas.

Eduardo Paes: Não estava [ligado às Olimpíadas] e passou a estar. Esse é um projeto que faz parte da lista do que “parecia impossível”. Há 30 anos tentam revitalizar a zona portuária. Hoje, o Rio tem a maior PPP (Parceria Público-Privada) do Brasil, de mais de R$ 7 bilhões. O que as Olimpíadas fizeram foi acelerar o processo. Aquilo que provavelmente demoraria 10, 15 anos.

iG: E a destruição do Elevado da Perimetral [via expressa que passa pela região portuária e conecta o centro à Avenida Brasil e à ponte Rio-Niterói], quando vai acontecer? Essa questão ainda causa desconfiança em uma parcela da população...

Eduardo Paes: As pessoas acham que vai ser gasta uma fortuna para fazer algo que não é prioridade. A questão, entretanto, é que não vai se gastar um tostão. O dinheiro é todo privado. O trânsito não vai parar porque haverá várias obras antes, como o túnel binário, alternativas à Perimetral. A demolição do elevado vai ser a última parte da revitalização do porto, só em 2016.

iG: Quanto da vitória das Olimpíadas também pode ser atribuído ao seu antecessor [Cesar Maia]?

Eduardo Paes: É um processo, mas eu tenho certeza de que o Rio não ganharia a Olimpíadas se os membros do COI percebessem um clima de desavença com o governador e o presidente. Na candidatura estavam todos juntos, com o mesmo discurso. Isso deu confiança aos julgadores. O Cesar Maia tinha tentado duas vezes e... [fecha uma das mãos e bate contra a palma da outra].

iG: Mas o Pan, realizado no governo Cesar Maia, também ajudou. Não acha?

Eduardo Paes: Ah, sim. Todos colaboraram. Tem um processo de soma. Também não dá para dizer que cheguei aqui e resolvi todos os problemas.

Cláudia Dantas
'Tenho o melhor emprego do mundo', comemora
iG: Diante de tantas obras e necessidades da cidade, como estão os cofres da prefeitura?

Eduardo Paes: Muito bem. Pegamos a prefeitura com gasto pessoal no limite, com capacidade reduzida de investimento. Fizemos um trabalho de organização das finanças, uma negociação com o Banco Mundial que nos permitiu abater uma parte importante da nossa dívida com a União, isso fez com que os juros caíssem. Foi um trabalho importante no primeiro ano de governo e começamos a sentir isso no ano passado. Hoje, a prefeitura tem condições de bancar todas essas obras, que totalizam mais de R$ 4 bilhões.

iG: O senhor está falando de muitas coisas positivas que está fazendo. Por que as pesquisas de opinião não refletem isso?

Eduardo Paes: Mas estou bem na última pesquisa, em terceiro do Brasil. Olho com muito pouca atenção para pesquisas durante a campanha eleitoral e durante o governo. Não gosto de pesquisa porque me anima demais ou me deprime... Mas confesso que os índices que tenho hoje eram os que planejava ter em 2012 na reeleição.

iG: O senhor vai ser o prefeito durante as Olimpíadas de 2016?

Eduardo Paes: Estou no meio do governo, várias coisas acontecendo...

iG: Uma coluna recente do Elio Gaspari dizia que o secretário [José Mariano] Beltrame seria o candidato do governador Sérgio Cabral para a prefeitura em 2012...

Eduardo Paes: [Ri] São pessoas querendo queimar o Beltrame, que é um santo homem, deus de todos nós, paixão das nossas vidas. Deixe o homem em paz...

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